Há algumas notícias que continuam a surpreender a todos, como a de que o sistema digital da Previdência é burlado para que os pagamentos para quem já morreu, ainda que registrado o óbito na forma prevista em lei, continuem a ocorrer mesmo em tempo de alta informatização e de integração de sistemas. Ou a de que um mandado de prisão possa deixar de ser cumprido num estado porque não houve comunicação dos órgãos responsáveis de origem em outra unidade da federação. No geral, para o cidadão comum, a expectativa é que haja uma estrutura eficiente e integrada para dar conta de situações como essa, pois é para isso que os tributos são recolhidos, com a finalidade de financiar a máquina pública para que ela tenha a agilidade necessária no exercício de suas atribuições.
Há uma outra questão, a par das citadas, que pode até parecer normalizada pela recorrência num primeiro momento, mas que, a exame mais apurado, não pode deixar de causar espécie. Trata-se do envio de animais silvestres por meio do sistema postal. De acordo com a Polícia Federal, grupos delituosos estão se valendo dessa modalidade para enviar espécies exóticas que, inclusive, podem comprometer os ecossistemas e sua fauna e flora, como é o caso das cobras do gênero píton, que são naturais da Ásia. Elas podem viver por cerca de 30 anos e, por não terem predadores no Brasil, são capazes de dizimar outros animais, além de terem a capacidade de reproduzir-se por si só. A investigação começou com a apreensão de diversos répteis em uma agência de uma cidade do interior da Bahia, onde foi detectada a fraude de objetos postais contendo carga viva e, a partir daí, constataram-se ramificações em todo o país e com o exterior.
O tráfico de animais silvestres movimenta bilhões de dólares no país e no mundo e o Brasil, pela sua riqueza de exemplares, é muito visado. Cada vez mais, os traficantes vão encontrando formas de burlar a fiscalização e a repressão e, neste sentido, é preciso que o poder público, valendo-se da inteligência policial, consiga mapear rotas, criminosos e, especialmente, os receptadores. Contudo, o que não é aceitável nem verossímil é que canais regulares, como os serviços dos correios, sejam usados, até com certa facilidade, para a prática de crimes ignominiosos como o desse contrabando que avilta os ecossistemas. Para ocorrências desse tipo, há que serem criadas regras que as evitem definitivamente. Afinal, não é crível que os bandidos se apropriem do varejo legal para praticar crimes no atacado.