Depois de aparecer no iogurte, no pão de forma, no sorvete e até mesmo na água, a proteína chega agora à cerveja. A Ambev anunciou na última quinta-feira, 23, a Spaten Pro, com 10 gramas do nutriente por lata de 350 ml, sem álcool e com menos de 100 calorias. Segundo Daniel Waks, presidente de marketing da empresa, o Brasil é o mercado piloto da novidade que busca se adaptar ao momento atual em que um único nutriente virou sinônimo de “alimentação saudável”.
O produto foi desenvolvido ao longo de cinco anos no Centro de Inovação e Tecnologia da companhia, no Rio de Janeiro, com mais de 100 protótipos até a receita final. Mas, para além da engenharia por trás da lata, o lançamento levanta uma questão que interessa menos à indústria e mais a quem consome: a suplementação de proteína é essencial para todo mundo?
Entre os macronutrientes, ao lado dos carboidratos e das gorduras, a proteína desempenha um papel essencial na formação dos órgãos, tecidos e músculos, segundo especialistas da Agência Einstein. Também participam da produção de hormônios e anticorpos, contribuem para a saúde da pele, dos cabelos e das unhas, auxiliam na regulação do metabolismo, podem ser utilizadas como fonte de energia e promovem maior sensação de saciedade, ajudando no controle do apetite.
➡️ A questão, porém, não é sua importância, mas a quantidade de proteína que o organismo realmente precisa.
Para Raquel Canuto, nutricionista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), a novidade está associada ao chamado mercado wellness, o segmento que reúne produtos e serviços voltados à saúde, ao bem-estar e à performance física, hoje um dos que mais crescem no mundo. O crescimento vem da preocupação com a saúde, da rotina de exercícios e de um padrão de beleza que, difundido pelas redes, se concentra na magreza combinada à construção de um corpo musculoso.
“Na esteira disso, vem, então, um grande movimento da indústria de alimentos para a venda de suplementos alimentares, principalmente os que prometem algum aporte de proteína”, afirma.
Dimensionando o fenômeno, a consultoria holandesa Innova Market Insights elegeu a proteína a principal tendência global de alimentos e bebidas para 2026, além de afirmar que 80% dos consumidores no mundo dizem prestar atenção à quantidade do nutriente na dieta.
No Brasil, um levantamento da Scanntech em parceria com a McKinsey mostra que, ao longo de 2025, os alimentos ricos em proteína deixaram de ser associados apenas a atletas e passaram a integrar a rotina de um público mais amplo. Entre janeiro e outubro daquele ano, as vendas de whey protein cresceram 124% em volume, as de creatina, 89%, e as de iogurte proteico e produtos pré e pós-treino, 16% cada. Já os suplementos esportivos subiram 141%.
🤔 Afinal, precisamos mesmo de mais proteína?
No entanto, segundo a nutricionista, esse crescimento tem uma explicação que vai além da nutrição. Canuto atrela o boom a uma falsa ideia de que seria impossível conquistar músculo com uma alimentação comum, sem o reforço dos suplementos. O argumento pressupõe uma carência de proteína que, na prática, é atípica no país.
“Os brasileiros não têm uma deficiência no consumo de proteína, muito pelo contrário”, explica.
Para ela, o marketing das metas proteicas se aproveita justamente dessa desinformação.
No artigo “O mito do déficit proteico”, publicado na Revista de Saúde Pública a partir da análise da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) concluíram que a carência proteica é rara no país. Mesmo entre os 20% mais pobres da população brasileira, a proporção dos que apresentam ingestão proteica insuficiente é menor que 3%.
O levantamento aponta ainda que o verdadeiro déficit alimentar do brasileiro está em outro lugar: 78,6% dos adultos das capitais não alcançavam, em 2023, a recomendação da OMS de 400 gramas diárias de frutas, legumes e verduras, segundo a pesquisa Vigitel.
👉 Entenda a quantidade ideal do nutriente para uma rotina saudável
A necessidade varia conforme a idade, peso e rotina. Para um adulto saudável, a recomendação é de 0,8 grama por quilo de peso ao dia, o equivalente a 64 gramas para alguém de 80 quilos, segundo a Agência Einstein. Quem treina diariamente pode precisar de 1,4 a 2 gramas por quilo, de acordo com a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva, e idosos, de 1 a 1,5 grama.
Ainda assim, a nutricionista pondera que esse aumento ainda não justificaria a suplementação para a maior parte das pessoas. “A maioria de nós faz atividade física três, quatro vezes por semana no máximo, e a gente consegue alcançar isso por meio da alimentação”, complementa Raquel.
