Cara leitora,
Ainda fascinada com o quero-quero, o pássaro que inspirou a coluna da semana passada, fiquei com aquela cena remoendo na minha cabeça. Não pelo pássaro em si, mas pela constatação de que um mesmo tema, quando observado com atenção, pode revelar muito mais do que a gente imagina. Depende do olhar. E foi assim que, quase sem perceber, comecei a enxergar aquela mesma cena atravessando outros territórios da vida, especialmente o mundo corporativo.
Sim, na semana passada falamos de educação e filhos. Por que não, agora, falar sobre liberdade, liderança e gestão? No fundo, os dilemas não são tão diferentes assim. Não sei se você lembra, mas também escrevi uma coluna com uma analogia entre o voo dos gansos e a liderança: Lidere como um ganso. Lembra? Recomendo a leitura. E percebo que pássaros, involuntariamente, captam minha atenção e me fazem refletir.
No gramado, o filhote caminhava sozinho. Os pais observavam de longe, atentos, prontos para agir apenas quando o risco era real. No mundo corporativo, quantas vezes fazemos exatamente o contrário? Grudamos, controlamos, antecipamos, interrompemos. Confundimos presença com vigilância. Liderança com microgestão.
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E aí nos perguntamos por que as pessoas não crescem.
Empresas vivem dizendo que querem times mais autônomos, criativos e responsáveis. Mas, na prática, muitas ainda funcionam como pais inseguros. Querem liberdade no discurso, mas controle na rotina. Querem iniciativa, mas não toleram erro. Querem protagonismo, mas não largam o bastão.
O quero-quero ensina algo simples e poderoso. Autonomia não se constrói no colo. Ela nasce no espaço, no silêncio atento, na confiança de que o outro é capaz, mesmo que tropece.
Líderes que observam mais e intervêm menos formam pessoas mais seguras. Gestores que criam um entorno protegido, com metas claras, combinados justos e limites bem definidos, permitem que cada um caminhe com mais responsabilidade. Não é ausência de liderança. É liderança madura.
Claro que, quando o perigo se aproxima, o quero-quero não hesita. Ele grita, voa rasante e protege. No mundo corporativo, isso também é necessário. Liderar não é ser omisso. É saber quando agir, quando corrigir, quando defender o time e quando dizer até aqui.
Talvez o maior desafio das lideranças hoje seja esse equilíbrio delicado entre controle e confiança. Entre estar perto e não sufocar. Entre orientar e deixar aprender.
Assim como na educação dos filhos, a gestão também pede desapego. Pede coragem para não interferir o tempo todo. Pede maturidade para entender que crescimento vem do movimento, não da tutela constante.
Talvez liderar seja isso. Criar gente para o mundo, não para o ninho. E aceitar que bons times, assim como bons filhos, não nascem da vigilância excessiva, mas da combinação certa entre liberdade, presença e responsabilidade.
E, mais uma vez, a natureza ali, quieta, só nos lembrando do óbvio. Talvez o exercício não seja encontrar novos temas, mas aprender a olhar melhor para os que já estão diante de nós. Quem sabe, se a gente começar a observar assim, a vida inteira passe a nos ensinar mais do que imaginamos.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
