A médica e escritora gaúcha Andressa Tabaczinski, 35 anos, estreia na literatura com “Boas meninas se afogam em silêncio" (Rocco, 272 págs.), thriller investigativo finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento. O livro, publicado anteriormente com o título “Crisálida”, ganha agora nova edição e amplia o alcance de um thriller que articula investigação policial, drama familiar e crítica às estruturas conservadoras e aos privilégios sociais.
Ambientado na alta sociedade curitibana, o romance parte de um feminicídio brutal para tensionar valores conservadores, privilégios e dinâmicas de poder. A história começa após uma tempestade, quando o corpo da jovem Amélia Moura é encontrado com marcas de estrangulamento em uma região afastada de Curitiba, em meio às araucárias.
O desaparecimento, antes arquivado por falta de evidências, é reaberto sob pressão da mídia e da opinião pública. A delegada Ana Cervinski e o policial Júlio Bragatti assumem a investigação.
A revelação de que Amélia mantinha encontros secretos com uma mulher, registrada por câmeras de segurança, desmonta a narrativa da “boa menina”, revela fissuras na imagem pública e indica que a vítima guardava segredos. Ao articular feminicídio e repressão à sexualidade feminina, o romance evidencia como estruturas conservadoras podem operar também como dispositivos de silenciamento.
A gênese do romance remonta ao período em que Andressa vivia em Curitiba e trabalhava como médica em uma UPA em São José dos Pinhais. Era o auge da Operação Lava Jato, quando a cidade passou a ser chamada de “República de Curitiba”. “Havia um certo orgulho coletivo em torno de uma suposta superioridade moral”, afirma.
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Casos reais de violência e impunidade ocorridos na cidade a impactaram profundamente e serviram de ponto de partida para a escrita. Entre idas e vindas, a primeira versão do livro levou dois anos para ser concluída.
A narrativa alterna o passo a passo da dupla de investigadores com a perspectiva da protagonista nos meses que antecedem o crime até o dia do assassinato. Com ritmo atordoante e estrutura que remete às melhores séries de investigação, o romance combina suspense e drama. A abordagem simultaneamente brutal e terna de temas como violência contra a mulher e descoberta da própria sexualidade é um dos elementos que singularizam a obra.
Para Andressa, os temas centrais (autodescoberta, relacionamento LGBT, violência de gênero, tensões sociais, privilégios e relações familiares) nascem do interesse em investigar o conflito entre vida íntima e estruturas sociais. “A jornada de autodescoberta da protagonista esbarra diretamente em valores conservadores, expectativas de gênero e dinâmicas de poder que limitam o que pode ser vivido ou desejado”, afirma.
Segundo ela, a tentativa de “bancar o próprio desejo” pode ser percebida como ameaça em determinados contextos, e a violência pode irromper a partir disso.
A autora defende que histórias como a de Amélia precisam existir na ficção para que deixem de se repetir na vida real. “Escrever sobre isso é também uma forma de nomear essas violências e tensionar as estruturas que ainda as tornam possíveis.”