“Uma mulher em luta contra toda afronta a sua dignidade”. É assim que a atriz Flávia Pyramo define a personagem Nastácia Filíppovna, do romance “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881). Publicado em 1869, o livro russo, em resumo, narra as desventuras do jovem príncipe Míchkin que se envolve em triângulos amorosos da alta sociedade. É nesse contexto que a figura de Nastácia surge. Humilhada e ofendida pelo milionário Totski que a transformara em concubina quando ainda era adolescente, Nastácia é dona de beleza que deixa estonteados todos os afortunados em torno de Totski, que trata a todos e ao seu dinheiro com desdém.
A personagem é muitas vezes tratada como rebelde, louca, e inconstante, mas é no estilo multifacetado que se encontram as maiores riquezas para transformar a personagem literária em peça de teatro. Nos palcos, um recorte de uma das obras mais famosas de Dostoiévski é escolhido para retratar a festa de aniversário. Ali, Nastácia é submetida a um verdadeiro leilão, no qual é reduzida à condição de mercadoria, mas se vinga de todos os seus “compradores” jogando o valor do “dote” na lareira. Muito mais que uma adaptação, a peça busca dar luz a um movimento historicamente recente: uma mulher que diz não e encara a repercussão.
O resultado do trabalho da diretora Miwa Yanagizawa pode ser visto nesta sexta-feira, 29, e no sábado, 30, às 21h, no Teatro Renascença (av. Érico Veríssimo, 307 – Menino Deus). Na sexta-feira, o espetáculo conta com intérprete de Libras e no sábado com audiodescrição. A montagem, em circulação desde 2019, já recebeu prêmio Shell de Melhor Direção, APTR de Melhor Direção e Melhor Cenário, além de 34 indicações aos principais prêmios brasileiros. A dramaturgia é de Pedro Brício, com direção de arte de Ronaldo Fraga. No palco, Flávia Pyramo, Lenine Martins e Paulo Giannini dão vida aos personagens por cerca de 1h40min.
Além de interpretar a protagonista, Flávia Pyramo é a idealizadora do projeto. Apaixonada pela personagem a partir de outra montagem, a atriz estudou a trajetória de alguém que causa uma revolução na sociedade em que vive.
“Me apaixonei pela personagem pela força dela, por lutar contra aquilo que a oprimia e que tentou destruí-la. Ela me traz coragem, me fortalece.”
Todo o processo para a construção do espetáculo foi desafiador, em especial pela mensagem que o texto traz. Para a protagonista, o espetáculo tem como objetivo alertar as mulheres “do nosso tempo” para que não tenham finais tão difíceis como o de Nastácia. Apesar da diferença temporal entre o período em que foi escrito e a circulação da peça, o tema central é um feminicídio. “Quando percebemos isso durante o estudo para a personagem, não tinha como subir ao palco e não falar de forma clara sobre isso. Damos nosso grito em cena porque a vida é tudo”, analisa.
PALCO GIRATÓRIO
“Nastácia” integra a 20ª edição do Palco Giratório em Porto Alegre, cuja programação segue até o dia 3 de junho, em diversos espaços culturais da capital.
*Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes