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Manchado de sangue terás que crescer

Por Christopher Goulart, advogado, escritor

Durante muitos anos, eu escrevi artigos em jornais de grande circulação do Rio Grande do Sul, entre eles, honrado em ser acolhido com muitos textos por mais de dez anos pelo Correio do Povo. Poder deixar uma mensagem ao leitor, no sentido de que possa acrescentar algo, sempre me seduziu. Vaidade? Talvez, porém opto pela ideia de que sei que a vida passa muito rápido. Não gostaria de partir sem deixar algum tipo de ensinamento para outras gerações. Entendi que não poderia fazer isso por meio da política, pois entendi que meu perfil não combina com lugares de bases fisiológicas extremamente ardilosas. O fato de ser transparente e direto me prejudicou muito num mundo onde faz-se necessário ser obscuro e indireto.

Foi então que, quando iniciou a Covid-19, no ano de 2019, iniciei o projeto de escrever um livro, uma autobiografia que se confunde com a história do Brasil. Entendi que, através dele, as pessoas poderiam de fato conhecer o Christopher, desmistificando o “Neto de Jango”. O livro tem Juremir Machado e Alcy Cheuiche como autores dos prefácios, o deputado federal Afonso Mota como autor do posfácio e o professor Jorge Ferreira (Autor da melhor biografia de Jango) como revisor técnico, amigos que a vida me proporcionou, justamente em razão de suas eternas ligações com o meu avô, presidente Jango.

Entendi, nestes 48 anos de vida, que a verdadeira conexão se cria através da empatia entre as fragilidades humanas. A partir disso, geramos uma relação sincera e verdadeira, a mesma que não se configura no método tradicional de jogar confetes sobre a própria cabeça. Não vejo nenhum sentido em ser cúmplice de um mundo de faz de conta, de mentiras, traições, hipocrisia. Prefiro pagar o preço da autenticidade a ter que ser dissimulado para depois dar um bote sorrateiro. Definitivamente, "tô fora!".

De outra sorte, não desconheço que o livro pode assim mesmo marcar um fato político. Digo isso porque as pessoas não fazem a menor ideia de como o golpe de 64 marcou minha família, incidindo diretamente em minha realidade, começando desde o início: meu nascimento no exílio. Não existe nenhum glamour na realidade de um neto de um presidente que morreu provavelmente assassinado no exílio. Posso afirmar com convicção que conheço o lado mais podre da política, aquele em que as pessoas são capazes de destruir uma família, aquele em que todos os “amigos” se afastam, aqueles em que as pessoas são capazes de cometer um assassinato. Vale lembrar: meu pai João Vicente tinha apenas 19 anos quando meu avô morreu no exílio. O título, “E manchado de sangue terás que crescer”, tem relação direta com tudo isso.

Uma história de superação como poderia ser a de qualquer outra pessoa, sem vitimizações. Uma história de lutas. É por isso que te convido a ler esse livro, que tem como objetivo o encontro de semelhantes, por mais distantes que possamos parecer estar. Sempre muito grato, optando sempre por menos julgamentos e mais compreensão. “¿Quién dijo que todo está perdido? Yo vengo a ofrecer mi corazón”.