A diversidade geográfica, estética e narrativa é uma das marcas da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que reúne produções capazes de revelar diferentes maneiras de observar o mundo e traduzir, em imagens, as contradições da experiência humana. Entre os destaques dos últimos dias, o argentino-brasileiro “Glaxo”, de Benjamín Naishtat, o espanhol “O Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, e a produção japonesa “Look Back”, de Hirokazu Koreeda. Três obras de origens e linguagens distintas, unidas pela atenção às relações humanas, às marcas do passado e aos caminhos que aproximam criação artística e vida.
Em “Glaxo”, Naishtat mergulha na atmosfera de uma pequena cidade argentina, Chivilcoy, em 1957, onde a rotina de quatro amigos é abalada pela chegada de um policial aposentado e de sua sedutora esposa. O ambiente aparentemente pacato esconde tensões que se transformam em paixão, ressentimento e vingança. Enquanto isso, o tempo avança e a Argentina atravessa décadas de profundas mudanças, dos anos 1950 aos 1980. A fábrica que dá nome ao filme integra a paisagem de um universo provinciano no qual as relações pessoais se entrelaçam com as transformações de um país que parece perder, progressivamente, a própria inocência.
Adaptação do romance homônimo de Hernán Ronsino, o longa encontra na estrutura narrativa um de seus principais trunfos. A história se constrói sobre lembranças, culpas e feridas que permanecem abertas, compondo um retrato de deterioração moral em que os acontecimentos do passado não cessam de produzir consequências. Naishtat demonstra o talento argentino para contar histórias incômodas, sustentadas por um roteiro instigante e personagens atravessados por ambiguidades. As atuações de Lali Espósito, Esteban Lamothe e Marcelo Subiotto contribuem para a densidade dramática da produção, que transforma um episódio aparentemente localizado em observação mais ampla sobre a violência e a memória. Parte do filme foi gravada na cidade de Jaguarão, no Rio Grande do Sul.
Em outro registro, “O Ser Querido”, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, concentra o drama nas relações familiares e nos conflitos que sobrevivem ao tempo. Esteban Martínez, cineasta consagrado, carrega uma reputação marcada tanto pela obra quanto por um passado de violência e excessos. Ao oferecer um papel à filha, Emilia, atriz cuja carreira atravessa um período de estagnação, ele parece buscar uma reaproximação que os anos de afastamento tornaram difícil. O reencontro no ambiente de filmagem, contudo, está longe de representar uma reconciliação simples. A convivência reabre feridas e expõe ressentimentos que nunca encontraram resolução.
Exibido no Festival de Cannes, o filme tem em Javier Bardem e Marina Foïs intérpretes de grande força, capazes de sustentar as oscilações emocionais de uma narrativa que não se limita ao confronto dramático. Sorogoyen dosa com habilidade a tensão, o humor e a emoção, sem transformar os personagens em figuras unidimensionais. O resultado é um filme inteligente e envolvente, que encontra momentos de leveza sem perder a profundidade. Ao mesmo tempo que pode divertir, provoca reflexão sobre as relações entre pais e filhos, as responsabilidades afetivas e o preço das escolhas. A criação artística aparece, nesse contexto, como espaço de encontro, mas também como terreno de disputas, silêncios e tentativas de reparação.
A terceira produção amplia o horizonte da Mostra ao chegar à proposta japonesa. Em “Look Back”, Hirokazu Koreeda acompanha Fujino e Kyomoto, duas adolescentes de uma pequena cidade do interior que compartilham a paixão pelo desenho e o sonho de se tornarem autoras de mangá. Enquanto Fujino confia em seu talento e demonstra determinação, Kyomoto vive reclusa, dedicando-se intensamente à ilustração. O vínculo estabelecido entre as duas se desenvolve ao longo de 13 anos, período em que a amizade, a criação e as mudanças da vida assumem novas dimensões.
Adaptação do mangá de Tatsuki Fujimoto e exibido no Festival de Veneza, “Look Back” combina sensibilidade e apuro visual para construir uma narrativa sobre vocação, companheirismo, perdas e a necessidade de continuar criando. A fotografia é belíssima, e a linguagem da animação acompanha a evolução das personagens, incorporando ao percurso a transformação dos recursos gráficos e visuais na contemporaneidade. Mais do que uma celebração do desenho, o filme oferece um olhar delicado sobre a maneira como as relações humanas podem determinar os rumos de uma vida. Os admiradores de mangás e animes encontrarão motivos especiais para aplaudir a obra, mas sua força ultrapassa os limites desse público.
Reunidos na programação da 50ª Mostra, os três filmes demonstram como o cinema contemporâneo pode transitar entre a memória política, o drama familiar e a intimidade da criação artística sem perder a capacidade de comunicar experiências universais. Da deterioração moral de “Glaxo” à reconciliação imperfeita de “O Ser Querido” e à sensibilidade gráfica de “Look Back”, a diversidade não se restringe à procedência ou à estética e se manifesta ainda nas formas de narrar, emocionar e provocar reflexão. É nessa pluralidade de olhares que a Mostra reafirma sua relevância como espaço de descoberta e encontro entre diferentes cinematografias. E segue até esta quinta- feira, dia 29, envolvendo a capital paulista no universo do cinema mundial.