A 20ª edição da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte chega como uma celebração que centra no cinema latino-americano. A partir desta terça-feira e até o domingo, dia 27, Belo Horizonte se transforma em território de encontros, com 102 filmes, 69 sessões, representantes de 18 estados brasileiros e produções de oito países latino-americanos. A diversidade é uma palavra que atravessa toda essa programação, gratuita, em oito espaços da capital mineira e também no ambiente on-line.
O tema “Cinema Latino-Americano: O que será?” recupera a pergunta da canção de Chico Buarque, lançada em 1976 e eternizada na trilha de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto. Cinquenta anos depois, o clássico que completa meio século ganha sessão especial na CineBH. O diálogo entre os dois momentos é mais do que coincidência cronológica. Se o cinema latino-americano de então podia ser pensado a partir de referências comuns, a produção contemporânea revela um continente múltiplo, fragmentado, atravessado por diferentes territórios, identidades, linguagens e formas de produção.
É justamente essa multiplicidade que dá força à programação. As mostras competitivas Horizonte e Território colocam lado a lado realizadores estreantes e cineastas em diferentes momentos de suas trajetórias, vindos do Chile, Cuba, Colômbia, México, Argentina, Brasil e outros territórios. São filmes que experimentam documentário, ficção, ensaio, performance e diferentes formas de narrar corpos, memórias, espaços e pertencimentos.
- Produções com artistas negros ganham espaço, mas desigualdade resiste
- "Vicentina Pede Desculpas" é escolhido para representar o Brasil no Goya 2027
- Oscar: Brasil pode ter mais um filme na disputa; entenda como
A abertura, no dia 22, terá um acontecimento especialmente simbólico: a pré-estreia de “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, de André Novais Oliveira, com Conceição Evaristo fazendo sua estreia como atriz de cinema. A escritora mineira recebe o Troféu Horizonte ao lado da cineasta paraguaia Paz Encina, cuja obra será revisitada em uma homenagem que inclui “Hamaca Paraguaya”, justamente no ano em que o filme completa 20 anos. Literatura, memória e cinema se encontram numa mesma celebração.
A programação brasileira também chama atenção pela variedade. “Pele de Rinoceronte” e “Leite em Pó” (exibidos no Festival de Cinema de Gramado), "Virtuosas”, “Yellow Cake”, “Entre o Sucesso e a Lama”, “Reparação”, “Adulto/Homem” e “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” integram uma seleção de filmes contemporâneos que chegam com pré-estreias e encontros com o público. Nomes como Débora Falabella, Naruna Costa, Leandra Leal, Bruna Linzmeyer e Bruno Barreto estarão em Belo Horizonte, aproximando a tela de quem a realiza.
E, nesse grande mapa cinematográfico, o Rio Grande do Sul também marca presença. O Estado integra a seleção nacional de 18 unidades da Federação e aparece ainda na programação de curtas contemporâneos, que reúne produções de todas as cinco regiões brasileiras. A presença gaúcha ganha significado especial num momento em que a descentralização da produção audiovisual deixou de ser apenas uma reivindicação e passou a ser uma realidade cada vez mais visível nos festivais.
Ainda no CineBH, o 17° Brasil CineMundi reúne 37 projetos brasileiros e mais de 200 profissionais de 15 países, criando pontes entre criação e mercado. São pitching, formação, consultorias e rodadas de negócios que colocam filmes ainda em construção diante de possíveis parceiros internacionais. O Seminário Entre Cinemas amplia essa discussão com debates sobre financiamento, coprodução, circulação, políticas públicas e novos modelos para o audiovisual.
O CineBH coloca o cinema diante de sua própria pergunta. E, enquanto houver diferentes filmes, territórios, sotaques e olhares disputando espaço na tela, o cinema latino-americano continuará inventando suas próprias respostas.