Escondido entre os paredões rochosos da divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Cânion Josafaz se revela como uma joia ainda pouco explorada do turismo na pequena cidade de Mampituba, com cerca de 3,3 mil habitantes no Litoral Norte.
Cercado por matas nativas e cachoeiras de águas cristalinas, o local encanta visitantes que se aventuram pelas trilhas sinuosas até suas encostas. Com ecossistema único e ainda com acesso restrito, o cânion faz parte do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, reconhecido pela Unesco em 2021.
O ponto de partida para essa jornada é o Sítio Cultural Museu da Estância, propriedade da família do turismólogo Vilson José do Nascimento Júnior, 31 anos, responsável por conduzir os turistas até o cânion.
O sítio abriga um pequeno museu com objetos históricos da região e uma pousada, construída por seu pai, Vilson José do Nascimento, 72 anos, que começou a colecionar os materiais em 1984.
Ao contrário de outros cânions da região, que se abrem para o mar, o Josafaz tem uma formação geológica peculiar, voltada para o continente. "Isso nos diferencia. Esse é o único cânion da cadeia do sul do Brasil com essa abertura", destaca Júnior, que conduz os passeios ao lado do irmão Cleber do Nascimento, 45 anos.
O trajeto até o cânion não é dos mais simples. São cerca de 1h30 de viagem em veículos 4x4 por uma estrada rústica, aberta na década de 1970 para o transporte de madeira. A única entrada passa por uma propriedade privada, e Júnior é o único autorizado a guiar visitantes até lá. A experiência exige disposição, mas a recompensa é uma vista deslumbrante a mais de mil metros de altitude.
A interação com a natureza é intensa, e o clima pode mudar rapidamente. Massas de ar quente vindas do oceano se encontram com correntes frias da Serra do Mar, provocando a chamada "viração". O fenômeno traz neblina repentina e chuvas passageiras, o que torna o cenário ainda mais dinâmico e misterioso.
No cânion, a vista deslumbrante possibilita que, ao longo da trilha, visitantes prestigiem quedas na nascente do rio Garganta do Silveirão, que desemboca no Rio Mampituba. Entre elas, a gigantesca Cachoeira Teimosa, no lado oposto à fazenda, com que pode ser apreciada.
É na cachoeira que, principalmente no inverno, um fenômeno natural torna o local ainda mais único. “Quando bate o Vento Minuano, a água volta ao invés de descer. Também é lá que, quando está muito frio, são feitas fotos da água congelada”, relata Júnior.
Turismo estruturado
O turismo na região começou a ganhar força com parcerias estratégicas. A Bumerang Turismo, liderada por Everton Machado Barbosa, tem levado visitantes ao cânion desde o último ano. "Conheci o Júnior quando ele veio para Capão da Canoa apresentar Mampituba e o Geoparque. Vi o potencial e começamos a fazer guiamentos", conta Barbosa.
O Hotel Araçá, em Capão da Canoa, também aposta no desenvolvimento do turismo na região e, através da parceria com a Bumerang, oferta o passeio aos hóspedes. “Deixamos de ser só um hotel para ser um agente turístico”, afirma a proprietária Benta Elisa Velho Siviero.
A parceria inclui a oferta de passeios guiados e pacotes turísticos. "Queremos que o hóspede chegue aqui e tenha opções para conhecer todo o Litoral Norte", acrescenta.
Futuro é considerado promissor
O crescimento do turismo na região atraiu novos investimentos. Em setembro de 2023, o empresário catarinense Fabrício Bertier, 47 anos, adquiriu a fazenda que dá acesso ao cânion e planeja transformar o local em um grande complexo turístico. "A propriedade tem perfil turístico, então optamos pelo licenciamento de um hotel-fazenda com 45 cabanas, contemplando turismo de aventura e contemplação, além da parte ambiental", explica.
O projeto prevê trilhas, tirolesas, arvorismo e atividades de cânionismo e rapel, além de um viveiro de mudas nativas e um meliponário para reforçar a preservação ambiental. A infraestrutura incluirá ainda restaurantes e espaços culturais, valorizando a tradição gaúcha. "Estamos estruturando locais de observação e liberando atividades gradativamente", afirma Bertier.
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