Cara leitora,
Uma das coisas com as quais sempre tive enorme dificuldade são aquelas perguntas clássicas de RH, coaches, psicólogos e afins: “Como você se enxerga daqui a cinco anos?”. Sempre achei curioso como se espera uma resposta objetiva para algo que, na prática, escapa completamente do nosso controle? Não consigo ter tudo planejado, organizado e previsto.
Não sei nem se estarei viva amanhã. Como assim cinco, dez, quinze anos? Confesso que admiro profundamente quem tem a vida planejada, toda desenhada em planilhas mentais e metas anuais. Mas, só de pensar me dá taquicardia.
Sempre acreditei, e sigo acreditando, que muita coisa boa da vida acontece fora do script. No improviso. No susto. Naquele momento em que a vida bate à sua porta e você resolve abrir, sem nada planejado.
Curiosamente, sempre que precisei ensaiar, decorar e me preparar demais, a coisa desandou. Quanto mais preparação, maior a autocobrança. E quando a autocobrança entra em cena, o nervosismo, o travamento, o branco.
Mas quando me permito saber por saber. Confiar sem me torturar. Arriscar, improvisar, tudo flui melhor.
Como? Não faço a menor ideia.
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Mas é nesse improviso da vida que guardo algumas das minhas melhores memórias.
Uma delas envolve uma banda que marcou a minha juventude, nos anos 90, Erasure, especificamente a música: Little Respect. Quando soube que anunciariam shows no Brasil, comentei com minha amiga, aquela que viveu comigo os melhores momentos da época, com aquela provocação, “vamos?”.
Havia shows no Rio, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Comentamos, suspiramos, não nos mexemos. Não compramos ingresso, nada foi planejado e, a expectativa ficou ali, no vácuo.
Coincidentemente, para quem acredita em coincidências, fui a Porto Alegre a trabalho. Estava eu à noite, no hotel, me preparando para o dia seguinte, TV ligada, fazendo companhia, quando de repente, surge na tela o anúncio, show da banda em Porto Alegre. Não acreditei!
Entrei no site na mesma hora, ingressos esgotados. Óbvio!
Pensei comigo, não acredito que estou aqui e vou perder. Mas, vida que segue. No dia seguinte no trabalho, gravando um comercial. Entre um take e outro, acionei amigos, parceiros, contatos da cidade. A resposta foi uníssona, “puxa… desse infelizmente não tenho”.
Pensei, não era pra ser.
Até que, em meio ao papo no set, o artista do comercial, sem spoiler aqui, ficou sabendo da minha saga. Ser humano incrível que é, acionou um contato, e no dia do show, ele conseguiu!
Fomos ao show. Uma mistura improvável, que só não planejado proporciona. Quando o cantor anunciou uma música de 1991. Eu pulava, dançava, emocionada, e comentei com minha amiga que eu ia para a faculdade ouvindo essa música.
Ela sorriu e respondeu, com a maior naturalidade do mundo, eu não era nem nascida.
Tem coisa melhor?
Se tudo tivesse sido milimetricamente planejado, organizado, controlado, quais seriam as chances de isso acontecer?
Em verdade só temos o hoje. E, muitas vezes, o que realmente importa nunca foi planejado.
Me perdoem os que planejam. Mas eu não consigo. E, mais do que isso, nem quero.
Como diz uma amiga minha, irmã de coração,
“Não faças tantos planos para a vida, para não estragares os planos que a vida tem para você.”
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
