Editorial

Uma revelação impactante

Existe um consenso acerca da inundação que tomou boa parte de Porto Alegre: não houve a manutenção adequada do sistema de proteção. Isso é uma falha que não pode se repetir e as causas precisam ser apuradas para o bem da prevenção necessária. Muitos fatos devem ser investigados e muito precisa ser esclarecido para a população, que perdeu seus bens, seu parco patrimônio, seus animais de estimação e até mesmo suas memórias de família, sem jamais esquecer que vidas foram perdidas e há também desaparecidos, além dos milhares de desabrigados. É certo que o volume de precipitação pluvial foi em níveis demasiadamente altos para este período, fugindo à normalidade, desafiando estruturas protetivas, mas isso é apenas parte da verdade, que envolve questões técnicas de defesa e de reação às cheias que não podem ser desconsideradas no tocante à sua eficiência.
Um estudo divulgado por um grupo de 42 engenheiros, arquitetos e geólogos, na última quinta-feira, traz novas luzes sobre o que ocorreu para que a cidade fosse tomada pelas águas do Guaíba, numa inundação sem precedentes na história da capital gaúcha e contribuindo para a maior tragédia climática do RS e do Brasil. De acordo com o manifesto, a indicação é que a falta de investimentos tornou obsoleta uma engrenagem protetiva que envolve cerca de 60 quilômetros de diques e barragens, de norte a sul do município. E, nesse contexto, igualmente importantes, há o Muro da Mauá, que tem o papel de dique para área central urbana, desde a altura da rodoviária até a usina do Gasômetro. Em todo o aparato, existem 14 comportas, para a entrada e a saída da água, e 23 casas de bombas hidráulicas, com suas próprias comportas, que devem atuar como pontos de drenagem da água, para devolver as eventuais inundações à sua origem. Complementando a funcionalidade, existe o Arroio Dilúvio, na Avenida Ipiranga, que integra o sistema de diques internos. Pois bem, toda esse complexo, segundo a nota, se bem coordenado e “azeitado”, está apto para impedir o transbordo de enchentes até 6 metros. Ocorre que, mesmo sendo recorde, o nível do Guaíba teve seu pico em 5,33 metros, o que indica que ficou abaixo do que seria a previsão limite para a instalação protetiva.
Esta revelação é realmente impactante e merece ser alvo de resposta do poder público como um todo. Afinal, a gestão do cais e das adjacências é compartilhada. O motivo de determinados equipamentos não funcionarem a contento ou até de simplesmente não funcionarem tem que ser plenamente esclarecido e as providências saneadoras necessitam ser tomadas sem tardança.