Ter amigos no trabalho pode parecer apenas uma consequência natural da convivência diária. No entanto, pesquisas mostram que essas relações também estão associadas ao engajamento, à saúde mental e à permanência dos profissionais nas empresas.
O Dia do Amigo, celebrado em 20 de julho, reacende uma discussão que vai além das homenagens nas redes corporativas: criar um ambiente no qual amizades possam surgir também é responsabilidade da empresa?
Embora nenhuma organização possa determinar quem será amigo de quem, especialistas defendem que lideranças e áreas de Recursos Humanos têm responsabilidade sobre as condições oferecidas para que vínculos de confiança se desenvolvam.
Amizade no trabalho pode aumentar o engajamento
Um levantamento da Gallup aponta que profissionais que afirmam ter um melhor amigo no trabalho são sete vezes mais propensos a estar engajados. A consultoria também estima que um em cada cinco trabalhadores no mundo se sente sozinho durante o expediente.
Outra pesquisa, realizada pela KPMG com 1.019 profissionais, mostrou que 83% dos entrevistados consideram que as amizades no trabalho aumentam o engajamento. Para 81%, elas melhoram a satisfação profissional, enquanto 78% reconhecem benefícios para a saúde mental.
No Brasil, o Índice de Confiança do Trabalhador, elaborado pelo LinkedIn, identificou que 55% dos profissionais têm um ou mais amigos próximos no trabalho. Apesar disso, apenas 35% consideram necessário manter esse tipo de amizade no ambiente profissional. A pesquisa ouviu 2.375 pessoas entre março e junho de 2024.
Os números indicam que as relações existem, mas ainda costumam ser tratadas como um acaso agradável, e não como parte da cultura organizacional.
Para Natália Lazarini, cofundadora da Philos Community, consultoria especializada em cultura organizacional e gestão de comunidades corporativas, o sentimento de pertencimento precisa ser construído ao longo do tempo.
“Pertencimento não se improvisa. Amizade no trabalho não nasce de um happy hour ocasional ou de uma ação de calendário. Ela é resultado de intenção, método e cuidado contínuo”, afirma.
Segundo Lazarini, a empresa não deve tentar produzir amizades artificialmente, mas pode criar oportunidades para que as pessoas conversem, troquem experiências e construam relações de confiança.
Falta de conexão também traz prejuízos
A ausência de vínculos no ambiente profissional pode aparecer nos indicadores financeiros das organizações. A Gallup estima que o baixo engajamento provoque cerca de US$ 10 trilhões em perdas de produtividade no mundo, valor equivalente a aproximadamente 9% do Produto Interno Bruto global.
No Brasil, a terceira edição do estudo Engaja S/A, desenvolvido pela Flash em parceria com a Fundação Getulio Vargas, calculou que o desengajamento custa cerca de R$ 77 bilhões por ano às empresas. Desse total, aproximadamente R$ 70,7 bilhões estariam relacionados à rotatividade de profissionais.
Equipes com relações frágeis tendem a enfrentar mais dificuldades de comunicação, colaboração e resolução de conflitos. Já ambientes nos quais existe confiança entre os profissionais podem favorecer a troca de conhecimento, o apoio emocional e a retenção de talentos.
“Pertencimento é um ativo organizacional. Onde há relação estruturada, há mais engajamento, mais saúde relacional e mais resultado”, afirma Vitor Igdal, cofundador e diretor-executivo da Philos.
Para ele, as amizades no trabalho ainda são vistas como um tema secundário, embora seus efeitos possam aparecer na produtividade, no clima organizacional e na capacidade de execução das equipes.
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NR-1 amplia atenção aos riscos psicossociais
A discussão sobre as relações profissionais ganhou ainda mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1, em vigor desde 26 de maio de 2026.
A nova redação determina que as empresas incluam os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no processo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Isso envolve identificar, avaliar e adotar medidas de prevenção diante de situações provocadas pelas condições e pela organização do trabalho.
A norma não obriga as organizações a criar amizades entre os funcionários. O foco está em riscos como sobrecarga, assédio, falhas na organização das atividades e outras condições capazes de afetar a saúde física ou mental dos trabalhadores.
Ainda assim, espaços de escuta, redes de apoio e relações profissionais mais saudáveis podem fazer parte das medidas adotadas para reduzir o isolamento e fortalecer o sentimento de pertencimento.
“Comunidades internas bem estruturadas funcionam como sistemas vivos de apoio: reduzem o isolamento, fortalecem redes de confiança e sustentam o senso de pertencimento no dia a dia”, explica Lazarini.
Como as empresas podem estimular conexões saudáveis
Para os especialistas, incentivar amizades no trabalho não significa forçar intimidade, promover confraternizações obrigatórias ou transformar a vida pessoal dos funcionários em uma ferramenta de produtividade. O papel da empresa é criar um ambiente seguro, respeitoso e aberto à convivência. Algumas iniciativas podem contribuir:
1. Criar momentos recorrentes de convivência
Cafés, encontros de troca, reuniões de integração e espaços de escuta podem facilitar a aproximação entre profissionais. A regularidade tende a ser mais eficiente do que grandes eventos realizados apenas em datas comemorativas.
2. Envolver as lideranças
Líderes ajudam a legitimar comportamentos e influenciam diretamente o clima das equipes. Quando gestores participam das ações e estimulam uma comunicação respeitosa, as iniciativas deixam de ser atividades isoladas do RH.
3. Estruturar espaços de pertencimento
Grupos de afinidade, projetos coletivos, programas de mentoria e comunidades internas podem aproximar pessoas que compartilham experiências, interesses ou desafios semelhantes.
4. Acompanhar o ambiente organizacional
Pesquisas de clima, indicadores de rotatividade e avaliações sobre segurança psicológica ajudam a identificar se as pessoas se sentem ouvidas, apoiadas e integradas às equipes.
“Cultura não nasce de frases na parede, mas de escolhas feitas todos os dias. A empresa não consegue obrigar duas pessoas a serem amigas, mas é responsável por criar ou inviabilizar o ambiente em que isso se torna possível”, resume Igdal.
A amizade no trabalho não deve se transformar em uma exigência ou em mais um indicador imposto aos funcionários, segundo Igdal. Ainda assim, empresas podem escolher entre ambientes que aproximam pessoas e aqueles que estimulam isolamento, competição excessiva e desconfiança.
