Entre palmeiras impecavelmente coreografadas, rios subterrâneos e o luxo cenográfico da Riviera Maya, um homem de fala calma roubou o centro da atenção nesta sexta-feira, no impactante Xcaret 2, no México. Não era um presidente, um magnata nem um guru motivacional. Era um zelador. Ou melhor, o ator argentino que transformou um zelador em uma das figuras mais perturbadoras e fascinantes da televisão latino-americana recente.
Guillermo Francella chegou aos Prêmios Platino do Audiovisual Iberoamericano 2026 carregando algo maior do que uma homenagem. Recebe, neste sábado, dia 9, o Prêmio de Honra do festival, reconhecimento reservado a trajetórias que deixaram marcas profundas no audiovisual ibero-americano. Já receberam a honra nomes como Sônia Braga, Antônio Banderas, Cecília Roth e Ricardo Darin, entre outros.
Mas sensação no ambiente era outra. A de que Francella não estava sendo celebrado apenas pelo passado. O que se homenageava ali era a capacidade rara de continuar desconfortável. E desconfortando.
Na coletiva realizada na manhã desta sexta-feira, no complexo Xcaret 2, o ator falou sem recorrer ao discurso protocolar típico das premiações. Contou detalhes de sua vida pessoal. Trabalhou na área do Jornalismo, trabalhou em revista, da qual foi demitido, se envolveu com teatro e sempre desejou estar no universo da arte. Comentou seu desejo de sempre fazer personagens populares, com humor e com profundidade.
O ator que acompanha com alegria o sucesso da quarta temporada de “Meu Querido Zelador”, disponível no Disney+, refletiu sobre a importância das homenagens. Diz acreditar que a naturalidade da atuação é inata, mas pontua a importância fundamental do profissionalismo. E fala um ator conhecido por memorizar suas falas e a dos outros colegas de cena.
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Na nova temporada da série criada por Mariano Cohn e Gastón Duprat, é produzida também pelo próprio Francella, o antigo zelador deixa de ser apenas um manipulador de bastidores para se tornar quase um engenheiro social. O prédio onde antes circulava silenciosamente vira território de guerra moral. Eliseo já não administra corredores; administra medos, dependências e vaidades.
E talvez aí esteja o segredo do fenômeno. O personagem nunca seduziu por ser “bom”. Seduziu porque reconhecemos nele algo perigosamente familiar. Há nele uma habilidade de sobreviver em sistemas apodrecidos entendendo suas regras melhor do que todos os outros.
Francella sabe disso. E interpreta Eliseo sem pedir desculpas ao público. Não há redenção fácil, lição edificante ou heroísmo tardio. Há ambiguidade. Há manipulação. Há inteligência emocional usada como arma. Em tempos de personagens desenhados para agradar algoritmos e evitar rejeição, “Meu Querido Zelador” escolhe outro caminho: provocar.
A homenagem nos Prêmios Platino parece reconhecer justamente essa coragem. Ao longo da carreira, Francella transitou do humor popular ao desconforto psicológico com uma naturalidade inquietante. Em “O Segredo dos Seus Olhos”, ao lado de Ricardo Darin e Soledad Villamil, participou de um dos maiores triunfos do cinema argentino moderno. Em “O Clã”, mergulhou na brutalidade humana. Mas é em Eliseo que talvez tenha encontrado sua síntese definitiva.