Da química à gastronomia: a trajetória de Nicole na Famiglia Facin

À frente da marca de gastronomia italiana ao lado do marido, a empresária Nicole Facin fala sobre gestão, resiliência e expansão em Porto Alegre

Nicole Facin entrou na gastronomia após uma mudança de rota profissional e hoje aplica sua formação na gestão da Famiglia Facin
Nicole Facin entrou na gastronomia após uma mudança de rota profissional e hoje aplica sua formação na gestão da Famiglia Facin

Na gastronomia, o prato que chega à mesa é apenas a parte mais visível de uma operação que exige presença, equipe afinada e capacidade de decisão em tempo real. Para Nicole Facin, sócia e proprietária da Famiglia Facin, essa percepção ficou ainda mais clara quando a marca deixou de ser apenas uma casa e passou a ocupar novos endereços em Porto Alegre.

Formada em Química Industrial, com mestrado em Engenharia de Materiais, Nicole, 40 anos, levou para a gastronomia uma trajetória marcada por método, análise e visão de processos. Hoje, à frente da Famiglia Facin ao lado do marido, Rodrigo Facin, ela aplica esse repertório em uma operação que deixou de ser apenas familiar para se consolidar como marca gastronômica na cidade.

Apesar da ligação da família com o setor, a entrada de Nicole na gastronomia não foi planejada desde o início. “Apesar de vir de uma família que sempre teve negócios em gastronomia, meus pais tiveram padaria por 30 anos, eu não atuava nessa área e não tinha interesse na gastronomia”, conta.

Segundo Nicole, isso mudou quando ela e o marido, que moravam em São Paulo, resolveram voltar a Porto Alegre. “O Rodrigo queria ter o próprio negócio, surgiu a oportunidade de montarmos nosso primeiro restaurante e voltamos. Foi assim que abrimos a Famiglia Facin, no Shopping Total, em 2014”, relembra.

A virada para uma gestão profissional

O primeiro restaurante abriu em 2014, mas foi com a expansão que Nicole percebeu a necessidade de estruturar melhor a empresa. Segundo ela, a mudança aconteceu em 2021, com a abertura da segunda unidade, no Cais Embarcadero.

“Quando abrimos nossa segunda unidade, no Cais Embarcadero, em 2021, percebi que a Famiglia Facin trilhava um caminho de crescimento e que precisaríamos focar em uma gestão profissional para expandir e desenvolver nossa marca de forma consistente e saudável”, afirma.

A partir desse momento, o negócio passou a exigir não apenas envolvimento familiar, mas processos, planejamento, controle de operação e visão de longo prazo. Na prática, Nicole passou a atuar em uma função que conecta atendimento, equipe, experiência do cliente, posicionamento de marca e tomada de decisão.

Quando a empresa também é família

A parceria familiar, de acordo com Nicole, traz força para a construção da marca, mas também exige cuidado para separar os espaços da vida pessoal e profissional. “A gestão de um negócio gastronômico é bastante desafiadora por si só. Fazer isso dentro de uma relação familiar traz algumas vantagens, como uma grande sinergia na tomada de decisões, além de visões de futuro e projetos em comum. Mas também apresenta desafios, como a dificuldade de separar as relações pessoais e profissionais”, diz.

Para a empresária, um dos efeitos dessa dinâmica é que os assuntos do negócio acabam acompanhando o casal para além do restaurante. “O fato de morar com um colega de trabalho faz com que os assuntos profissionais estejam sempre em pauta, independentemente do lugar ou horário”, completa.

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Resiliência como habilidade de gestão

Na visão de Nicole, a principal habilidade desenvolvida ao longo da carreira foi a resiliência. Em um setor marcado por alta demanda operacional, equipe numerosa, atendimento ao público e imprevistos diários, ela considera essa competência essencial para quem empreende na gastronomia.

“Acho que a habilidade mais importante para um empresário da gastronomia é a resiliência. Aprender a enfrentar os desafios com calma, clareza e a certeza de que, não importa o quão difícil pareça a situação, sempre é possível encontrar uma solução, aprender e evoluir”, afirma.

A empresária cita dois momentos que exigiram essa postura: a pandemia e a enchente. Segundo Nicole, a mesma mentalidade aplicada nas grandes crises também orienta as decisões cotidianas da empresa.

“Depois disso, enfrentamos desafios como a pandemia e a enchente no Cais, mas aprendemos com esses momentos. Saímos mais fortes e vimos que são poucas as coisas que nos derrubam. O universo gastronômico é muito interessante, é riquíssimo e apresenta conexões maravilhosas. Todo dia a gente quer aprender um pouco mais”, diz.

Um mercado em mudança constante

Se a gastronomia sempre exigiu adaptação, Nicole observa que a velocidade das mudanças aumentou. Para ela, o setor hoje demanda leitura constante do mercado, capacidade de ajustar a operação e atenção aos custos, sem perder a qualidade da experiência oferecida ao público.

“Atualmente, enfrentamos alguns desafios, como mudanças constantes no mercado. Parece que antigamente o mercado mudava mais lentamente, e agora muda muito rápido. Também temos dificuldade de encontrar mão de obra qualificada e aumento de custos que nem sempre é possível repassar ao cliente. São desafios não apenas da gastronomia, mas do comércio como um todo. Ainda assim, é um negócio muito bacana e muito divertido de atuar”, afirma.

Liderar é criar pertencimento

Nicole afirma que a Famiglia Facin busca construir uma cultura interna baseada em comunidade, família e pertencimento. “Na Famiglia Facin buscamos criar um senso de comunidade, família e pertencimento dentro da equipe. Somos bastante unidos e, sempre que necessário, ajudamos uns aos outros. Essa é uma cultura que não fica apenas nas lideranças, mas que observamos em todas as pessoas da equipe”, destaca.

Essa forma de liderar também aparece na maneira como a empresária pensa os espaços. Para Nicole, as decisões sobre cada casa partem de uma pergunta simples: que tipo de experiência a própria família gostaria de encontrar ao sair para comer?

Experiência além do prato

A Famiglia Facin hoje reúne casas com propostas diferentes. A Casa Veneza, no Cais Embarcadero, foi pensada para públicos variados, de encontros entre amigas a famílias, casais ou pessoas que buscam aproveitar o pôr do sol. A Casa Nápoles, também no Cais, conta com o Navio Pirata, espaço voltado às crianças. Já a Casa Florença, no bairro Bela Vista, aposta em uma atmosfera mais intimista, inspirada na tradição italiana com toque contemporâneo.

“Procuramos trazer para nossas operações aquilo que gostaríamos de encontrar nos restaurantes”, explica Nicole. A empresária resume seu principal aprendizado em duas palavras: resiliência e perseverança. E agora sua trajetória ganha um novo capítulo com a reabertura da Casa Florença, terceira operação do grupo. O espaço volta a receber o público a partir de quarta-feira, 17 de junho de 2026, após um período de reformas e revitalização.