Santo Antônio da Patrulha, entre a região Metropolitana e o Litoral Norte, é uma cidade de colonização luso-açoriana repleta de história e cultura, e uma das grandes facetas desta relação pode ser vista no Museu Antropológico Caldas Júnior, no bairro Cidade Alta. Ali, no alto das colinas da avenida Borges de Medeiros, foi onde nasceu o município, um dos quatro mais antigos do Rio Grande do Sul.
O museu, no número 427 desta via, não apenas tem nome que homenageia seu morador mais ilustre, Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, jornalista e fundador do Correio do Povo, cuja família passou a viver no local em 1872, assim como faz o devido registro da passagem do Imperador Dom Pedro I, que pernoitou ali há exatamente 200 anos, em 1826.
A casa também possui uma exposição permanente de itens do passado das famílias patrulhenses, e conta a trágica história de Maria Luíza Häussler, a Lisinka, mais conhecida como a Noiva da Lagoa, por meio de acervos pessoais dela, como fotografias, diários, desenhos e objetos. Lisinka foi assassinada aos 17 anos em Porto Alegre pelo então companheiro, Heinz Werner João Schmeling, de 19, em agosto de 1940, e seu corpo encontrado na Lagoa dos Barros, dando início a uma lenda relacionada ao crime passional que persiste até os dias atuais.
A casa, construída por volta de 1820, teve como seu primeiro residente o Alferes Francisco Xavier da Luz. Após atravessar os séculos, ela foi desapropriada pela Prefeitura para a instalação do museu, e passou por reformas ao longo da década de 1980, abrindo suas portas definitivamente ao público em 14 de outubro de 1982, com a presença do filho de Caldas Júnior e sucessor do pai na administração do Correio do Povo, Breno Caldas.
Entrar no museu é vivenciar uma viagem no tempo. Além de itens de Caldas Júnior e sua família, que perpassam a história da imprensa do Rio Grande do Sul, como a máquina de escrever com as quais digitou as primeiras palavras publicadas no Correio do Povo, há ali, por exemplo, relíquias únicas, como o diploma de bacharel em Direito do pai de Caldas Júnior, Francisco Antônio Vieira Caldas, o que, segundo a administração do museu, proporcionou sua nomeação para juiz em Santo Antônio da Patrulha.
Rico acervo de muitas histórias
Medalhas e condecorações recebidas pelo jornal e doadas pela família Caldas podem ser vistas no acervo da instituição. Até a licença de instalação do Correio do Povo está lá. Tombada desde 2013 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae), a residência conserva ainda hoje suas espessas paredes externas de pedra, barro e cal, e internas, de pau-a-pique. A cobertura apresenta telhado com beiral e telhas cerâmicas tipo capa-e-canal, características das construções luso-brasileiras do período colonial.
Muitas esquadrias foram preservadas – externamente, janelas de guilhotina com caixilharia de vidro e postigos – e internamente, portas de duas folhas, com bandeiras fixas, caixilhos e vidros transparentes. Os pisos são de tábuas largas, e o forro de madeira, em alguns cômodos é de tipo saia-e-camisa. A declividade do terreno, de acordo com o Iphae, permitiu a inserção de um porão na parte posterior da edificação, sob o compartimento correspondente à cozinha, onde o antigo fogão foi reconstruído com tijolos e barro.
Passados séculos desde sua construção, agora o complexo museológico está a caminho de uma grande transformação. O edital do projeto de restauro foi aprovado pela Secretaria Estadual da Cultura (Sedac), e o valor estimado pela Prefeitura é de R$ 4 milhões. R$ 2,5 milhões, correspondentes a uma das etapas, já estão aportados, sendo R$ 1 milhão da própria Administração e o restante via incentivos fiscais de ao menos três empresas locais.
O restante ainda é pleiteado, de acordo com o prefeito de Santo Antônio da Patrulha, Rodrigo Massulo. "Existe aqui um registro histórico e cultural muito forte, relacionado às nossas raízes", comentou ele. O projeto de modernização do museu inclui ampliação da acessibilidade, qualificação dos espaços expositivos e reforço do vínculo com a comunidade, fortalecendo ações educativas e culturais. Segundo a Prefeitura de Santo Antônio da Patrulha, as obras serão lançadas oficialmente no próximo dia 22 de abril.
