Do samba ao funk
Estou cada vez mais barroco. Misturo tudo. Saturação de imagens. É a vida no espetáculo da sociedade.
Aqui vão as últimas.
Pensei em comprar um apartamento em Ipanema ou no Leblon, de frente para o mar. Desisti. Não vai dar mesmo.
O condomínio é muito alto: R$ 10 mil.
Ah, se não fosse por esse detalhe!
Fomos do samba ao funk sem sair da Vieira Souto.
Na tarde anterior, fui visitar meu amigo Diogo Mainardi. Tomamos uma cerveja e falamos da vida.
Conversa vai, falamos do Ronaldinho Gaúcho.
Diogo é fã do futebol do dentuço.
Eu também. Contei, mais uma vez, que conheci Ronaldinho quando ele era criança. Assis já dizia que o irmão seria o craque da família. Repeti muitas vezes isso para os meus amigos franceses, em Paris. Anos depois, Ronaldinho estourou no PSG. Ganhei fama de vidente.
Diogo Mainardi acha que é hora de se escrever uma biografia de Ronaldinho. Pensei no assunto. Dona Miguelina, mãe do craque, foi auxiliar de cozinha na escola onde Cláudia, minha mulher, trabalha. Acompanhei o surgimento do Assis, que é um cara muito legal. Jogava muito e soube ajudar a família. Tem malandragem.
Dormi biógrafo. Acordei desinteressado. Estou com muita preguiça. Vou deixar essa tarefa para o Diogo.
Fui terminar de ler Luis Buñuel na praia.
Buñuel garantia que, se fossem paraguaios, Dos Passos e Hemingway não seriam lidos por ninguém.
Adoro essa liberdade de posicionamento.
Os fãs especialistas odeiam a liberdade dos leitores. Só aturam bolas nas costas de credenciados.
– Ah, Buñuel é Buñuel. Ele pode.
Eu também. Pois:
– Juremir é Juremir.
Ninguém mais suporta Camões, Dante e outros grandes do passado. Salvo alguns gigolôs que vivem de conhecer o que não interessa a ninguém. É um capital sagrado. Buñuel leu Sade e descobriu que tinha sido inútil ler Camões, Dante e Tasso. Fecho com Buñuel. Afinal, como se diz:
– Buñuel é Buñuel.
Ele não gostava de Borges. Achava o argentino pedante, sempre dando lições e obcecado pelo Nobel. Reconhecia em Borges um “bom escritor”. Mas não respeitava ninguém somente por ser um “bom escritor”. Matou a pau. Eu gosto de Borges. Mas detesto os admiradores de Borges. Pior são os admiradores de Machado de Assis. Pior ainda são os imitadores de ambos.
Na praia, aprendi algumas coisas: o que dizer para a sua mulher se ela o flagrar olhando uma bunda monumental em evolução a caminho do mar numa progressão deliciosa.
– Nossa, tão jovem e já com celulite.
Foi isso que um carioca ensinou para um catarinense com ar de bom aluno. Parece que funciona. Salvo se o namorado da dona da bunda estiver passando na hora desse veredicto. Assistimos ao show da Joyce na areia. Estou misturando os dias. Só me lembro do funk no meio da Vieira Souto. Diogo, se bem me lembro, ficou na janela. Nós, como era caminho do hotel, ficamos atoladinhos.
Salvo se já perdi a noção das horas e dos dias.
O que eu gosto no funk é aquela elegância discreta no movimento dos quadris. Parece o Lago dos Cisnes sem o lago nem os cisnes. Sem contar a polissemia (isso mesmo e não é palavrão) das letras. É poesia pura. De fazer corar a ABL. Um rápido exemplo de uma letra que eu desconhecia:
– Vou botar na sua garagem/Só de sacanagem...
É condoreiro. Baudelaire não faria melhor.
Olavo Bilac, muito menos.
Nem sequer Quintana.
O mundinho cultural brasileiro mora em Ipanema e no Leblon. Salvo dois ou três que vivem em São Paulo. Na Barra da Tijuca moram bregas como jogadores de futebol, novos ricos e apresentadores de televisão. No circuito Ipanema – Lelbon, quando passa um bloco, feito o do Preta Gil, com seu trio elétrico para carioca, fica todo no mundo na janela para ver e ser visto. Pretinha gritava:
– Olha a Sandrinha da novela lá em cima, gente.
