“É um esqueleto dentro d’água”. Assim, o agricultor aposentado Lúcio Fava, de 54 anos, define o estado atual da Plataforma de Atlântida, no município de Xangri-Lá, no Litoral Norte. O local, que já foi um dos principais pontos turísticos do litoral gaúcho, hoje sofre com a degradação provocada pelo tempo e pela maresia, além de um impasse judicial que impede sua revitalização.
Fundada em 1975, a plataforma avança cerca de 280 metros mar adentro. A estrutura está interditada desde outubro de 2023, quando parte dela desabou. Em julho do ano passado, outro trecho caiu durante a passagem de um ciclone extratropical pelo litoral gaúcho. Com fiação cortada e estrutura visivelmente avariada, a prefeitura de Xangri-Lá instalou uma placa na lateral proibindo surfar, nadar, tomar banho e circular por baixo da plataforma. A sinalização vermelha ainda alerta para o risco de desmoronamento e para a presença de escombros no fundo do mar.
“Eu venho caminhar quase que diariamente para cá, gosto desse lado da praia. Fico num aborrecimento que tu não faz ideia. O dia em que caiu essa parte aqui, lá no meio, e não tinha mais acesso, doeu. Era uma coisa que estava ali, você via, entrava, vivia aquilo. Aí você vê cair, esse abandono e esse desprezo pelo patrimônio. É triste”, desabafa Lúcio Fava, morador de Capão da Canoa.
O carpinteiro e pescador Moacir Neubert, de 59 anos, também residente em Capão da Canoa, costuma pescar nas proximidades da plataforma e relembra o período em que o local era aberto ao público. “Entrei várias vezes ali, tanto para passear com a minha senhora quanto para pescar. Era muito bom. Sempre tinha campeonatos de pescaria”, recorda.
O sentimento de tristeza é compartilhado pela moradora de Xangri-Lá, a professora de dança Cátia Ribas, de 59 anos. “É uma tristeza ver ela caída, parece que a praia está abandonada”, afirma. O marido, o chefe de cozinha Flávio Argiles, de 55 anos, conta que é surfista e continua praticando o esporte próximo à estrutura. Questionado sobre o risco, ele demonstra familiaridade com o local: “A gente surfa aqui há 30 anos”.
Apesar da placa que proíbe o acesso, não há nenhuma barreira física que impeça a aproximação de banhistas da base da plataforma. Outra placa, que alertava especificamente para a proibição de surfar, estava caída no dia da visita. Quem a recolocou foi Leandro Lens, proprietário de um quiosque próximo e conhecido como o “zelador” informal do local. Ele relata ter presenciado o episódio. “Há cerca de uma semana, um indivíduo subiu ali em cima e jogou no mar a placa que fechava a entrada. A Brigada Militar foi chamada e abordou o homem”, conta.
O comerciante admite que a interdição da plataforma tem impactado negativamente o movimento do seu negócio. “Influenciou bastante. Como ela está interditada, o pessoal fica com receio de tomar banho, surfar ou até passar perto dela”, afirma.
Repasse para a iniciativa privada
Construída em mar territorial, a plataforma é de competência da União. A manutenção vinha sendo realizada pela Associação dos Usuários da Plataforma Marítima da Atlântida (Asuplama). Atualmente, a responsabilidade sobre a estrutura é discutida judicialmente em uma Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público Federal. Caso a gestão passe ao município, a proposta é repassá-la à iniciativa privada por meio de concessão.
O vice-prefeito de Xangri-Lá, Frederico Figueiró, conhecido como Professor Fred, explica que um estudo realizado pelo Laboratório de Ensaios e Modelos Estruturais (LEME) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontou que alguns pilares ainda estão em bom estado e podem ser recuperados por meio de um processo de retrofit.
“Agora, em janeiro, temos uma agenda com o Ministério Público e novamente com a União. Com o vínculo que o prefeito Celsinho (Celso Bassani Barbosa) tem com o governo do Estado, vamos aproveitar que o governador é acessível e tentar trazer a Procuradoria do Estado e os órgãos ambientais. A ideia é entender que tipo de licença será necessária, para que a iniciativa privada já tenha clareza sobre o estudo financeiro, os custos da obra e o que será exigido para a liberação”, explica.
Segundo o vice-prefeito, o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual serão responsáveis por autorizar o repasse. A proposta prevê uma concessão de 70 anos, dividida em dois contratos de 35 anos. De acordo com Fred, duas empresas e um empresário do Litoral Norte já manifestaram interesse em assumir a reforma da plataforma.