Museu Antropológico Caldas Júnior em Santo Antônio da Patrulha
Projeto Caminhos de Memórias
"Temos muitas histórias contadas em livros e fotografias. Mas hoje, vivemos uma era digital, em que acabamos nos adaptando e resgatando a História por meio de tudo o que estas pessoas viveram aqui. É uma espécie de museu a céu aberto", disse o presidente e diretor administrativo-financeiro da Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior, administradora do local, Rafael Barcela Gudaites. Em 2024, a Administração lançou o Projeto Caminhos de Memórias, em parceria com Secretaria Municipal da Cultura, Turismo e Esportes, Fundação Museu Antropológico, Instituto Histórico e Geográfico de Santo Antônio da Patrulha e Grêmio Literário Patrulhense, e considerado uma conexão entre o passado e o futuro do patrimônio histórico local.
Uma placa com um QR Code foi instalada no local, que, no caso do Museu Caldas Júnior, destina o turista que a fotografa ao site do mesmo, contando a história da antiga residência e seus moradores. Atualmente, o projeto contempla 11 imóveis do chamado Centro Histórico, mas, segundo Gudaites, a intenção é expandi-lo para 66 dentro da área de interesse cultural do município.
Provavelmente a presença que mais chama atenção na casa onde também viveu Caldas Júnior seja a imponente Palmeira Imperial, de 22 metros de altura, doada pelo imperador quando de seu pernoite em terras patrulhenses, e instalada no hoje Jardim Imperial, nos fundos da residência. Neste jardim, há ainda um projeto ambiental envolvendo abelhas sem ferrão. Para o bicentenário da palmeira, a Prefeitura projeta complementar o projeto de memória com grandes ações, entre elas a inauguração de um busto de Dom Pedro I próximo à árvore e a instalação de um sistema de iluminação junto a ela. "Queremos que seja visível de todos os pontos da cidade à noite", contou Gudaites.
Em frente ao museu, encontra-se a própria sede da Prefeitura, e os equipamentos históricos do entorno do museu antropológico ajudam a compor o cenário que remete ao período colonizador. Na avenida Borges de Medeiros, também há a Fonte Imperial, construída por ordem direta de Dom Pedro I, e concluída em 1847. A História conta que o imperador ordenou sua criação após ver como a população do povoado se abastecia de água por meio de uma nascente local.
O que dizem turistas do local
Enquanto isso, a variedade de materiais e conteúdos do Museu Antropológico Caldas Júnior permite um mergulho na história da Comunicação gaúcha, bem como na rotina de famílias que, durante muito tempo, fizeram desta singela casa seu lar. O psicólogo escolar Grandemelo Rodrigues dos Santos, natural de Sant'Ana do Livramento, estava em viagem pelo Estado no final de janeiro, junto com outros cinco familiares, todos de Carlos Barbosa, na Serra.
"Sempre que possível, vamos para os museus nas cidades que visitamos para conhecer um pouco da história local. Nos vários lugares que fomos, me passou a impressão de que todos nós somos gaúchos, mas cada lugar tem suas características. O museu traz a possibilidade de passar este legado adiante", comentou ele. Já o presidente da fundação salientou ser de "extrema importância" a preservação do patrimônio e da história. "A cidade que não faz isso não projeta o futuro", disse. "O município tem uma característica muito singular no Rio Grande do Sul, que além da valorização da antiguidade, da cultura, buscamos preservar o passado justamente para prospectar um futuro melhor à nossa população", acrescentou o prefeito patrulhense.
Ainda de acordo com ele, a Administração pode conceder inclusive isenção do IPTU em Santo Antônio da Patrulha ao cidadão que vive em uma residência de construção característica luso-açoriana, e que comprove que não alterou sua fachada. "Trabalhamos com incentivos assim justamente para que a cidade permaneça com sua identidade histórica, e que sirva também como uma referência regional", comentou Massulo.
Caminhos a pé de contemplação religiosa também são outra característica do município. O Museu Antropológico Caldas Júnior funciona de segunda a sexta-feira, das 8h ao meio-dia, e das 13h às 17h. Até o próximo dia 20 de março, o local não funciona aos sábados e domingos, porém aberturas excepcionais podem ocorrer, a depender da necessidade. Escolas, excursões e grupos maiores de turistas podem agendar visitas pelo WhatsApp (51) 99160-3549. Mais informações estão disponíveis no site e Instagram do museu.