Elisa Fernandez

Você está porque gosta ou porque precisa?

Elisa Fernandez reflete sobre o preço silencioso de trocar liberdade por previsibilidade e o risco de confundir segurança com amor

Nenhuma relação sobrevive quando o amor vira necessidade
Nenhuma relação sobrevive quando o amor vira necessidade Foto : Freepik / CP

Cara leitora,

Vira e mexe, a mesma música volta a tocar na cabeça como um chiclete que não desgruda. Hoje foi ela, a maravilhosa Rita Lee, que apareceu. Já passou por aqui antes, e volta agora, bem no meio de um dia em que o bloqueio criativo resolveu dar as caras.

Final de ano chegando, mil tarefas se atropelando, e aquela sensação de branco. É tanta coisa para dizer que parece liquidação de shopping: você entra decidido a comprar algo, mas sai de mãos abanando, perdido no meio das opções.

Ontem, antes de dormir, me veio um insight sobre algumas conversas recentes com casais passando por relacionamentos em crise. Quem nunca, né? Quem nunca viveu aquela fase em que o amor parece em suspensão e o coração não sabe se fica ou se vai?
Rita, lá no fundo, me lembrava:

“Ah, são coisas da vida
E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica.”

E talvez esse seja mesmo o ponto mais dolorido de um relacionamento em crise, o da indecisão.
Quando você começa a revisitar a própria história e se pergunta, sem conseguir uma resposta clara: estou aqui porque ainda amo, ou por que preciso?

E o que é esse “precisar”, afinal?
Na maioria das vezes, sejamos honestos, não é sobre o amor em si, é sobre a estrutura que o amor ajudou a erguer. É o conforto da casa dividida, as contas pagas, as viagens garantidas, o status social, a rotina que parece mais segura a dois.
É o medo de perder a estabilidade, o padrão, o roteiro.
Mas no fundo, é o preço silencioso de trocar liberdade por previsibilidade.

E talvez esse seja o ponto que mais incomoda: perceber que o medo de mudar é maior que a vontade de ser feliz. A gente chama de “fase ruim”, de “instabilidade”, de “cansaço”, mas no fundo é covardia travestida de racionalidade. É mais fácil culpar o tempo, os boletos, a rotina, do que admitir que o amor virou acomodação. E enquanto você tenta se convencer de que é só um momento, a vida vai passando, e você vai ficando… por precisar, não por querer.

E essa é uma das armadilhas mais comuns nos relacionamentos em crise: confundir segurança com afeto, e dependência com amor.
Mas a verdade é que nenhuma relação sobrevive quando o amor vira necessidade.
E quando o medo ocupa o espaço que antes era do desejo, a vida pede mudança, ainda que doa.

Veja Também

Sim, o processo é duro. As incertezas pesam, a decisão demora, e o coração parece carregar o mundo. Mas, quando finalmente a escolha é feita, seja de ficar, seja de partir, vem a leveza.
A sensação de reencontro com quem você é.
A redescoberta do respeito por si mesmo.

É o momento em que você percebe que, para seguir, é preciso soltar os pesos, porque relacionamentos em crise só se transformam quando alguém tem coragem de aliviar a bagagem.
Afinal, o balão só sobe quando a gente solta o que está nos prendendo ao chão.
E a vida é sobre isso: saber a hora de segurar e, principalmente, saber a hora de deixar ir.
Na dúvida, voe. Você pode descobrir que é capaz de ir mais alto, e talvez até mais longe.


Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.