“A odontologia tem uma maioria feminina que, raramente, se vê representada nos espaços de decisão”, observa a cirurgiã-dentista Janaína Cortes Gomes, primeira mulher a assumir a presidência do Conselho Regional de Odontologia do Rio Grande do Sul (CRO-RS). Desde quando o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Odontologia foram criados no Brasil, por meio da Lei nº 4.324, de 14 de abril de 1964, nenhuma mulher havia assumido o posto mais alto do CRO no Estado.
Para Janaína Gomes, estar à frente do CRO-RS “significa que a odontologia gaúcha finalmente se olhou no espelho”. Sua fala vai de encontro à realidade da categoria, que é maioria no Estado. Considerando todas as profissões vinculadas ao CRO – cirurgiões-dentistas, auxiliares e técnicos em Saúde Bucal e auxiliares e técnicos em Prótese Dentária – pelo menos 60% dos profissionais ativos no Rio Grande do Sul são mulheres.
Em um Estado que detém a quinta posição entre os CROs com mais profissionais de Odontologia, com quase 40 mil, a maioria feminina foi, por muito tempo, negligenciada. “Quando assumi a presidência, percebi que praticamente todos os banheiros da sede tinham mictório”, relembra a presidente do CRO-RS, que tomou posse do mandato em abril deste ano. Segundo ela, apesar da estrutura física do prédio estar mudando, pode-se observar uma mensagem por trás do projeto arquitetônico: “O prédio foi desenhado para homens, como tantos espaços de poder ainda são”.
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De acordo com a presidente, a nova gestão, formada majoritariamente por mulheres, quer estar por dentro da diversidade da categoria para, a partir disso, agir por ela. “Ser a primeira mulher presidente do CRO-RS é o contexto histórico. O mandato é para todos os dentistas gaúchos”, afirma. Mesmo assim, a profissional deixa um recado especial para as mulheres:
“Quero dizer às jovens cirurgiãs-dentistas, às técnicas, às auxiliares que esses espaços também são de vocês. Não por concessão, mas por direito e por preparo. Cheguem.”
Iniciativas para mulheres
“O CRO não existe para si mesmo. Existe para proteger a população de serviços prestados por profissionais sem qualificação, e para defender quem cuida da saúde bucal dos brasileiros com ética e competência”, aponta a cirurgiã-dentista. Além das iniciativas direcionadas a toda a categoria, como a defesa do piso salarial e maior presença do conselho no interior do Estado, Janaína compartilha ações direcionadas às mulheres – profissionais e pacientes.
Para as profissionais, a presidência prevê a estruturação da Comissão CRO Mulher, com três frentes: combate ao assédio em consultórios e ambientes de ensino, apoio jurídico às dentistas em situação de vulnerabilidade e diálogo sobre maternidade e carreira na odontologia. “Também queremos ampliar a proteção das equipes de saúde bucal diante dos índices crescentes de violência contra mulheres em ambientes de trabalho.”
Já para as pacientes, o Projeto Maio Vermelho, que previne e alerta sobre os riscos do câncer bucal, terá continuidade, observando principalmente o interior do Estado. Além dele, a presidente prevê ampliação da rede de atendimento odontológico às mulheres vítimas de violência.
*Sob supervisão de Lisiane Mossmann
