Foi com muitas perguntas que a CineBH 2026 abriu, na noite de terça-feira, dia 22, sua 20ª edição. Com performances e discursos a ênfase foi para questionar “Cinema latino-americano, o que será?”. Mais de mil pessoas ocuparam o Cine Theatro Brasil para uma noite em que a celebração de duas décadas de festival se misturou à inquietação sobre os caminhos que o cinema pode tomar.
O batuque do grupo Elekuê, as filas que dobravam a esquina e a performance audiovisual MANIFESTA deram à abertura um caráter de rito coletivo. Ao completar 20 anos, a CineBH olha para a própria trajetória, mas prefere não transformar a efeméride em ponto de chegada. A pergunta escolhida como tema funciona como a provocação do que ainda pode ser inventado por cinematografias que carregam histórias tão diversas, atravessadas por fronteiras, desigualdades, memórias e modos particulares de olhar o mundo.
Na fala de abertura a coordenadora do festival, Raquel Hallak, recuperou parte dessa história e ressaltou que a CineBH nasceu ligada à cidade para se transformar, ao longo dos anos, em espaço de circulação e encontro do cinema brasileiro e latino-americano. Mas seu discurso também apontou para a questão de que não basta produzir filmes e é preciso criar condições para que eles circulem, encontrem espectadores e possam ocupar as telas brasileiras e internacionais.
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É nesse ponto que a programação do festival ganha especial interesse. Ao lado das sessões de cinema, a 20ª CineBH e o 17º Brasil CineMundi colocam em debate as possibilidades de articulação entre os países latino-americanos, as coproduções, os modelos de produção e as políticas necessárias para que essas cinematografias atravessem suas próprias fronteiras. O cinema latino-americano aparece como identidade cultural e também como território de trabalho, indústria, intercâmbio e disputa por espaço.
A noite de abertura encontrou uma tradução particularmente eloquente para essa ideia nas duas homenagens da edição. A cineasta paraguaia Paz Encina recebeu o Troféu Horizontes. Sua obra, marcada pela relação entre memória, silêncio e ausência, tornou-se uma das expressões singulares de um país cuja cinematografia foi historicamente atravessada pela descontinuidade. “Hamaca Paraguaya”, seu primeiro longa, lançado em 2006, completa duas décadas e permanece como referência de um cinema que encontrou na contenção e na invenção formal uma maneira de olhar para a história. Ela agradeceu a homenagem da Mostra lembrando 20 filmes e cineastas que considera fundamentais em sua formação. Glauber Rocha, Fernando Solanas, Jorge Sanjinés, Eduardo Coutinho, Lourdes Portillo, Lucrecia Martel, Tatiana Huezo e outros nomes compuseram uma espécie de constelação afetiva. O gesto dizia, silenciosamente, que nenhuma trajetória cinematográfica se constrói sozinha.
A outra homenageada, Conceição Evaristo, chegou à tela do CineBH pelo caminho da literatura para o cinema. Escritora de uma obra fundamental para a compreensão das experiências negras e periféricas no Brasil, Evaristo estreou como atriz em “Se eu fosse vivo… vivia”, de André Novais de Oliveira. Impedida de viajar a Belo Horizonte pelas condições climáticas que afetaram voos, participou remotamente da cerimônia. Ainda assim, sua presença foi uma das mais fortes da noite.
Ao falar da experiência, ela chamou atenção para a “escrevivência” que também encontra lugar no filme. Sua passagem para o cinema não aparece como ruptura, mas como extensão de uma trajetória de criação. André Novais, por sua vez, ressaltou a maneira como a escritora abraçou o desafio e a equipe.
A presença de Evaristo também ilumina o debate do protagonismo feminino no audiovisual que faz parte da programação do evento . A discussão não se restringe à presença das mulheres diante das câmeras. Envolve autoria, direção, produção, financiamento, circulação e as condições concretas para que diferentes experiências possam se transformar em linguagem cinematográfica.
Nesse sentido, a escolha das homenageadas é reveladora. Paz Encina e Conceição Evaristo pertencem a universos distintos, mas suas trajetórias partilham a capacidade de transformar experiências, territórios e memórias em formas próprias de criação. São mulheres que não apenas ocupam um lugar no cinema e na cultura, mas ampliam o que pode ser visto, contado e imaginado.
A noite terminou com “Se eu fosse vivo… vivia”, recém-premiado como Melhor Filme no Festival de Cinema de Brasília. O longa da Filmes de Plástico, com seu humor delicado e sua abertura para o fantástico, fechou a cerimônia com uma espécie de convite ao espectador de entrar no cinema sem abandonar a realidade, mas permitindo que ela seja reinventada.
A CineBH segue até o próximo domingo, momento em que distribui prêmios aos filmes vencedores. Até lá, encontros, debates e painéis vão apontando os principais temas que envolvem as preocupações do universo do audiovisual latino-americano.