E mais:
– Olha a Carolina Dieckmann na janela, gente.
Como é bom viver na província.
Postado por Juremir Machado da Silva - 08/02/2010 15:41
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Notícias do carnaval
Vou dizer: quando uma bateria ataca com tudo, não tem para ninguém. Mas para ninguém mesmo. NINGUÉM.
Nem para Mozart.
Nem para Beethoven.
Nem para Wagner.
Para ninguém.
É genial.
Simplesmente genial.
E não estou falando isso por causa de uma bateria excepcional. Essa loucura que toma conta de mim quando uma bateria dispara sua magia pode ser detonada até por baterias medianas. Ontem, no caso, fui incendiado pela bateria do bloco Simpatia é quase amor, que sai da praça General Osório, na Zona Sul do Rio, ao grito de “Alô burguesia de Ipanema”. O carnaval é uma grande invenção. Libera o selvagem em nós. Mesmo um selvagem domesticado como eu, que, ao final, sempre se comporta muito bem.
O bom, no Rio de Janeiro, é que o carnaval vem buscar a gente em qualquer lugar. Tem bloco em cada canto e de todo tamanho. Em venho ao Rio uma semana antes do carnaval oficial para ser contaminado pelo carnaval de bairro. Sonho com o dia em que o Bom Fim, em Porto Alegre, cairá na folia ao grito de “Alô classe média do Bom Fim”. Tenho fé. Vai acontecer. É questão de tempo.
Se duvidar, viro presidente de bloco.
Hoje, enquanto escrevo, o Bloco da Boa esquenta aqui bem na frente do hotel. Vai ser um arrastão. No bom sentido. Um arrastão da boa. Fico sempre meio grilado quando uma marca de qualquer produto resolve se apropriar de algo que deveria ser espontâneo. Só que lá embaixo, na Vieira Souto, ninguém está dando a mínima para esse tipo de prurido anticomercial e já há um enxame de boas e de bons na ponta dos cascos para a festa. Vai ser a loucura.
Ah, a cerveja é de graça.
Há uma campanha contra o xixi ao ar livre: “Segure o xixi que o banheiro é logo ali”. E tem até uma equipe com bombas de essência de eucalipto para aliviar o estrago dos mijões. Chego na janela e só vejo gente jogando, sambando, bebendo e beijando. É mulher quase pelada, homem fantasiado até de homem e muita animação. Encontrei um francês de primeira viagem ao Brasil que me disse:
– Estou sonhando!
O Bloco da Boa tem um refrão sugestivo: "Se não quiser me dar, me empresta". Faz sentido.
Como eu sempre digo: tudo é uma questão de entendimento.
Simples e direto. Chato é o pós-bloco, quando estão todos detonados e as ruas ficam com cara de cenário de uma batalha campal. É o preço a pagar pela alegria. Mesmo assim, em meio à explosão, dá para fazer coisas convencionais. Por exemplo, ir ao cinema. Fomos ver “Guerra ao terror” depois que o Simpatia é quase amor nos estafou. Manoel Carlos, o Maneco, autor de “viver a vida”, estava lá com cara de entediado. O filme é fraco. A diretora, ex de James Cameron, vai tomar um banho do agora rival no Oscar. É um filme convencional: três ou quatro piadas, duas críticas ao belicismo dos americanos, cinco ou seis casos de perigo absurdo na guerra e uma historinha bem amarrada para demonstrar que o Ocidente consumista não entende a cultura dos outros. Correto e medíocre. Avatar dá de dez a zero.
É isso aí. Falei.
O resto é trocadilho, trocadalho e samba no pé.
Mala direta: chato que diz tudo o que pensa ao vivo.
Fiquei aí que já vou colar no bloco da Preta Gil.
Postado por Juremir Machado da Silva - 07/02/2010 15:46 - Atualizado em 07/02/2010 19:29
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Simpatia quase antes do amor
Estávamos instalados quase no Posto 9.
Em família.
Ambiente tranquilo e caloroso.
Pouco menos de 35 graus.
