Elisa Fernandez

Quero-quero educar. Mas será que consigo?

Na observação silenciosa da natureza, Elisa Fernandez reflete sobre autonomia, presença e os desafios de educar sem sufocar

O quero-quero é conhecido por estimular a autonomia dos filhotes, mantendo vigilância constante à distância
O quero-quero é conhecido por estimular a autonomia dos filhotes, mantendo vigilância constante à distância Foto : Juan Felipe Ramírez / Pexels / CP

Cara leitora,

Ahhh, férias!
Nessas fases de pausa para recarregar as energias, percebo que fico ainda mais observadora. E você?

Foi num desses momentos raros, sentada sozinha, tomando sol, sem pressa, que me deparei com um filhotinho de quero-quero. Sabe o pássaro? Nunca tinha visto um filhote antes. Coisinha linda!

O pequeno andava para lá e para cá sozinho, procurando comida, explorando o espaço. E os pais? Acompanhavam de longe, atentos, mantendo uma distância saudável, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Fiquei ali um bom tempo, observando em silêncio a sabedoria da natureza e a forma como aqueles pais conduziam a criação do filho, com autonomia, presença e liderança, nem sempre silenciosa. Porque, quando alguém se aproximava demais, vinha a gritaria, o voo rasante, o aviso claro antes do ataque. Proteção total.

Tenho um filho adolescente. Impossível não traçar uma analogia sobre o quanto educar é no mínimo, desafiador.

A educação, hoje, parece exigir respostas prontas para dilemas que mudam o tempo todo. E foi ali, naquela cena simples, que comecei a minha viagem.

Descobri que o quero-quero nasce precocial. Isso significa que ele já nasce andando, explorando e se virando. Diferente de aves que ficam no ninho esperando comida, o filhote de quero-quero anda pelo chão desde o primeiro dia, meio desengonçado, curioso, vulnerável, mas livre.
E aí vem o ponto mais bonito, os pais nunca estão longe.

Eles não grudam.
Não carregam.
Não impedem a queda.
Mas também não abandonam.

Ficam sempre por perto, observando. Se posicionam estrategicamente para distrair predadores. Gritam, atacam, simulam ferimentos, fazem escândalo se alguém chega perto demais. Intervêm só quando existe risco real.
Proteção sem controle.
Cuidado sem invasão.

Confesso, deu aquela sensação esquisita, tipo… por que a gente não consegue ser assim com nossos filhos?

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No mundo animal, o filhote aprende caminhando sozinho, errando o passo, sentindo o chão, mas com a segurança invisível de quem sabe que não está desamparado. Será que parte do nosso sofrimento, enquanto mães e pais, não mora exatamente aí? No fato de esquecermos que presença não precisa ser opressão? Que autonomia não é abandono?

Será que nosso papel na educação não é simplesmente garantir um entorno seguro para que nossos filhos caminhem? Confiar no processo de crescimento? Aceitar que aprender envolve riscos? Em que momento nos esquecemos de que a maturidade não nasce do excesso de proteção, mas da combinação certa entre liberdade e amparo?

Lembro de ter sido uma adolescente “tranquila”. Vejo meu filho sendo também. Mas aquela cena me atravessou como um convite para refletir sobre o que posso aprender, e como posso ser melhor.

Talvez educar não seja sobre vigiar cada passo, nem sobre soltar de uma vez. Talvez seja sobre aprender a observar mais, intervir menos e confiar melhor. Estar por perto sem invadir. Proteger sem sufocar. Liderar sem controlar. E que, como o quero-quero, mesmo à distância, nunca deixe de estar presente quando realmente importa. Talvez não precise ser tão complicado.

E talvez a natureza, de vez em quando, sente ao nosso lado no sol só para lembrar disso.

Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.