*Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes.
“Eu daria tudo para estar no seu lugar. Porque você faz teatro. E teatro é tão…”, disse, emocionada, a costureira Mariela após ir pela primeira vez a uma peça. A imigrante boliviana nunca havia ido ao teatro. Hoje, tem um espetáculo em sua homenagem. O espetáculo “Para Mariela” será apresentado em Porto Alegre nesta terça-feira, dia 2, e quarta-feira, dia 3, às 19h, na Sala Álvaro Moreyra, como parte da programação do 20º Festival Palco Giratório Sesc. A peça é uma produção do Grupo Sobrevento, que costuma se apresentar em um teatro em Belenzinho, na zona leste de São Paulo. O bairro operário é uma tradicional região imigrante, que reúne portugueses, espanhóis, italianos, chineses, libaneses e, mais recentemente, bolivianos. Ainda que estivessem no mesmo território, os imigrantes não frequentavam os espetáculos da companhia. Para aproximar-se dos vizinhos, portanto, os artistas decidiram começar a fazer perguntas aos filhos dos trabalhadores bolivianos, recolhendo histórias sobre os objetos que as crianças carregam.
“Se eu te pergunto quem é você, você vai me dizer sempre as mesmas 20 palavras que filtrou ao longo da sua vida. Quando eu pergunto: “O que é este colar que você está usando? O que é essa foto que você tem guardada dentro da tua carteira? O que é esse objeto que você tem na estante da tua sala?’, aí você vai me contar uma história que sempre quis contar”, relata Luiz André Cherubini, diretor da “Para Mariela” e fundador do Grupo Sobrevento, que completará 40 anos em novembro.
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Se antes os imigrantes bolivianos não entravam no teatro, agora eles estavam criando um espetáculo junto à trupe. Composta a partir dessa troca entre o grupo e as crianças, a peça mostra um personagem que sonha com o mar. O enredo da produção se relaciona com a história da Bolívia, que não tem mais mar desde que perdeu a Guerra do Pacífico, em 1884. Ainda assim, o país celebra, em 23 de maio, o Dia do Mar Boliviano, reivindicando o pedaço de terra perdido. Canta-se também a Marcha Naval (ou Hino Ao Litoral), que é ensinada nas escolas. “Mesmo que esse mar não chegue, ele é muito mais do que essa água salgada”, conta Cherubini. Na peça, entretanto, o mar chega – mas de outra forma, em um carnaval boliviano cheio de música, bonecos e máscaras.
“A gente se surpreende com a grandeza dessas crianças, o quanto a gente tem que escutar e aprender”, revela Cherubini sobre o processo de criação da peça, que nasceu da vivência com a comunidade boliviana. Como um bom vizinho, o Grupo Sobrevento abriu as portas da sua casa – não só para as crianças, mas para todos. Cherubini conta que, assim que trouxeram os filhos para o teatro, os pais também passaram a vir.