James Gray conhece bem o Brasil. Já esteve em regiões como Manaus, Belém, Ubatuba, Mato Grosso e Goiás, algumas delas visitadas quando fez pesquisas de campo e buscou locações para o seu filme Z: A Cidade Perdida, sobre a história real do coronel britânico Percy Fawcett, que desapareceu na década de 1920 enquanto buscava uma civilização mítica na floresta amazônica.
Desta vez, porém, o diretor norte-americano não pôde desfrutar plenamente das belezas do País. Passou apenas quatro dias em São Paulo, numa semana chuvosa, e pouco saiu do hotel. Estava cansado por causa do acúmulo de viagens recentes. Houve tempo, ao menos, para que se encantasse com o sabor das jabuticabas após experimentar um petisco servido durante um jantar da chef Bel Coelho.
"Pareciam empanadas, mas tinham um molho marrom feito dessa fruta. Foi a coisa mais deliciosamente absurda que já comi! Comi uns sete. Se eu morasse aqui, morreria em dois minutos. Ficaria muito gordo", brinca o cineasta de 57 anos em entrevista ao Estadão, propenso a levar a fruta, de alguma maneira, para os Estados Unidos.
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Na capital, ele apresentou seu novo filme, Tigre de Papel, na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ministrou uma masterclass ao lado de Walter Salles e participou de outros eventos de divulgação do projeto, que tem produção de Rodrigo Teixeira, produtor brasileiro indicado ao Oscar (por Ainda Estou Aqui). O festival também exibe uma retrospectiva especial de sua carreira até o dia 28 de outubro.
"Tigre de Papel" retrata as fraturas do sonho americano
O longa-metragem, com previsão de estreia nos cinemas nacionais no começo de 2027, tem no elenco os astros Miles Teller, Adam Driver e Scarlett Johansson. É um drama de máfia passado em Nova York nos anos 1980, cuja história aborda as fraturas do sonho americano por meio de dois irmãos, Irwin e Gary, que acabam se envolvendo em um negócio obscuro controlado pela máfia russa.
O nova-iorquino também foi homenageado na última quinta-feira, 15, com o Prêmio Leon Cakoff, mesma honraria concedida a Charlie Kaufman, no ano passado, e a Francis Ford Coppola, em 2024. Coppola, por sinal, é uma das influências mais evidentes na filmografia de Gray. O histórico diretor da saga O Poderoso Chefão já disse que o cinema comercial atual é "como um fast-food", baseado em fórmula similar a um "McDonald"s ou Coca-Cola".
"Acho que Coppola tem razão no que diz respeito à produção dos filmes. A orientação das grandes corporações é eliminar riscos e oferecer o mesmo Big Mac repetidamente. Mas isso não vem dos artistas. Existe um esforço - nem sempre bem-sucedido - de muitos diretores que querem acrescentar outra camada ao McDonald"s, como o Christopher Nolan em O Cavaleiro das Trevas, e meu amigo Matt Reeves com Batman", avalia.
A relação com o Oscar
Gray, vale destacar, não está acostumado a ser laureado. Por mais que faça filmes de prestígio desde os anos 1990 e tenha trabalho com atores renomados, incluindo Joaquin Phoenix, Marion Cotillard, Brad Pitt e Anthony Hopkins, ele nunca foi indicado ao Oscar ou ao Globo de Ouro. Várias de suas produções, como Os Donos da Noite, Amantes, Armageddon Time e o próprio Tigre de Papel, já competiram pela Palma de Ouro do Festival de Cannes, mas também não foram premiadas.
"Nunca penso em ganhar um Oscar quando faço filmes", confessa. "Mas, é claro, seria maravilhoso ser reconhecido por pessoas que fazem cinema. Existe uma divisão dentro de mim: eu gostaria de ser visto como alguém que tem valor, mas, ao mesmo tempo, essa nunca é a razão pela qual faço um filme. Ganhar um prêmio não está no cerne do meu propósito. Sófocles ganhou muitos prêmios, mas Eurípides não - e ele acabou vivendo miseravelmente em uma caverna. Eu preferiria não viver na miséria, mas Eurípides era muito bom e nós ainda nos lembramos dele", afirma o realizador.
Além disso, Gray credita outras razões pelas quais seus filmes não chamaram a atenção da Academia: alguns foram lançados com muita antecedência, fora da temporada de premiações, e outros, produzidos por Harvey Weinstein, não receberam apoio do produtor que foi condenado a prisão por crimes sexuais.
O mais importante, para ele, é defender a experiência cinematográfica como uma forma de ampliar a compreensão do outro Ele compara assistir a um filme no cinema a um sonho. "Você não pode interromper seu sonho se ele ficar desagradável demais, otimista demais ou intenso demais. Não pode apertar o botão de pausa, sair e voltar depois. Precisa aceitar aquilo", diz.
"No cinema, você é um refém do criador, cuja intenção é te dar acesso a uma janela para a consciência de outra pessoa. E essa é a essência da compaixão: compreender a luta de alguém diferente de nós", conclui o cineasta, com um sorriso no rosto.