A carteira de uma senhora foi roubada sem que ninguém visse e sem que ninguém tivesse saído do lugar.
Uma grande demonstração de sutileza.
Quase um passo de balé.
Trabalho profissional.
Eu continuava lendo Luis Buñuel. Estava na parte da Guerra Civil Espanhola em que as execuções predominavam.
Era tudo mais amador.
Foi aí que um cara, sarado e tatuado, aproximou-se de uma gata, sarada e tatuada, que vestia um biquíni branco mais alvo do que um véu imaculado, e disse quase sem ênfase na voz, mas o vento o traiu:
– Quero você.
Assim. Na bucha. Sem tirar nem pôr. Ela sorriu. Tenho certeza de que não se conheciam. Mas eram lindos.
– Só depende de você.
– É mesmo?
– Quando?
– Hoje.
– Onde?
– Aí é que está?
– Como assim?
– Vai precisar me achar quando o Simpatia é quase Amor passar em Ipanema. Vou estar lá. Vou esperar por você.
Literatura? Pode ser. No Brasil, a literatura é péssima. Tem um pessoal querendo fazer gênero “nova geração”. É uma mediocridade total, que vai de Marcelino Freire a Altair Martins. Pura afetação de oficina, onde se aprende a importância das frases estetizantes e de uma estética do nevoeiro. A quase velha geração, que vai de Cristóvão Tezza a Milton Hatoum, não é melhor. É pior. Chatice garantida com grandes ideais e alguma enrolação. Esse pessoal ganha prêmios. É um sistema de reprodução do mesmo. Eles se amam, eles se julgam, eles se condecoram. O mais patético é que acabam por acreditar nesse simulacro. Erguem o nariz e dizem-se “escritores”, Um é mais mala do que o outro. Um é mais bobo do que o outro.
O único que se salva é Marcelo Mirisola, que acaba de lançar “Memórias da sauna finlandesa”. Mirisola está para a nova geração assim com João Gilberto Noll está para a que a veio antes: tem algo a dizer e consegue dizer isso com certo estilo, com humor, com um bom nível de ironia. Parece que ele mesmo é tão chato quanto os outros, mas sua obra vai além, o que já é um alento. O resto é papo furado, conversa de sarau, papo de salão literário, histórias de escritores. Enfim, conversa fiada. Nessa lógica, sabemos, é decisivo fingir bem.
– Eu acharei você mesmo fantasiada de Madonna.
– Está frio.
– Lady Gaga?
– Por que não?
Que personagens fantásticos aqueles dois.
Com licença que está na hora: vamos correr que o Simpatia é quase Amor já está vindo. Até amanhã!
Postado por Juremir Machado da Silva - 06/02/2010 16:25 - Atualizado em 06/02/2010 18:49
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Homossexualismo nas forças armadas
Luis Buñuel ajudou a pendurar Guernica na parede. Mas jamais gostou da obra-prima de Picasso. Chegou a pensar, junto com amigos, em explodi-la. Bacana, diria um carioca. Quer dizer, um carioca iconoclasta. Buñuel reconheceu que sempre teve um espírito mais destrutivo do que construtivo. Seria mais capaz de vibrar com a implosão de um museu do que com a inauguração de centro cultural. Estou com ele. Destruir pode ser muito legal. Nada mais insuportável do que um fã absoluto com sua ânsia de elogiar. No fundo, todo fã absoluto é um idiota triste. É o cara que diria algo assim para Buñuel:
– Quem é você para criticar Picasso.
Ou, o que é muito pior, o cara que diz assim:
– Picasso é Picasso.
Mas não era. Todo fã absoluto é chato. Precisa ser espancado de vez em quando. Os fãs absolutos de Chico Buarque costumam ser grandes malas. O jovem Salvador Dalí saiu-se com uma muito boa diante dos seus examinadores na escola de Belas Artes. Algo assim:
– Não reconheço em ninguém aqui o direito de me jular.
Esse pessoal era de faca na bota. Buñuel foi amigo dos surrealistas. Um dia, André Breton lamentou-se com ele:
– O escândalo já não é mais possível.
No Brasil, ainda é.
Arruda que o diga.
É escandaloso também que um general homofóbico e anacrônico afirme que homossexual não pode servir nas gloriosas Forças Armadas brasileiras.
