O Seminário Internacional Entre Cinemas – CineBH + CineMundi 2026, parte da programação da 20ª edição da CineBH, começou ontem, quarta-feira (23), em Belo Horizonte, com a questão sobre “Cinema Latino-americano: o que será?”. Mais do que tentar definir uma identidade, o debate inaugural tratou de criar tensões. Ao estilo, onde começa e onde termina a ideia de América Latina quando territórios, culturas, histórias e modos de produção não cabem numa mesma moldura.
A conversa tomou como ponto de partida justamente a dificuldade de produzir consensos em torno de uma ideia de latinidade. Em um continente atravessado por profundas transformações políticas, e por uma instabilidade que parece deslocar, a todo momento, o chão de certezas, a mesa propôs pensar como o cinema age e reage diante das contingências do presente.
Entre os debatedores, a crítica de cinema e programadora chilena Marisol Águila, ligada às plataformas Culturizarte, Democracine, El Agente Cine e Sara y Rosa, percorreu diferentes filmografias para defender a força de modos de produção menores. Aqueles, segundo ela, capazes de “contornar desamparos institucionais que se agravam à medida que recrudesce uma determinada tendência política no continente”. São formas criativas, coletivas e alternativas de organização do trabalho que, para além de responder às precariedades, produzem linguagem. Ao questionar formas consolidadas por perspectivas coloniais e colonizadoras, esses modos de fazer também abrem outros imaginários e outros territórios de pertencimento.
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Mas, segundo os debatedores, o problema não termina quando o filme fica pronto. Para Álvaro Arroba, programador do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente (Bafici), da Argentina, da Quinzaine des Cinéastes e do Seminci, um dos grandes desafios desses cinemas está justamente na circulação. A recusa a uma “gramática facilmente reconhecível por determinado cânone do Norte Global” pode afastar os filmes de circuitos centrais do sistema-cinema, entre eles grandes festivais europeus que, segundo Arroba, muitas vezes procuram “um clichê de país”.
Arroba chamou atenção também para o “risco de se reproduzir padrões de assimilação a partir de um certo molde que acaba sendo reproduzido em labs, escolas e por fundos de mercado”. O que deveria ser instrumento de viabilização pode também induzir determinadas formas de imaginar e fazer filmes.
É nesse ponto que a programação pode assumir uma dimensão política. Para Arroba, programar também é propor e legitimar obras capazes de desestabilizar lógicas de produção e linguagens cristalizadas pelos circuitos dominantes. Uma tarefa que encontra eco na formulação de Cleber Eduardo, coordenador curatorial da CineBH: “a maior contribuição do cinema latino-americano é se contrapor à ideia de um cinema internacional equilibrado, eficiente, regular no ritmo, na estrutura, na dramaturgia”.
É justamente esse cinema irregular, desobediente, que a CineBH parece querer colocar em primeiro plano. Um cinema que não foca na eficiência como valor absoluto e que encontra, na própria precariedade ou na invenção de outros modos de produção, uma possibilidade de linguagem.
Entre os exemplos está o trabalho de Clarisa Navas que, em “O Príncipe de Nanawa”, em cartaz na Mostra Olhares das Argentinas, desafia, segundo a realizadora, uma “racionalidade neoliberal e hiperprodutivista vigente”. Navas reivindica a criação de condições “para seguir fazendo um cinema insubmisso”. O termo talvez ajude a costurar boa parte do debate. Insubmissão não apenas como gesto estético, mas como maneira de trabalhar, produzir, circular e permanecer. Clarisa aposta na força dos encontros e de filmes “feitos em bando” e, no campo da distribuição, defende a necessidade de “romper com uma lógica colonial que, todavia, permanece”.
A discussão do encontro inaugural não ficou restrita à mesa inaugural. Ela reapareceu, quase paralelamente, no encontro de realizadores das mostras Território e Horizonte com a imprensa presente ao evento. Diretora de “Los nadadores”, Sol Iglesias partiu da imagem de Eduardo Galeano a partir da qual “há algo na América de sempre termos nossas veias abertas”. Assim reivindicou a fantasia e a imaginação como campos de batalha e instrumentos de futuro.
“Fantasia é o que nos permite levantar a cabeça”, afirmou., e seguiu: “Temos que parar de tentar funcionar como os filmes maiores”, disse Iglesias. “Há algo de muito importante em trabalhar com o artesanal, em pensar outros centros de circulação.”
A descentralização também atravessou a fala de Rócio Barbenza, que chamou atenção para cinemas de rua, cineclubes e outros circuitos de exibição e formação de público, espaços frequentemente apagados pelas estruturas mais visíveis do mercado. São lugares, para ele, onde ainda se pode conversar sobre os filmes, criar comunidade, experimentar formas menos previsíveis de encontro.
“Há outros lugares que têm muita riqueza também, de conversa, de troca, em que formas raras de produzir mundos têm lugares de exibição”, afirmou Barbenza, defendendo formas “raras e retorcidas” de romper com o momento “fascista” que identifica no presente. Samuel Moreno Alvarez acrescentou a dimensão de que, quando esses filmes são programados, o público também aceita correr o risco.
E é sobre a permanência desse risco que se debruça o trabalho da homenageada da 20ª CineBH, Paz Encina. “Os filmes que faço não terão muitos espectadores. Eles são mais pretensiosos. Quero que durem no tempo”, afirmou a realizadora. E completou: “Quero que se passem 20 anos, e que ainda se assista a “Hamaca Paraguaya”. Quero que meus filmes estejam no tempo”.
Na masterclass que sucedeu à exibição de “Exercícios de Memória”, Encina falou da necessidade de cultivar atenção e presença. Não é uma ideia apartada de sua obra. Suas imagens e seus sons parecem exigir do espectador justamente aquilo que a velocidade contemporânea torna cada vez mais escasso, que é demora, escuta, disponibilidade.
Com dois novos projetos em andamento, um documental e outro ficcional, Encina continua a trazer os traumas paraguaios para o presente, dispondo-os diante do espectador com politicidade e poesia.
Entre a precariedade e a invenção, entre a memória e o futuro, entre a necessidade de circular e a recusa a se moldar aos circuitos hegemônicos, o debate inaugural da CineBH encontrou sua matéria principal em seu desejo de olhar sobre um certo cinema latino-americano.
Este debate sobre o cinema latino-americano, e a exposição de diferentes recortes desse universo, segue até domingo (27), quando termina a 20ª edição da CineBH, em Belo Horizonte.