Símbolos de um período em que o Rio Grande do Sul consolidava o turismo de excursões ao Litoral Norte, os antigos terminais turísticos de Cidreira e Tramandaí seguem marcados pelo abandono. Passadas décadas do auge e mesmo após anúncios oficiais de demolição, a situação permanece praticamente inalterada, com destaque para o cenário de ocorrência em Cidreira.
À distância, o prédio do antigo terminal de Cidreira ainda chama atenção pelo porte. De perto, no entanto, o cenário é de deterioração avançada. Grande parte das marquises já desabou, as lajes apresentam rachaduras e o espaço que já recebeu milhares de excursionistas durante o veraneio hoje é feito por ruínas, vandalismo e descarte irregular de lixo.
Moradora da cidade há 17 anos, Deroni Tomaz, 59, conhecida como Maia na comunidade, convive diariamente com o que considera um perigo anunciado. "Vêm drogados, pessoas se prostituem, as crianças sobem lá em cima. É um perigo constante. Não sei como não fez nada. Esses dias avisei uma mãe de uma criança que estava ali", relata.
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Ela lembra com saudade do período em que frequentava o local ainda jovem. "Eu vinha nas excursões com 18 anos, vou fazer 60 agora. Era lindo, tinha restaurantes, banheiros, uma estrutura de primeiro mundo. Os ônibus ficavam do outro lado e era lotado, vinham excursões de todos os lados", conta.
Hoje, segundo ela, o cenário é outro. "Agora é lixo, é cachorro morto, é tudo. Vão esperar alguém morrer ali. E as crianças não têm noção do perigo", lamenta.
Proprietária de casas de aluguel, Maia afirma que já perdeu clientes por causa da imagem do local. "As minhas casas são boas e já perderam clientes que chegam e se assustam. Eles têm medo desse lugar. Seria maravilhoso se fossem feitos de novo", comenta.
Em junho do ano passado, após anos de alertas sobre o estado crítico da estrutura, o governo do Estado lançou edital para a demolição do prédio, com valor máximo previsto de R$ 465 mil e prazo de até 90 dias para execução após a assinatura do contrato. A licitação foi adjudicada somente em dezembro, após uma série de recursos, para uma empresa com sede em Porto Alegre, mas até o fim de fevereiro deste ano a estrutura permanece intacta, sem início efetivo dos trabalhos.
O prefeito de Cidreira, Gilberto Costa, afirma que a área pertence ao Estado e regula o risco. "Aquela situação ali está perigosa, está desabando. Eu vi crianças ali embaixo e pedi para tirarem. Me preocupou muito quando visitei aquele lugar no Carnaval, pois tinha muita gente circulando numa área perigosa", disse.
Segundo ele, por se tratar de Área de Preservação Permanente (APP), não há possibilidade de implantação de nova estrutura no local, restando apenas a demolição e limpeza da área. O prefeito informou que pretende buscar informações junto ao governo estadual sobre o andamento do processo.
Em Tramandaí, todos permaneceram
Em Tramandaí, o antigo terminal foi demolido há mais de uma década, mas o terreno segue marcado por dois grandes montes de terra misturados a entulhos. Parte da área já foi alvo de ocupações irregulares, e que antes era ponto de parada de bolsas de ônibus de transporte se transformava em um espaço sem função definida.
O comerciante José Daniel Carvalho, que há anos mantém atividade nas proximidades, afirma que pouco mudou. "Está do mesmo jeito. Promessa sempre tem, mas solução não vem", resume.
Ele registrou que, no auge, chegava a estacionar vagas de ônibus no entorno, movimentando pousadas e comércio local. Hoje, segundo ele, o fluxo diminuiu significativamente e a sensação é de descaso.
Enquanto em Cidreira a estrutura ainda ameaça desabar, em Tramandaí o que resta são marcas físicas e econômicas de um modelo de turismo que perdeu espaço sem que houvesse, até agora, uma solução definitiva para os espaços que um dia foram porta de entrada de milhares de veranistas ao Litoral Norte gaúcho.
Procurada para comentar sobre a situação do antigo terminal de Tramandaí, a prefeitura não havia se manifestado até a publicação da matéria.