A violência não atinge todas as mulheres do mesmo jeito. Uma lente que ajuda a enxergar essa diferença é a interseccionalidade, conforme a psicóloga Luísa Habigzang, docente do Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Violência, Vulnerabilidade e Intervenções Clínicas (GPeVVIC). Ao citar a intelectual Lélia Gonzalez, a pesquisadora lembra que não existe uma “categoria universal” de mulher.
Classe social, raça e outros marcadores mudam o risco, o acesso a direitos e a forma como as instituições respondem quando a violência de gênero acontece. Em outras palavras, segue também as linhas das desigualdades que atravessam a sociedade brasileira. A reportagem do Correio do Povo explica como isso ocorre em quatro matérias: essa e outras três que podem ser acessadas pelos links abaixo:
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Uma parte importante do debate sobre a violência de gênero é entender que ela começa muito antes da agressão física. A sensação de medo constante já é uma forma de violação. “As mulheres não conseguem caminhar nas ruas em segurança. Isso por si só já é uma violência”, exemplifica a socióloga. A dificuldade de ascensão no trabalho e a remuneração menor por ser mulher também entram nessa conta, mesmo sem envolver violência corporal.
Nas relações íntimas, diz a pesquisadora, os sinais costumam aparecer cedo. Antes do soco, vem o cerceamento da liberdade. A violência se instala como coerção, isolamento e enfraquecimento da rede de apoio. “Sob a desculpa de estar cuidando, protegendo, zelando, na verdade está podando a liberdade dessa mulher”, analisa.
A forma como esses sinais são interpretados ajuda a explicar por que tantas mulheres demoram a reconhecer o risco. A pesquisadora também destaca que parte da violência é aprendida e naturalizada. Em um estudo voltado a adolescentes, cerca de 38% (quase 40%) dos participantes já haviam vivenciado violência no namoro, incluindo violência psicológica, física e sexual.
Conforme Habigzang, entre os fatores que aumentariam a chance de vivenciar esse tipo de violência estão ser menina, pertencer a grupos historicamente mais expostos à discriminação e ter presenciado violência entre os pais. “Crescer num ambiente em que a violência existe” tende a normalizar formas agressivas de relação e, mais tarde, favorecer a reprodução desses padrões nas primeiras relações íntimas.
A coerção surge no início do relacionamento e pode ser lida como cuidado, especialmente por quem viveu negligência ou violência na infância e passa a associar “proteção” a afeto. Nesse processo, diz ela, a violência psicológica vai sendo normalizada e, quando se olha para trás, a agressão raramente começa de repente. Os sinais costumam estar presentes desde o início.
Para a doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Violência e Cidadania e pesquisadora do Observatório da Violência de Gênero da universidade, Rochele Fellini Fachinetto, esse padrão não pode ser reduzido ao comportamento de um agressor específico. A socióloga descreve o cenário como um arranjo. Existem sociedades mais equitativas, em que recursos e oportunidades se aproximam mais entre homens e mulheres. E existem sociedades com hierarquias mais acentuadas, em que a desigualdade de poder é maior.
Nos contextos mais desiguais, a violência tende a aparecer como recurso para manter a hierarquia e proteger privilégios. “Quanto maior a desigualdade de gênero, maior a tendência de que a violência seja um recurso utilizado”, diz.
É o caso de Manuela (nome fictício), com 23 anos, quando conheceu o ex-namorado pelo Facebook. Antes mesmo de se encontrarem pessoalmente, ele já demonstrava ciúme do tempo em que ela ficava online, questionando-a com quem conversava. Em menos de um mês de relacionamento, ela passou a morar com ele e se afastou da mãe. O primeiro episódio de ameaça ocorreu quando decidiu ir ao aniversário da irmã. Ele disse que, se fosse, bateria nela.
Depois da reconciliação, o controle se intensificou. O celular não podia ter senha, ela precisava avisar horários de intervalo e saída do trabalho e sofria puxões de cabelo e beliscões, inclusive na frente da família dele. No dia em que não avisou o momento quando estaria no intervalo, por estar sem bateria, ele a agrediu com um cabo de carregador e encostou uma faca em sua nuca, ameaçando matá-la. Com o apoio de uma colega e da mãe, registrou boletim de ocorrência e conseguiu medida protetiva.
Vítimas não reconhecem a violência
A dificuldade de as vítimas reconhecerem a violência é um obstáculo recorrente. Habigzang relata que, em pesquisas, muitas pessoas respondem “não” quando questionadas de forma genérica se já sofreram violência em uma relação. A resposta dos entrevistados muda quando aparecem exemplos concretos, como xingamentos, ameaças e desqualificação. Para ela, campanhas de prevenção falham quando não explicam com clareza como a violência se manifesta no cotidiano.
Ao falar de violência em múltiplos contextos, Habigzang cita uma pesquisa em andamento com trabalhadoras da saúde. Entre cerca de 700 respondentes, 25% afirmaram já ter sofrido assédio sexual no trabalho e mais de 40% relataram assédio moral. Para ela, a soma de violências em casa, no trabalho e na rua ajuda a explicar por que indicadores de ansiedade, estresse e depressão costumam ser mais altos entre mulheres, não por terem mais sensibilidade, mas pela pressão constante e pela experiência reiterada de violação de direitos.
