Editorial

Ciclos que se cruzam

Aos poucos, em proporção inversa ao recuo vagaroso do nível das águas do Guaíba, começa-se a pensar no hercúleo trabalho de reconstrução das cidades no seu entorno, inclusive da mitigação dos imensuráveis danos em outros municípios situados à margem dos diversos cursos d'água do Estado. Isso não significa diminuição do labor cotidiano dos agentes envolvidos nas tarefas dos salvamentos e de salvaguarda dos atingidos pelas cheias, mas aponta, talvez, para uma nova etapa de administração das consequências, que deverão perdurar por e muitos anos no mapa do Rio Grande do Sul. E isso, é bom lembrar, não é algo que configure um episódio com características de ser isolado. Como bem vem alertando o Correio do Povo e a MetSul, os sinistros climáticos vieram para ficar e, tão logo uma inundação arrefece, é preciso estar atento para efetivar um conjunto de prevenções que possam amenizar recorrências vindouras e bastante prováveis.

A atividade dos voluntários, dos socorristas e dos agentes públicos envolvidos nas ações de resgate, tanto de pessoas como de animais de estimação, tem sido intensa e imprescindível e permeada por muita emoção para todos os envolvidos. Nessa quinta-feira, a retirada do cavalo Caramelo de cima de um telhado de uma casa em Canoas, depois de ficar quatro dias ilhado, emocionou o país e o mundo e se tornou o símbolo de uma resistência que grassa em tudo e em todos na coletividade, ainda mais por ser o cavalo um elemento indissociável da história dos gaúchos.

Como bem já se vem acentuando, urge que as cidades atingidas sejam incorporadas com brevidade ao orçamento dos governos do Estado e da União, além de serem aceleradas as medidas preventivas que possam evitar novas cheias ou, pelo menos, amenizar seus efeitos. Cada prefeito, junto com sua comunidade, por certo saberá o que é prioridade na sua localidade e não pode faltar recursos para infraestrutura e para as obras necessárias. Antes mesmo que se feche o atual ciclo de adversidades, é preciso que se abra um outro de cuidados, de cautelas e de realizações tendentes a enfrentar futuras intempéries que não deveriam nos pegar desavisados.