A Mostra de Cinema de Tiradentes reafirma, em sua 29ª edição, que não se trata apenas de um espaço de exibição. Mais do que revelar filmes experimentais ou apresentar as primeiras obras de realizadores brasileiros, a Mostra se consolida como um território vivo de pensamento, confronto e invenção coletiva. Aqui, o cinema não se encerra na tela. Se expande nos encontros, nas discussões acaloradas, nas perguntas sem resposta fácil e nas ideias que seguem reverberando muito depois do apagar das luzes.
Na edição deste ano, iniciada na última sexta-feira, dia 23, mais de 150 profissionais brasileiros e internacionais estão envolvidos em atividades reflexivas, rodas de conversa, painéis, debates e encontros com os filmes. Tiradentes se transforma, mais uma vez, em um laboratório de escuta e imaginação. São 59 debates que colocam o cinema brasileiro contemporâneo no centro, ampliando a experiência cinematográfica e refletindo sobre sua inserção no cenário cultural, político e econômico do país.
O Fórum de Tiradentes, em sua quarta edição, que começou no último sábado, realiza encontros e debates desde a sessão de abertura, “Convergências pelo Audiovisual: Estado e Sociedade na Consolidação de um Ecossistema Nacional”. A sessão reuniu representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, profissionais do audiovisual e membros da sociedade civil para debater os desafios e as oportunidades na construção de um ecossistema nacional do audiovisual.
O evento aprofunda esse movimento ao reunir Estado, sociedade civil e profissionais do setor para pensar o audiovisual como política de Estado e dimensão estratégica da soberania cultural. Debates sobre políticas públicas, fomento, regulação do streaming, internacionalização e desenvolvimento industrial apontam para a construção de um ecossistema nacional mais justo, descentralizado e sustentável. Na mesa “Internacionalização do Audiovisual Brasileiro: estratégias, desafios e potencialidades”, nesta terça-feira, dia 27, discute-se o momento de ampliação da presença do audiovisual brasileiro no cenário global, abordando políticas públicas, programas e estratégias voltadas à circulação internacional de obras, às coproduções e à inserção do Brasil em mercados e festivais. O debate reúne André Araújo Virgens (coordenador de Políticas para Difusão e Internacionalização da SAV/MinC, DF), Daniel Tonacci (coordenador de Programas Internacionais da Ancine, RJ), Júnia Matsuura (produtora e distribuidora, We Are Here / Abrasia, Alemanha), Mariele Christ(coordenadora de indústria e serviços da Apex Brasil, DF) e Rodrigo Teixeira (produtor, RT Features, RJ). A mediação é de Débora Ivanov.
O Seminário do Cinema Brasileiro, eixo estruturante da Mostra, segue como um dos principais espaços de reflexão crítica do audiovisual nacional. Em 2026, orientado pela temática “Soberania Imaginativa”, o Seminário propõe uma leitura retrospectiva das últimas duas décadas do cinema brasileiro, conectando a emergência de novas obras, artistas, coletivos e produtoras a processos históricos, políticos e criativos profundos. Em um contexto marcado pela retomada das políticas públicas, pela reorganização do setor e pela urgência da regulação das plataformas digitais, a imaginação surge como força estratégica — capaz de sustentar uma produção plural, diversa e em constante transformação.
Os Encontros com os Filmes, as mesas conceituais, os painéis temáticos e as rodas de conversa no Cine-Lounge articulam análise estética, pensamento crítico e debate público. Discute-se autonomia econômica, concentração de poder das big techs, diversidade simbólica, experimentação, presença de sujeitos historicamente excluídos e os conflitos que atravessam o Brasil contemporâneo. O cinema aparece, assim, como espaço de disputa de sentidos e de projeção de futuros possíveis.
Somam-se a esse caldo crítico as Rodas de Conversa: Encontros com o Cinema Brasileiro, que celebram trajetórias, processos criativos e experiências compartilhadas. Da homenagem a Karine Teles aos encontros com nomes como Júlio Bressane, Miguel Falabella, Letícia Sabatella, Gilda Nomacce e equipes criativas, a Mostra, nestes cinco dias de encontros, reafirma o valor da escuta e da troca. Um dos momentos intensos se deu no papo sobre “Preparação de Elenco”, com a profissional da área, Amanda Gabriel.
Em Tiradentes, o cinema é ponto de partida, nunca de chegada. É no encontro entre filmes, ideias e pessoas que a Mostra revela sua maior força: a de imaginar, coletivamente, outros modos de ver, criar e existir. O evento segue até dia 31.