Em meio ao sucesso do romance “O Avesso da Pele” (Companhia das Letras, 2020), que recebeu o Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021, o escritor Jeferson Tenório iniciava um novo romance. Quatro anos depois da publicação da obra, em meio a polêmicas por ser alvo de censura e banido de escolas, seu recente lançamento "De Onde Eles Vêm", chega à mão dos leitores pela editora Companhia das Letras. “Foi um processo mais difícil em função de tudo que aconteceu com ‘O Avesso da Pele’, um livro que foi lançado em 2020 mas até hoje tem reverberado na sociedade, seja pelos prêmios que ganhou ou pela questão da censura. Então isso me tirou muito tempo pra que eu pudesse me dedicar mais com o ‘De Onde Eles Vêm', então foi uma luta, na verdade, para ter esse tempo específico para escrever”, conta o escritor.
A obra conta a história de Joaquim, que chega à universidade por meio das políticas de cotas, e depara-se com um ambiente por vezes encantador, por vezes hostil, tentando manter as relações com suas origens. A história de Joaquim é ficcional, mas se cruza em alguns aspectos de pensamentos e vivências da história de Tenório, como pessoa negra, como cotista e pelo seu gosto por literatura. “O Joaquim, na verdade, é um personagem que eu gostaria de ter sido e não consegui ser. É um estudante negro que entra pelo sistema de cotas, é alguém que tem um objetivo, que já é leitor, quer ser um poeta, não quer ser professor. Na idade dele, eu gostaria de ter entrado como ele entrou dentro da universidade”, conta.
O escritor acredita haver mais aspectos que o distanciam do personagem do que aproximam. “Eu não era um leitor, fui me tornando leitor durante a universidade. Ele [Joaquim] sabia o que queria fazer. Eu nem sabia que podia ser professor fazendo o curso de Letras. O Joaquim também se apoia muito na literatura, e eu não tinha essa capacidade ainda. Acho que essas coisas me diferenciam dele”, diz.
Tenório esteve entre os primeiros estudantes a ingressar na licenciatura em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 2010, por meio da política de cotas. O escritor é mestre em Literaturas Luso-africanas pela mesma instituição, e doutor em Teoria da Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e também atua como professor de língua e literatura na rede pública de ensino de Porto Alegre. Ao refletir sobre a presença de pessoas negras nas instituições de ensino desde o período do início da implantação das cotas até hoje, Tenório acredita que a universidade passou por grandes mudanças nos últimos anos.
"Acho que a entrada de pessoas negras mudou a cara da universidade. Hoje a gente consegue perceber um ambiente muito mais diverso, com muito mais pessoas negras. O conhecimento também validado na universidade mudou, tem hoje outra bibliografia, outras discussões. Acho que agora a questão é trabalhar com uma docência negra, com mais professores negros”, avalia.
A entrada ou permanência de pessoas negras na universidade tem se tornado um tema forte da literatura brasileira contemporânea. Exemplos são “Embranquecimento”, de Evandro Cruz e Silva, e “Marrom e Amarelo”, de Paulo Scott. “De Onde Eles Vêm”, apesar de não se aprofundar nos processos das cotas em si, discute a trajetória de estudantes que entram no momento em que as cotas são implantadas. “O que eu quero discutir é a complexidade das relações entre alunos e professores, da instituição com esse aluno cotista. Acho que o meu livro acaba abordando a sofisticação do racismo nessas relações pessoais”, explica Tenório.
O racismo narrado em “O Avesso da Pele” é explícito e escancarado, principalmente por meio da violência física. Em “De Onde Eles Vêm”, Tenório narra ao leitor uma violência e racismo, em grande parte, nas entrelinhas. “Talvez alguns leitores, se fizerem uma leitura muito rápida, não vão conseguir detectar justamente esse racismo mais sutil e que me parece que é grande parte da violência que as pessoas negras sofrem. É justamente esse racismo não dito, né? Esse racismo escondido, ou uma atitude que parece que não é”, ele reflete. Tenório explica que não há uma violência física declarada nem um racismo escancarado, mas sim, a naturalização desse racismo nas relações.
Tenório ficou surpreso com o sucesso de “O Avesso da Pele” e, apesar de acreditar sempre fazer o melhor que pode com seus livros, suas expectativas de sucesso são sempre baixas, ele defende, e não está sendo diferente com “De Onde Eles Vêm”. Não que ele não tenha um objetivo, porém.
O que eu quero mesmo é que as pessoas leiam. Quero pelo menos tentar de alguma forma contribuir para a formação de leitores. Talvez pegar aquele jovem que nunca leu um livro inteiro e que chega no meu livro e consiga ir até o fim. Para mim, isso já é um grande prêmio”, revela. “Meu grande prêmio é quando alguém chega e me diz ‘eu li teu livro e ele foi o primeiro’.
O escritor também busca, em suas obras, provocar autonomia no leitor de maneira que questione o mundo ao seu redor. “Transformar, de alguma forma, esse leitor em alguém capaz de fazer mais perguntas, de questionar a realidade, de discordar da vida como ela é. Alguém que leia e identifique como a vida é injusta, para que essa pessoa possa encontrar respostas nela mesma. Um livro de literatura nunca vai dar respostas. Eu acho que isso é bom para um começo, mas por outro lado vai fazer com que essa pessoa questione as coisas”.