Por que não?
Eu não acredito em opção sexual. Acho que cada um descobre a sua preferência sexual. De que direito alguém pode determinar a sexualidade dos outros? Por que um homossexual não teria voz de comando? O tal general apenas exprimiu o reacionarismo das forças armadas. É assim no Brasil e também nos outros paises. Só que é uma guerra perdida. Não há mais espaço para a discriminação. O jogo é outro. Buñuel escandalizou-se nos anos 1920 quando soube que seu amigo Lorca era homossexual. Mas soube aceitar e, mais tarde, sepultar seu preconceito. Quase cem anos depois, no entanto, o escândalo continua por toda parte, mesmos nos Estados Unidos, arrancando aplausos pretensamente sensatos e comentários patéticos.
Ainda bem que Madonna já reservou mesa numa boate gay do Rio de Janeiro. Essa turma está aqui pertinho, no hotel Fasano, não mais de cinco quadras daqui. É uma celebridade atrás da outra. Vai chegar o Leonardo Di Capri, ex da Gisele Bundchen. Para quem gosta de tietagem é uma maravilha. A grande maravilha, porém, é a atmosfera de liberdade de comportamento que toma conta da cidade.
Há outros escândalos. O Rio de Janeiro tem mais de 500 favelas. A policia pacificadora está em menos de 50. O resto é terra de gangues e de milícias. Esse, no fundo, é sempre o escândalo menor. O maior, pasmem, foi revelar agora. Preparam-se, pois é uma revolução fantástica: o grande escândalo é a existência de 500 favelas.
Postado por Juremir Machado da Silva - 05/02/2010 15:50
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Nunca se roubou tanto
O grande cineasta Luis Buñuel, em seu livro de memórias Meu último suspiro, faz revelações importantes: nunca entendeu o whisky, sempre considerou o dry martini como o melhor drink e jamais conseguiu participar de uma orgia, embora vontade não lhe faltasse, pois, oriundo de uma família muita religiosa, via no pecado uma deliciosa e excitante fonte de prazer. Charles Chaplin até tentou organizar uma orgia para eles, tendo convidado duas belas garotas, mas elas se desentenderam (ambas queriam Chaplin) e foram embora sem dar para ninguém. Assim é a vida. Até os grandes chupam no dedo. Uma coisa leva a outra. Pensei nisso na praia antes de tomar um daiquiri no Devassa. Uma cidade como o Rio de Janeiro sempre tem um novo point e nada mais inadequado do que dizer a um carioca que a gente já sabe qual é esse novo point.
– Qual é, cara? Point nada. Esse aí já foi.
Essa será a resposta. Um dos points, no entanto, é o Veloso, no Leblon, preferido por meu amigo Luis Gomes, onde se pode ficar confortavelmente em pé, na rua, durante horas tendo como compensação um desfile de mulheres e homens espetaculares, inclusive muitos televisivos. Eu gosto muito do Devassa de Ipanema, onde é possível beber louras, ruivas, negras e índias da casa e ainda falar, sentado, sobre Buñuel. Tem certa afetação nisso. Mas faz parte do jogo. Pode-se falar também dos problemas sociais. Na areia, logo depois de ver uma loura com um biquíni preto que me deixou silencioso durante uns 15 minutos, refleti muito sobre a oposição mínimo/máximo. Apesar de alguns considerarem essa discussão velha, ela continua dominando as posições em relação ao Estado (tem gente que fica num estado constrangedor, mas não é isso).
A direita parece fazer de tudo para confirmar a crítica ao Estado burguês feita pelos marxistas. Que desejam os conservadores do Estado? Que seja mínimo em economia, especialmente não atrapalhando a realização de negócios vantajosos e não cobrando impostos excessivos, e que seja máximo na repressão aos movimentos sociais e a todos os chatos que tentem atrapalhar a nobre missão de ganhar bastante dinheiro sem ter de dividir muito. Faz sentido. Depois da crise financeira internacional de 2008, que ainda ronda por aí, ficou claro que a direita também espera um Estado máximo na hora das quebradeiras. Um Estado que entre em cena, salve o capitalismo e imediatamente caia fora para que o jogo recomece sem intervenção nem controles. É o Estado Pronto-Socorro.