Carnes, ovos, laticínios e a combinação de arroz com feijão dão conta da demanda, segundo a especialista. Também são fontes as demais leguminosas, como ervilha, lentilha e grão-de-bico, além de oleaginosas como castanhas, nozes e amêndoas. “Aquele nosso prato básico do arroz com feijão é super importante para a gente conseguir bater o que a gente precisa em termos de necessidade proteica”, destaca.
🍻 “Adição, não troca”
Na conta, os 10 gramas de proteína de uma lata de Spaten Pro equivalem a pouco mais de um ovo, ou a cerca de metade de um pote de iogurte grego, por um preço entre R$ 10 e R$ 13. A proteína da nova cerveja vem do leite: 75% são de whey hidrolisado, derivado do soro, e 25% de colágeno hidrolisado, segundo Lucas Fachine Dato, diretor do Centro de Inovação e Tecnologia da Ambev para a América do Sul.
A empresa, no entanto, trabalha a partir de outra lógica. Diante de um mercado promissor que prioriza a saúde e o bem-estar, eles alegam que o consumidor busca novas ocasiões para beber cerveja, e é isso que o lançamento pretende oferecer.
“Naturalmente, quando a gente fala de inovação, a primeira coisa que vem na nossa cabeça é a troca. E faz todo sentido essa pergunta, a gente debateu muito sobre isso”, disse Daniel Waks, vice-presidente de marketing da companhia, em coletiva no Rio. “Não necessariamente existe uma troca. Eu acho que aqui não é uma troca, é uma adição. [...] O consumidor não quer abrir mão de nada: nem da meta nutricional, nem de beber uma cerveja.”
🥗 Nutricionismo: quando o alimento é reduzido a nutriente
O incômodo da nutricionista com a proteína isolada tem nome e ganhou destaque recentemente em entrevista ao Estúdio CBN, com a chef e apresentadora Rita Lobo, que criticou o que chama de nutricionismo: a lógica de olhar para a alimentação apenas pela lente dos nutrientes isolados. Para ela, trocar arroz, feijão, carne e salada por “proteína”, “carboidrato” e “gordura” não é só uma mudança de vocabulário.
“Quando a gente deixa de falar em arroz, feijão, carne, legumes, e passa a chamar tudo de proteína ou carboidrato, a gente reduz a comida a uma fórmula. Isso abre uma porta para a entrada dos ultraprocessados”, afirmou.
Para Lobo, o reducionismo não é neutro. Ao transformar comida em macronutriente, deixa de importar se a fonte vem de um prato feito ou de um produto industrializado enriquecido artificialmente. Mais do que isso, a lógica romperia com o próprio conceito de refeição, que envolve rotina, contexto e sociabilidade.
É a esse raciocínio que Canuto retorna ao avaliar a cerveja proteica: “deveríamos estar falando em consumir alimentos, e não em consumir suplementos”. Questionada sobre o lançamento, ela acredita que o produto atua em um movimento maior, que funciona menos como inovação nutricional e mais como uma estratégia de marketing para criar apelo ao consumo de cerveja.
“A gente vê que a geração mais nova, das pessoas até 30 anos, tem consumido menos álcool. E o mercado de bebidas alcoólicas viu uma perda de consumidores”, afirma a nutricionista.
Para complementar, o brasileiro está, de fato, bebendo menos: dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) mostram que 64% da população declarou não consumir álcool em 2025, contra 55% em 2023.
⚠️ Os riscos do excesso
Raquel ressalta que há ainda um efeito que dificilmente entra na conversa sobre proteína: o do excesso. Quando o consumo passa do que o corpo precisa, o nutriente extra não vira reserva, mas resíduo a ser processado e eliminado, o que pode sobrecarregar o organismo com o tempo.
Entre os efeitos possíveis do exagero prolongado estão:
• Sobrecarga renal: o excesso de proteína aumenta o trabalho dos rins, que precisam filtrar e eliminar os resíduos gerados no metabolismo do nutriente.
• Aumento do ácido úrico: o metabolismo proteico em excesso pode elevar os níveis de ácido úrico, associado a quadros como a gota.
• Risco cardiovascular: o consumo exagerado de proteína animal se associa a risco cardiovascular, ligado à gordura saturada dessas fontes, e o abuso de carnes pode elevar a excreção de cálcio na urina.
Ainda segundo a agência Einstein, a suplementação tem indicação real em alguns casos, quando a alimentação não supre a demanda: atletas, pessoas em dietas restritivas, como veganos, além de idosos, gestantes, lactantes e pacientes em recuperação, e sempre junto a um nutricionista especializado. Fora esses grupos, o reforço é dispensável.