Nascida no interior de Santa Catarina, na região de Meleiro, no Sul do Estado, Daniela, hoje com 56 anos, tem as primeiras memórias da infância atravessadas pelos gritos do pai. De Porto Alegre, Vera, 64, está em uma instituição de idosos há dois anos, sob cuidados do Estado, com medo da truculência do ex-marido.
O que Vera e Daniela têm em comum? São mulheres que aprenderam que casa nem sempre é sinônimo de proteção e tiveram a vida marcada pela violência.
A trajetória das duas também revela algo que vai além de experiências individuais. A violência contra a mulher não é um episódio isolado, nem restrito a uma fase da vida. Ela pode começar na infância, atravessar a juventude, marcar a vida adulta e persistir até à velhice. É o que mostra a reportagem do Correio do Povo composta de quatro matérias: essa e outras três que podem ser acessadas pelos links abaixo.
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Para a psicóloga Luísa Habigzang, docente do Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Violência, Vulnerabilidade e Intervenções Clínicas (GPeVVIC), a violência de gênero é estrutural. “Não se trata de casos isolados, mas de uma organização social que distribui poder de forma desigual e naturaliza o controle e a agressão contra mulheres”, explica a doutora em Psicologia.
Habigzang cita um estudo nacional financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que analisou registros de violência familiar no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), em um recorte de cinco anos, entre 2018 e 2022, incluindo o período da pandemia. Segundo ela, a equipe recebeu de estados que representam macrorregiões do país quase um milhão de notificações. Ao organizar os dados por etapas do desenvolvimento - infância, adolescência, idade adulta e velhice - a equipe identificou um padrão consistente: em todas as fases da vida, as mulheres apresentaram maiores índices de notificação.
Embora o tipo de violência varie ao longo do tempo, um dado atravessa toda a série e se destaca pela gravidade: a violência sexual desde a primeira infância, com aumento por volta dos 10 e 11 anos, na puberdade, e índices elevados entre meninas.
Maior letalidade entre jovens e adultas
A violência de gênero se manifesta em todas as etapas da vida, apresentando um perfil geracional nítido nos registros oficiais. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2025, a letalidade concentra-se majoritariamente entre jovens e adultas (18 a 44 anos), que somam 71,1% das vítimas, seguidas pelas mulheres consideradas maduras (45 a 59 anos), com 12,4%.
O impacto também atinge precocemente crianças e adolescentes (0 a 17 anos), que representam 10,6% dos casos, enquanto as idosas (60 anos ou mais) correspondem a 5,9% das vítimas. Esse cenário reforça que, embora a faixa em idade reprodutiva seja a mais atingida, o feminicídio é um risco persistente que acompanha a mulher desde a infância até à velhice.
Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Violência e Cidadania e pesquisadora do Observatório da Violência de Gênero da universidade, Rochele Fellini Fachinetto avalia que é preciso compreender a violência de gênero como um continuum. “Ela não começa no feminicídio. Há uma sequência de violências que vão sendo naturalizadas”, afirma a socióloga.
Como conta Daniela, que teve a infância marcada pelas agressões do pai à mãe e pelas suas ameaças de morte. Ou então como relata Vera, que sofreu tentativa de abuso sexual do ex-marido. A violência de gênero reaparece nas histórias de Carla, Renata e Manuela, em diferentes etapas de suas vidas, nas quais o controle, as humilhações, a violência física e o medo compõem relações que se prolongam por anos. Os nomes são fictícios a fim de preservar as mulheres que compartilharam suas vivências para ajudar a outras que passaram ou passam pelos mesmos traumas.
Agressão naturalizada na sociedade
A violência contra a mulher não nasce de conflitos individuais. Ela está ligada à forma como a sociedade organiza poder, papéis e hierarquias entre homens e mulheres. Para Habigzang, o gênero ainda define quem tem mais autonomia e quem é socialmente tolerado ao exercer controle. “Não se trata de casos isolados. Existe uma organização social que naturaliza o controle e a agressão contra mulheres”, observa.
Essa naturalização aparece nas pequenas permissões cotidianas, como a vigilância sobre roupas, a desqualificação verbal e o isolamento da rede de apoio, e também nas respostas institucionais que muitas vezes falham em proteger. Para a pesquisadora, quando a violência começa na infância ou na adolescência e não é interrompida, ela tende a se reproduzir ao longo da vida, moldando percepções sobre afeto, autoridade e medo.
A socióloga Fachinetto aponta que é preciso olhar para além do agressor individual. “A violência contra mulheres está relacionada a uma ordem de gênero que distribui poder de forma desigual”, acentua.
Segundo Fachinetto, essa ordem sustenta a ideia de posse e controle sobre o corpo e as decisões femininas. Quando mulheres rompem expectativas, ao buscar autonomia financeira, ao decidir se separar ou ao denunciar, a reação pode ser violenta. “Não é um desvio da norma. É uma expressão de desigualdade que ainda estrutura as relações sociais”, afirma.
O pai de Daniela a ameaçava e agredia a esposa, em um ambiente em que a autoridade masculina dentro de casa era imposta pelo medo. Daniela recorda que, num Natal, ouviu o pai dizer que naquele dia ela não escaparia da morte. Enquanto, a mãe tentou levá-la para a casa de um padrinho, o pai recuou e ordenou que voltassem.
Em outras noites, a fuga de Daniela era para o mato. Ao ouvir o pai se aproximar alcoolizado, a mãe pegava os filhos e corria para o meio das plantações. Ficavam escondidos até o silêncio voltar.
Daniela conta que, em um episódio, após uma agressão, a mãe desapareceu. Vizinhos passaram o dia procurando por ela, temendo que tivesse feito algo contra a própria vida. Daniela era pequena, mas lembra da movimentação para encontrar a mãe e do medo que sentiu.