Tudo isso eu compreendi olhando aquele biquíni. E o que havia dentro dele. É incrível como essas situações podem nos tornar clarividentes. Um pouco mais e eu teria compreendido a teoria da relatividade e até alguns teoremas que sempre me escaparam nas aulas de matemática. O Estado deve cobrir o mínimo para que o máximo possa vicejar e satisfazer nossos desejos. Em certos momentos, entretanto, o Estado deve cobrir o máximo para que a visão do mínimo apareça como um estímulo ao investimento ou como uma eterna visão do paraíso a ser reconquistado. Só que aí um gaiato apareceu como uma teoria estranha:
– Um biquíni cobre tanto quanto uma burka.
Espichei o ouvido.
– É como um holograma, está entendendo: a parte está no todo, que está na parte. Dá uma olhada só...
O seu interlocutor olhou. Eu também. Era a gata do biquíni preto evoluindo na areia como numa passarela.
– Está tudo coberto.
– Co... coberto? – hesitou o outro.
– Você a vê nua?
– Bem... Não... Mas...
– Ela está vestida. Um tapa-sexo cumpre a mesma função de uma burka. Esconde o todo ao cobrir uma parte mínima. Essa é a genialidade do mínimo. Cobre tudo com menos. Se os muçulmanos percebessem isso, muitas guerras e conflitos interculturais poderiam ser evitados, entende?
Fiquei curioso: seria o cara um representante do novo neoliberalismo? Ou um antropólogo maluco? Não tive resposta. A gata do biquíni preto se foi. Os caras foram atrás. Ou foram embora coincidentemente na mesma hora. Na praia se aprende muito. Logo outra discussão me prendeu.
– Nunca se roubou tanto neste país.
Era um cara velho e muito magro falando.
– Conversa – respondeu seu amigo, ainda mais magro.
– Conversa?
– A roubalheira é sempre a mesma. Certamente se rouba hoje tanto quanto se roubava na época do FHC, do Collor, do Sarney e dos milicos. A turma do Lula não é original.
– Sem essa, meu. Agora é muito mais. Tá cara que é mais.
– Papo. Isso é o que a direita tenta colar na situação em desespero de causa. De tanto repetir essa mentira, pode ser que ela se torne verdade. A roubalheira é a mesma.
– A mesma? Posso enumerar os escândalos?
– Eu também posso. Você vai colocar o mensalão do DEM de Brasília na conta do Lula e da esquerda? Sim ou não?
– Você está cego!
– E você está de olho bem aberto.
– Só falta agora você achar que as forças armadas devem aceitar gays e lésbicas nas suas fileiras?
– Já aceita. Só precisa deixar que saiam do armário.
Como dizia o professor de filosofia de Buñuel ao aluno escolhido para ser sabatinado: “Refute Kant”.
O bom aluno acabava com Kant em dois minutos.
Postado por Juremir Machado da Silva - 04/02/2010 16:06
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Descoberta carioca
Há algo de muito estranho acontecendo.
Estou até assustado.
Madonna terminou seu namoro com Jesus Luz.
É a treva.
Como vai ser a nossa vida depois disso?
O que nos restará a fazer?
Como ficará nosso orgulho nacional?
O namoro da tia Mad com o nosso garotinho era motivo de regozijo entre nós. Esperemos que a notícia seja falsa. Tomara que tudo isso não passe de fofoca da mídia.
O problema é que eles não teriam assunto para conversar. Depois de terem liquidado um papo erudito sobre a cabala, teriam ficado mudos e esgotados. É o que dá não gostar de futebol. Nem de bingo. Nem ver novela.
Já vi gente conversar sobre cabala. É terrivelmente hermético e chato. Comigo, não daria para meio jantar.
Ah, se Jesus Luz tivesse lido, digamos, um clássico co o O Código da Vinci! Ou as obras completas do mago Paulo Coelho. Ainda estaria na cama com Madonna.
Jesus poderia ter tentado explicar a diferença entre o esquema 3-5-2 e o 4-4-2 para ela. A relação duraria, pelo menos, mais oito meses. Depois, era só explicar a regra do impedimento. Mais sete meses. A vida é simples quando se tem o futebol como fonte de conversação.