A socióloga Fachinetto amplia essa leitura ao afirmar que a dimensão estrutural da violência não está apenas na renda, nas políticas públicas ou no acesso à educação e à saúde. Ela também opera no plano simbólico, na forma como mulheres e homens são percebidos socialmente. A pesquisadora aponta a objetificação como elemento central dessa engrenagem, quando mulheres são vistas como corpo disponível ou como algo sob poder masculino.
Outro exemplo citado por ela é a divisão do cuidado. O trabalho doméstico e o cuidado com outras pessoas ainda recaem de forma desproporcional sobre as mulheres. Segundo a pesquisadora, isso não é biológico, nem resultado de aptidão natural. É construção social, que varia entre sociedades e atravessa gerações, reforçando seu caráter estrutural.
Fachinetto também chama atenção para o agravamento das violências que atingem mulheres e enquadra a violência de gênero como crime de ódio. Para ela, não se trata de agressões aleatórias. A violência mira o corpo e o sujeito identificado como alvo do ódio ao feminino. Nesse marco, fere a dignidade e carrega uma lógica de humilhação e dominação.
Outro ponto destacado pela socióloga é que a escalada de violência não pode ser desconectada do avanço de direitos. Quando mulheres ocupam espaços historicamente masculinos e reivindicam autonomia, pode haver reação de quem tenta restabelecer hierarquias. O direito de dizer sim, o direito ao próprio corpo, de sair na rua, trabalhar, estudar e ter voz pode se chocar com uma masculinidade apoiada na força e na ideia de posse. Para ela, a violência letal tende a aparecer como ponto máximo desse processo.
Como é a lógica da violência
A mulher calcula horário, trajeto e ambiente. Decide como atravessar a rua, onde sentar no transporte, o que evitar para reduzir risco e desconforto. Esse planejamento mental constante não é exigido dos homens da mesma forma. Para a socióloga Fachinetto, essa experiência cotidiana ajuda a explicar por que a separação entre microviolências e violências graves não dá conta da realidade. A ideia de continuum, afirma, descreve melhor o que acontece na prática.
É também por isso que a pesquisadora critica a narrativa do “monstro” como explicação confortável. “O feminicídio é horrível, mas tratá-lo como ato de um monstro, no sentido literal, produz um efeito político ruim, porque sugere que não há o que fazer.”
Para Fachinetto, os agressores são homens socializados numa cultura de misoginia: colegas, vizinhos, pessoas que circulam na vida pública. Se isso é verdade, diz, a resposta precisa ser social e institucional, não apenas moral.
Fachinetto volta a insistir que a experiência da violência não é igual para todas. Quando raça, classe, orientação sexual e identidade de gênero entram na análise, o risco e as barreiras crescem. Além do risco, há o acesso desigual à política pública. Mulheres pobres e periféricas podem ter dificuldades objetivas para chegar a serviços. E ainda há o medo de revitimização institucional, seja por racismo, seja por preconceitos. Ela também aponta que a confiança no sistema de justiça não é distribuída igualitariamente e que fatores sociais podem influenciar decisões de denúncia.
O agressor está ao lado
Foi o que aconteceu com Renata (nome fictício), atualmente com 43 anos. Um ano depois de estar morando junto com o ex-companheiro, quando ela tinha 29 anos, Renata encontrou nos documentos dele um boletim de ocorrência da esposa anterior. No puerpério da ex-esposa, o homem havia lhe agredido, causando hemorragia e impedindo-a de engravidar novamente. Ao descobrir o BO, Renata não reagiu. “Eu não falava com ninguém. Eu tinha pânico de falar com alguém e ele fazer alguma coisa.”
Um ano depois, o agressor abusou da filha de 10 anos que Renata já tinha antes do relacionamento. Naquele período, teve medo de procurar ajuda. “Ele dizia que se eu fosse na delegacia denunciar ele sobre o abuso da minha filha, da cadeia ele sairia, mas, do cemitério, eu e minha filha não sairíamos.”
Ao reforçar que não existe violência menor, Habigzang cita a pesquisa de dissertação de mestrado que comparou mulheres que sofreram exclusivamente violência psicológica com aquelas que vivenciaram polivitimização. Segundo a pesquisadora, o trabalho encontrou ausência de diferença nos efeitos sobre autoestima e regulação emocional, indicando que assédio e violência psicológica podem ser tão danosos quanto outras formas e, muitas vezes, estão na base do que depois escala.
No fim, Habigzang propõe uma pergunta que, para ela, deveria orientar o debate público: que função social a violência tem cumprido?. Ao mencionar a socióloga Heleieth Saffioti, ela discute o medo como mecanismo coletivo. Quando uma mulher sofre violência ou é vítima de feminicídio, outras mulheres se sentem ameaçadas. Isso restringe liberdade e reforça subordinação.
Para a pesquisadora, essa dinâmica se relaciona com a retomada de discursos conservadores que tentam apresentar papéis de gênero como “naturais”. O contraponto, diz, é uma cultura de garantia de direitos: direito de existir, de ir e vir com segurança, de manifestar opinião, de se desenvolver no trabalho e de ter direitos sobre o corpo, a sexualidade e a própria vida.