Elisa Fernandez

O desequilíbrio da balança

Elisa Fernandez explora o impacto da diferença entre os comportamentos masculinos e femininos nos relacionamentos

Para um relacionamento ser minimamente saudável, é preciso que ambos estejam comprometidos com a própria evolução
Para um relacionamento ser minimamente saudável, é preciso que ambos estejam comprometidos com a própria evolução Foto : Unsplash

Cara leitora,

Recentemente, encontrei uma amiga querida de longa data que, ao se aproximar de mim, disparou: “Tenho uma ideia para a sua coluna.” Foi quando percebi que a coluna está cumprindo seu papel: provocar reflexão e abrir espaço para trocas. Que alegria!

A pauta? O desequilíbrio da balança, algo que vem acontecendo com frequência nas relações entre homens e mulheres.

Vivemos um tempo em que as mulheres buscam terapia, meditação, retiros espirituais, yoga, constelação familiar, limpeza do útero e todo tipo de mergulho interno. Estão em metamorfose. Abrem-se com as amigas, conversam sobre sentimentos, elaboram dores, traumas, desejos. Estão olhando para si.

Enquanto isso, muitos homens, não todos, claro, ainda resistem a essa jornada interior. Mesmo quando procuram ajuda terapêutica, falar sobre o que sentem, ou mesmo identificar sentimentos, ainda é um desafio. A troca masculina costuma acontecer em ambientes onde prevalecem o futebol, o bar, o jogo de cartas, o papo sobre trabalho, carros, motos ou até mesmo mulheres. Mas há pouco espaço para a vulnerabilidade e para o autoconhecimento.

Crescemos em uma sociedade machista. Os homens foram educados para serem “fortes”, “racionais”, “provedores”. A introspecção e a sensibilidade foram, por muito tempo, associadas à fraqueza. Por isso, estamos vivendo um descompasso evolutivo que adoece os relacionamentos.

Essa reflexão me fez lembrar do sucesso de livros como “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, do terapeuta e conselheiro matrimonial americano John Gray, publicado em 1992. O livro vendeu mais de 50 milhões de cópias no mundo, foi traduzido para mais de 45 idiomas e permaneceu por quase dois anos na lista dos mais vendidos do The New York Times. Tornou-se um fenômeno editorial e deu origem a palestras, programas de TV e toda uma indústria de “guias emocionais” que prometiam resolver as diferenças entre homens e mulheres com fórmulas quase matemáticas.

O problema é que muitos desses guias ensinavam como “lidar com o outro”, sem passar pela etapa essencial de aprender a lidar consigo mesmo. Foi aí que se criou uma cultura de ajuste externo, baseada em estratégias, e não em autoconhecimento.

Enquanto isso, as mulheres mergulharam mais fundo nessa busca interior. E quanto mais se conhecem, mais conscientes se tornam de suas escolhas. Tornam-se mais fortes, mais independentes, emocionalmente, financeiramente, espiritualmente. Deixam de aceitar o mínimo, de tolerar relações rasas ou disfuncionais.

O desequilíbrio aparece quando, por contraste, muitos homens não acompanham esse movimento. Claro, há exceções: homens maduros, presentes, que se responsabilizam pela própria história. Mas muitos ainda estão perdidos, sem saber qual é o seu papel no novo cenário afetivo, sem repertório emocional, sem saber como agir ou sequer por onde começar.

E isso deve ser absurdamente difícil para eles também. Porque existe um desequilíbrio de expectativas. Enquanto um lado amadurece, o outro paralisa. Enquanto um avança, o outro hesita.

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Precisamos ajustar a balança para construir algo novo. Mais consciente, mais honesto. Porque, para um relacionamento ser minimamente saudável, é preciso que ambos estejam comprometidos com sua própria evolução.

Relacionamento não é sobre encontrar alguém para nos preencher, mas sim sobre somar. Com equilíbrio, presença e vontade real de crescer, cada um por si, mas também junto.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.