É que falar de futebol em inglês deve ser duro.
Ainda mais que o negócio de Jesus era outro.
Era só faturar como jogador de futebol.
Por outro lado, o nosso presidente do STF declarou que essa história de lentidão do judiciário é mito.
Também é mito que se fuma maconha no meio da multidão nas praias cariocas. Aquele cheiro é ilusão.
Nada contra. Nem a favor. Pura constatação.
Também é mito que os estrangeiros ficam loucos vendo nossas mulheres tão maravilhosas e sensuais nas praias.
Já as autoridades cariocas inventaram um sistema altamente original para garantir a paz nas favelas. E não é mito. Longe disso. Vejam vocês mesmos. É um sistema tão novo, revolucionário e eficaz que será exportado para o mundo inteiro. Olheiros estão chegando de todas as partes do planeta para conferir a novidade e tentar copiá-la.
O sistema, implantado pelos especialistas do governo de Sérgio Cabral, consiste em – pasmem, delirem, espantem-se, ponham as mãos na cabeça – colocar polícia nos morros. Isso mesmo: postos policiais nos morros.
Toda medida genial precisa ser simples.
Mais simples do que essa impossível.
Essa tropa permanente ganhou um nome: Polícia Pacificadora. Nada como um bom rótulo para mudar as coisas. Agora, entre nós, como ainda não se tinha pensado nisso? Como é que uma ideia tão espetacular não vinha?
Assistentes do governador e do prefeito, pilotando uma parafernália tecnológica, explicam as particularidades do sistema, algo inimaginável e absolutamente complexo. A explicação começa assim: decidimos fixar grupos de policiais em pontos sensíveis.
Ah, bom?
Os ouvintes ficam estarrecidos e exclamam:
Genial, “fantastic”, “extraordinaire”, duca!
Nos morros, os moradores narram a experiência:
– Quando os bandidos tentam agir, a polícia impede. É algo legal demais, bacana mesmo. Nunca pensamos que pudesse funcionar tão bem. Até os tiroteios pararam.
Uma senhora, fascinada, conta:
– Nunca vi isso antes. A polícia nos protege dos bandidos. Antes, era o contrário. Estou maravilhada.
Nas praias, policiais impedem os arrastões.
Um turista comenta:
– Estou perplexo. Chega a dar tédio. Tem policial para todo lado. E eles, além de vibrar com os gols do Flu e do Fla, agem. É só chamar que eles aparecem. Tem algo errado. Será que é por causa da copa do mundo na África?
Houve um ataque a banco em Ipanema: 200 baratas aterrorizaram os clientes de uma agência. É novidade.
No morro Dona Marta o bandido de metralhadora era apenas um ator de Tropa de elite 2. É um novo perigo.
É verdade que teve arrastão na Barra da Tijuca. Mas só durou duas horas. Depois, a polícia chegou.
C'est la vie.
O pôr-do-sol, com barquinho azul cortando a imensa bola vermelha caindo ao lado do morro Dois Irmãos e fundo musical homônimo direto da velha Bossa Nova, foi atrapalhado no Arpoador pela entrada no mar, com um buquê para Iemanjá, da atriz Cristiane Torloni. Muita gente desistiu do astro natural para tietar a estrela artificial. Questão de prioridade e de ibope. Quando os aplausos explodiram, já não se sabia para quem era.
Ser carioca é assim: emoções permanentes.
Postado por Juremir Machado da Silva - 03/02/2010 14:50
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Praia e gostos pessoais
O passar dos anos faz a gente ficar com manias. Eu adoro praia. Especialmente quando posso vê-la da janela do hotel. É por isso que me instalo em Ipanema, de frente para o mar. Posso ver a agitação da praia, no meio da tarde, pela vidraça e com o ar-condicionado a mil. De manhã, claro, vou para as areias ver de perto o que as cariocas têm. Num lugar desses, óbvio, tem gente do mundo inteiro. Hoje, por exemplo, havia muitos bonés do Internacional. As camisetas do Grêmio estavam sumidas.
