A experiência de imersão em diferentes gêneros musicais moveu a segunda edição do Festival Turá no Anfiteatro Pôr do Sol, em Porto Alegre, neste final de semana. Encerrando com um show catártico do artista Ney Matogrosso e com o astral único da Alcione no primeiro dia, a pluralidade musical dos artistas convidados de diferentes origens mostrou o que é a verdadeira cultura em brasileiro, marcada pela mistura do pop, MPB, reagge, rock, samba, hip hop e tantos outros em algumas horas.
Performando para cerca de 20 mil pessoas ao longo de dois dias de evento, os artistas convidados fizeram shows memoráveis, contagiando os presentes de diferentes gostos e idades. O Correio do Povo preparou um ranking com os melhores shows do festival, levando em conta o engajamento do público, a técnica, a presença de palco e a escolha do setlist.
Confira abaixo os seis melhores shows do festival:
6 – Os Garotin
A ideia era fazer um top 5, mas vale uma menção honrosa para o grupo carismático e que vem chamando atenção ao estar estabelecendo uma nova era para a música negra brasileira. A banda formada por Léo Guima, Anchietx e Cupertino contagiou a plateia com sonoridades que unem soul, funk, pop, hip hop, MPB e R&B.
O swing e o carisma do grupo levou um clima diferente para o palco, formando uma sintonia forte com a plateia e contagiando até mesmo quem ainda não conhecia a banda de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. "Zero a Cem", do álbum Os Garotin Session, e “Nossa Resenha”, parceria com Caetano Veloso, foram as músicas que mais envolveram a plateia.
5 – BaianaSystem
Em um festival que tinha atrações como Alcione, Mano Brown e Nando Reis, o BaianaSystem chegou com status de headliner, fechando a primeira noite. E assim que a coisa começou, ficou claro que a escolha fazia sentido. É bem mais do que só um show pesado e pulsante que mescla ritmos bem brasileiros com elementos latinos. As perfomances em cima do palco não param nunca, capitaneadas pelo vocalista Russo Passapusso, mas que incluem outros participantes o tempo todo. Não por acaso, a energia contagiou o público, que comprou a ideia.
Em tempo, em um festival de dois dias e com 12 participantes – fora os sets dos DJs –, o Baiana foi um dos únicos, junto de Mano Brown, a trazer alguma mensagem política explícita em sua apresentação, o que tem sido cada vez mais escasso no rock.
4 – Cachorro Grande
Se há uma certeza sobre o show da Cachorro Grande no Turá é que ele merecia ter sido visto por mais gente, ainda mais levando em consideração que muito do que veio depois dos gaúchos empolgou bem menos o público.
Diga-se a verdade, é dificil competir com a Cachorro em termos de empolgação. Com um repertório que faz jus às mais de duas décadas de estrada, a banda é um dos raros exemplos em que todos os integrantes têm carisma e presença de palco. Teve de tudo um pouco: baladas, psicodelia e, claro, o bom e velho rock sessentista. Parafraseando uma das músicas mais famosas do grupo, quem chegou depois não sabe o que perdeu.
3 – Fresno
Pela segunda vez no festival, a banda não estava na primeira leva do line-up, que mudou por conta da enchente. Porém, valeu a pena, já que fez jus ao estilo ‘emocore’: trouxe uma apresentação dramática e explosiva. Os riffs das guitarras, as baterias pesadas e os refrões de hits antigos foram adequados para o horário da apresentação, por volta de 18h30min. A chuva inesperada que caiu não afastou o público durante o show do trio, formado pelo vocalista Lucas Silveira, o guitarrista Gustavo Mantovani e o baterista Thiago Guerra. Para melhorar, houve um espetáculo também no céu, já que a plateia foi surpreendida por um arco-íris que se abriu durante o pôr-do-sol.
2 – Alcione
Inegável que a rainha do samba foi a grande atração de sábado, fechando o primeiro dia de festival: os gritos de "Marrom" já eram entoados pela plateia antes mesmo do início da apresentação. A artista, que já tem mais de 50 anos de carreira, entrou e saiu do palco com uma vitalidade e astral surpreendente para a sua idade, que chegará aos 78 no próximo mês. Ainda que tenha permanecido sentada em grande parte do show, sua presença de palco manteve-se viva em todo o momento.
À vontade, Alcione é capaz de provocar intimidade com os fãs e até com quem apenas aprecia as músicas - aqueles que amam, aqueles que sofrem uma desilusão, aqueles que querem dar a volta por cima ou aqueles que só querem celebrar a vida. Os hits, que começaram a fazer sucesso entre os anos 90 e 2000, ainda seguem na ponta da língua até mesmo dos mais jovens.
As conversas da artista no intervalo entre cada música também a aproximava do público, cada vez que ressaltava o quanto estava feliz e grata por cantar novamente no Rio Grande do Sul. Mas ela não fez isso apenas com declarações: o encerramento da apresentação com "Canto Alegretense" provou o carinho que a Marrom tem com o Estado. O dueto de "Evidências" com o cantor Lucas Silveira foi um show à parte.
1 – Ney Matogrosso
Nada contra as demais atrações. Mas a edição deste ano do Turá em Porto Alegre sempre foi de Ney Matogrosso. Não por acaso, o público no domingo foi aumentando à medida em que ficava mais perto a entrada do artista que domina o palco como poucos no Brasil. E assim foi desde o início, com “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. À medida que o show avançava, o sentimento na plateia era quase de devoção. Houve um momento da apresentação em que Ney se preparou para cantar “Como 2 e 2”. Posicionou-se no centro do palco e os canhões de luzes azuis focaram só nele. Antes que entoasse os primeiros versos, se fez um silêncio quase absurdo para um local onde estavam mais de 10 mil pessoas. Àquela altura, o Anfiteatro já era dele.
Há tempos que Ney é considerado um dos maiores nomes da música brasileira, mas talvez a estreia de sua cinebiografia este ano, “Homem com H”, tenha o tornado mais conhecido de uma nova geração e rememorado pelas outras. Ainda bem. “Sangue Latino”, “Vira”, “Balada do Louco”, “Poema”. Um a um, os sucessos surgiam em uma voz que se mantém irresistível aos 84 anos. Quando o show acabou, justamente com “Homem com H”, terminava também o festival. Faz sentido. Até porque nada mais superaria o que o público recém presenciara.