Depois de duas semanas de filmes, encontros e descobertas, a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega ao fim nesta quinta-feira, 29 de outubro, disposta a mostrar que a sétima arte também pode ser celebrada com música, dança, diversidade e alguma inquietação. Afinal, se o cinema é uma janela para o mundo, o desejo é não fechar a cortina justamente na despedida.
A largada, em 14 de outubro, já deu o tom da ambição. Na Sala São Paulo, a Mostra abriu sua edição histórica com “Paper Tiger”, um dos filmes mais esperados do momento. Dirigido pelo norte-americano James Gray, o drama criminal estreou no Festival de Cannes e reúne um elenco de peso capitaneado por Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller. Não é pouca coisa para uma edição que celebra meio século de existência e reafirma a vocação de São Paulo para transformar a experiência cinematográfica em acontecimento cultural.
Produzido pela brasileira RT Features, em parceria com Leone Film Group e Keep Head Productions, o longa acompanha dois irmãos que, na perseguição ao chamado sonho americano, acabam tragados por uma operação bem perigosa. Entre corrupção, violência e a ameaça da máfia russa, a relação familiar se deteriora até que a traição, antes impensável, passa a rondar os personagens. Gray, cineasta que construiu uma filmografia marcada por conflitos morais, lealdades frágeis e personagens encurralados pelas próprias escolhas, parece saber que o inferno raramente começa com uma explosão. Às vezes, nasce dentro de casa. E falou disso também estando presente na Mostra deste ano.
A escolha de “Paper Tiger” para abrir a Mostra não se resume ao prestígio internacional ou à presença de estrelas e inclui uma assinatura brasileira nessa estreia em território nacional, com a produção da RT Features e a distribuição da Diamond Films. É o tipo de combinação que interessa ao cinema independente, unindo ambição artística, alcance internacional e a possibilidade de aproximar o público de uma obra que já chega cercada de expectativa. O filme também integrou a programação de exibições do festival, ampliando as oportunidades para que os espectadores encontrassem a produção além da sessão inaugural.
Ao longo da programação da Mostra, outras exibições ampliaram o repertório, cruzaram linguagens e colocaram diferentes cinematografias em circulação. A força de uma mostra está tanto no título que inaugura a festa quanto no que acontece depois, com a descoberta inesperada, o filme que divide opiniões, a obra que ninguém planejava ver e acaba acompanhando o espectador até em casa. É nesse território de riscos e surpresas que a cinefilia se renova.
E então chega a despedida, sem nenhuma vocação para o silêncio. Também nesta quinta-feira, com a exibição de “Tudo Pode ser Visto”, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, encerrando a programação cinematográfica no Teatro Cultura Artística, após a cerimônia de premiação, marcada para as 18h. Produzido pela A24 e distribuído no Brasil pela Sony Pictures, o documentário mergulha nos últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes, a fundadora da Theranos condenada por fraude depois de construir uma fortuna em torno da promessa de revolucionar os exames de sangue.
A história parece feita sob medida para uma época que confunde inovação com espetáculo e sucesso com verdade. Trinta e quatro dias antes de ser presa, Holmes convida uma equipe de filmagem cética para registrar sua rotina. O resultado acompanha uma jornada de três anos rumo ao abismo, entre imagem pública, ambição e a fabricação de uma realidade conveniente. Não por acaso, o longa vem chamando atenção desde sua estreia no Festival de Telluride e alcançando resultados expressivos nas bilheterias norte-americanas. A pergunta que fica é tão incômoda quanto contemporânea de quando a narrativa é poderosa o bastante, quem ainda se preocupa em conferir os fatos.
Só que a Mostra não pretende encerrar sua história numa sala de cinema. Na Casa de Francisca, a festa de encerramento transforma o Palacete Teresa em território de travessias, identidades e novas perspectivas. A programação espalha-se por diferentes ambientes, como se recusasse a aceitar que a cultura precise caber numa única moldura.
É uma despedida para públicos diversos, sem a obrigação de escolher entre reflexão e diversão. Do suspense criminal de James Gray ao retrato perturbador de Elizabeth Holmes, da música jamaicana às sonoridades cabo-verdianas, a Mostra faz de seu encerramento uma declaração de princípios em que o cinema não é apenas aquilo que vemos, mas tudo o que ele nos faz ouvir, questionar e compartilhar.