Na praia, leio e começo a pensar na vida. Sei que é pouco original. Mas não estou com saco para ser original. Penso, por exemplo, nos gostos pessoais. Por que alguém gosta de a e não de b? Meu amigo Luis Gomes adora o escritor Paul Auster. Eu gosto de Auster. Mas logo fico saturado daquela sua sofisticação novaiorquina. Meu amigo Álvaro Larangeira adora Nelson Rodrigues. Eu gosto de Nelson Rodrigues. Mas logo fico cansado do seu reacionarismo, dos seus exageros e das suas obsessões sexuais. Luis Gomes tem mente filosófica. Deve ser por isso que gosta de Auster. Larangeira é barroco. Talvez isso explique sua paixão por Nelson. Gente de bom gosto adora Machado de Assis, a quem chama afetadamente de Machado. Eu gosto de dois ou três livros de Machado de Assis. Mas em seguida me canso do seu estilo século XIX e, principalmente, do romantismo chato da primeira metade da sua obra. Tem mais chato, certo: tem José de Alencar.
Depois da segunda caipirinha e da visão de duas “garotas” capazes de dobrar o pescoço da praia inteira, comecei a teorizar sobre o relativismo. Gosto é relativo. Mas nem sempre. Peguem uma foto da Madame Mim e outra da Gisele Bündchen e mostrem para dois milhões de pessoas de todas as partes dos mundo, inclusive de culturas com quase nenhum contato com as sociedades ditas civilizadas. Gisele será considerada mais bela por 100% dos entrevistados. Talvez dois ou três indivíduos, por razões facilmente explicáveis, cravem Madame Mim. Agora, diminuindo a discrepância, tudo muda. Peguem uma foto da Juliana Paes e outra da Gisele Bündchen. Será páreo duro. Brasileiros bebedores de cerveja tenderão a escolher Juliana. Ingleses caçadores de raposa ficarão com Gisele.
A pesquisa concluirá o que todos sabemos: gosto é relativo. Varia de cultura para cultura e de época para época. Mas nem tanto. Só quando a discrepância é menor. Claro que há louco para tudo e alguns podem preferir Madame Mim. Pensando bem, ele tem seu charme. Esse tipo de reflexão vale para a literatura e para o resto, dependendo da qualidade da caipirinha e do campo de visao. Eu, no fundo, não admiro como fã nenhum escritor. Gosto de um livro num escritor, de uma frase noutro, de um fragmento aqui, um fragmento ali, mas nunca do todo. Jamais encontrei um artista que me convencesse inteiramente. Ninguém é genial o tempo todo. Fico impressionado com quem admira aquele sempre e devotamente. Não consigo. Dizem que sou invejoso.
Não duvido. No fundo, eu só gosto mesmo é de mim.
Narcisismo? Megalomania? Cara de pau?
Tudo isso e mais um pouco.
Obsessão de artista que acredita na sua obra contra tudo e contra todos e não se importa de andar na contramão. Isso não significa que eu não saiba admirar.
Admiro os radicais do presente.
Eu nunca dedicaria a minha vida a Platão, Aristóteles, Kant, Nietzsche, Flaubert, Baudelaire ou qualquer grande do passado. Gosto deles. Mas logo eles me entendiam por não falarem do tempo que é o meu.
Só o presente me interessa realmente.
Tenho admirado profundamente os escritores Michel Houellebecq, Maurice Dantec, Chuck Palahniuk, T.C. Boyle, Cormac McCarthy, Thomas Pynchon, Jean-Patrick Manchette e, para espanto de muitos, cada vez mais um velho e até menosprezado escritor chamado Georges Simenon.
Sem dúvida, posso ser afetado e falar da minha relação literária com Baudelaire, que traduzi, com Marcel Prost, que li e reli, com Rimbaud, cuja maldição invejo, com Balzac, pai de todos os contadores de histórias, com Shakespeare, gênio dos gênios, mas, em algum momento, todos me cansam, pois são de outro tempo.
Nunca consegui realmente admirar José Saramago, cuja grandiloquência me embrulha o estômago. Amo seu compatriota Lobo Antunes. Tente 23 vezes terminar um livro de Philip Roth. Não tive êxito. Só a ironia radical e niilista me convence. Todo o resto me encanta pouco.
O que essa bundas todas não fazem a gente dizer?
O resto é caipirinha.
Postado por Juremir Machado da Silva - 02/02/2010 15:53
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