Porto Alegre debateu na noite desta terça-feira a relação de neurobiologia, psicopatia e a crise da sociedade no feminicídio. O painel integra a programação da Brain Week, que reúne especialistas de diferentes regiões do Brasil e internacionais para discutir as inovações referentes a doenças psiconeurológicas.
A expectativa é que o encontro alcance 7 mil pessoas entre psiquiatras, neurologistas, geriatras, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas até o dia 7 deste mês. A programação para os dias do evento conta com atrações distribuídas no Teatro da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e no Auditório Araújo Vianna.
O painel recebeu duas psiquiatras para tratar da relação entre violência de gênero e doméstica e transtornos psiquiátricos. A primeira delas a falar foi a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Helena Najar Abdo, que analisou diversos fatores de risco para violências domésticas. De acordo com ela, é necessário entender que as agressões de gênero têm motivações culturais.
“Não é obrigatória a presença de um transtorno psiquiátrico em um homem que pratica violência, mas muitas vezes esse homem abusa de álcool, um transtorno afetivo, por vezes ele está vivendo conflitos relacionais, desemprego ou rejeição pela parceira”, explica a especialista.
Em seguida, a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e preceptora da residência em psiquiatria forense do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Lisieux Telles, destacou que apesar de que exista pouca relação entre os violência e transtornos psiquiátricos por parte dos autor, esses mesmos transtornos são fatores de risco para mulheres vítimas de violência.
“Embora muitas vezes se ouça na defesa de que o crime foi cometido por impulsividade, estamos falando aqui de uma violência que existe em escalada. Ela começa com a violência psicológica, que evolui para uma violência física, violência sexual e pode chegar tanto ao homicídio quanto ao suicídio”, afirmou a palestrante.
Entre os fatores de risco citados estão o estado civil, a condição de imigrante, identidade étnica e a decisão de ruptura da relação. “É como se elas decretassem a própria sentença de morte, e ela nos dizem isso e nós sabemos que esse risco dura por pelo menos um ano”, destacou a psiquiatra.
Na ocasião também foram apresentados dados sobre a violência com perspectiva de gênero em todo o Estado. Em 2025 foram registrados 80 mortes de mulheres em razão da condição do sexo feminino. Neste ano, até o momento do debate, a média para o Rio Grande do Sul era de um feminicídio cometido a cada dois dias, com 36 casos consumados em menos de seis meses.
A Brain Week conferiu à Porto Alegre o título de Capital do Cérebro. A programação é concomitante com a 22ª edição do Congresso do Cérebro, Comportamento e Emoções que ocorre entre os dias 3 e 6 de junho no Centro de Eventos da Fiergs, com o objetivo de debater os avanços em saúde mental, neurologia, comportamento humano e inovação na área da saúde.