Antes de falar em gestão, metas ou expansão, muitas mães empreendedoras falam de tempo. Tempo para o negócio, para os filhos, para a casa, para as decisões urgentes e para aquilo que nem sempre cabe na agenda, mas pesa na rotina. A maternidade, quando atravessa o empreendedorismo, não aparece como uma função separada da vida profissional. Ela interfere nas escolhas, na forma de liderar e na maneira de medir prioridades.
No Rio Grande do Sul, essa experiência aparece nos relatos de mulheres ligadas à Hey Peppers!, rede de inovação bilíngue criada em Santa Rosa. Em cidades como Santa Cruz do Sul, Três de Maio, Ijuí e Humaitá, franqueadas contam como lidam com a tentativa de manter o negócio em movimento sem deixar de estar presentes na vida dos filhos.
Para Niceia Wünsch, franqueada da Hey Peppers! em Santa Cruz do Sul, o maior aprendizado foi entender que nem tudo pode ter o mesmo peso ao mesmo tempo. A ideia de equilíbrio, tão repetida quando se fala em maternidade e trabalho, nem sempre corresponde à rotina real. “Hoje se fala muito em equilibrar os pratos, mas no fim das contas a gente nunca equilibra os pratos. Para mim, o maior desafio é entender o que realmente é prioridade”, afirma.
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Na prática, a definição de prioridades se tornou uma forma de organizar escolhas e aceitar limites. “Você consegue fazer tudo desde que entenda o que é prioridade, quais os ganhos e quais as perdas”, completa.
A divisão do tempo também aparece no relato de Juliane Fischer, franqueada da Hey Peppers! em Três de Maio. Para ela, empreender envolve a realização de um projeto próprio, mas também a convivência com a vontade permanente de estar perto dos filhos. “Empreender é viver os teus sonhos, mas também querer estar sempre com o teu sonho que é teu filho”, diz.
A pergunta sobre como organizar tempo de qualidade para a família e para a empresa acompanha as decisões do dia a dia. Não se trata apenas de cumprir tarefas, mas de lidar com presenças possíveis, ausências inevitáveis e escolhas que se repetem a cada semana.
Os relatos dialogam com um cenário mais amplo. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizado no Brasil em parceria com o Sebrae, mostram que as mulheres representam 34% dos empreendedores no país. Em 2025, 42% dos 4,96 milhões de novos negócios registrados no país foram liderados por mulheres, de acordo com o Sebrae.
Crescimento de mercado
Já no franchising, a presença feminina também avançou de forma consistente na última década, passando de 46% em 2015 para 57% em 2024, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). O movimento de participação feminina cresce de forma consistente, mas ainda convive com barreiras estruturais, como a sobrecarga de tarefas e a dificuldade de equilibrar responsabilidades familiares e profissionais.
Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), divulgado em 2025, aponta que as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas a mais por semana ao cuidado não remunerado do que os homens. O levantamento também mostra que metade das mulheres deixa o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho.
Entre as mães que empreendem, essa desigualdade aparece também na forma de culpa. Aline Dias, franqueada da Hey Peppers! em Ijuí, afirma que a maternidade no empreendedorismo envolve sonhos, responsabilidades e cobranças internas. “Empreender sendo mãe é equilibrar sonhos e responsabilidades, enfrentando falta de tempo, pressão emocional e culpas que só nós mães sabemos”, relata.
Mesmo diante da sobrecarga, Aline afirma que o propósito do negócio ajuda a manter a caminhada. “Mesmo assim seguimos em frente, pois o propósito é maior”, diz.
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A sensação de não conseguir atender plenamente às expectativas também faz parte da experiência de Rafaela Helena Sulzbach Secchi Sauerssig, franqueada da Hey Peppers! em Humaitá. Para ela, o desafio está em conciliar a presença materna com a gestão de um negócio que também exige atenção constante. “O principal desafio é conseguir conciliar tudo: ser uma mãe presente, ter o negócio fluindo”, afirma.
Segundo Rafaela, a cobrança interna costuma acompanhar essa rotina. “Lidamos com a culpa, muitas vezes, por acharmos que não somos boas mães ou por não ter o negócio onde gostaríamos que estivesse”, observa. Ao mesmo tempo, ela reconhece a importância de olhar para as condições reais de cada momento. “A sensação é de que fizemos o melhor dentro das condições que temos.”
Na história da própria Hey Peppers!, a relação entre maternidade, educação e empreendedorismo também aparece na origem do negócio. Dona Nelci, mãe das fundadoras Bianca e Tamara Dewes, acompanhou desde cedo o interesse das filhas pelo ensino de inglês, ainda na adolescência. “O maior ensinamento que a gente dá para os filhos é a educação”, afirma.
O projeto iniciado pelas irmãs evoluiu para uma rede de franquias educacionais. Para Dona Nelci, acompanhar a trajetória construída pelas filhas é também reconhecer o papel da família na formação de escolhas profissionais. “É muito gratificante para uma mãe ver esse comprometimento e ver tudo sendo feito com amor e dedicação”, diz. Fundada em 2013, em Santa Rosa, a Hey Peppers! reúne mais de 30 unidades no Sul do Brasil e cerca de 3 mil alunos.
Experiência coletiva entre mães empreendedoras
Em outras regiões do País, conciliar renda, autonomia e rotina familiar também é um desafio. Natália Neiva, franqueada da rede de minimercados market4u em Belo Horizonte (MG), começou a empreender para poder ter mais flexibilidade. Mãe de uma menina de 2 anos, ela conciliava uma rotina intensa como personal trainer, profissão que ainda mantém, com jornadas que chegavam a ir das 6h às 22h.
"A ideia sempre foi facilitar a rotina, ter algo que eu pudesse gerenciar dentro de um horário mais flexível", diz. "Foi um processo de muito aprendizado, mas hoje consigo crescer e, principalmente, estar mais presente com a minha filha", afirma.
Já em Curitiba (PR), Evelyn Carolini Mosca Dias ilustra a transição de carreira impulsionada pela maternidade. Depois de mais de 15 anos no setor de eventos, ela decidiu empreender durante a pandemia. Atualmente operando oito unidades do market4u, Evelyn destaca o impacto direto do negócio na vida familiar. "Hoje tenho muito mais disponibilidade para estar com meu filho e acompanhar de perto a criação e a educação dele. Isso não tem preço", relata.
Ao mesmo tempo, Evelyn reconhece os desafios da dupla jornada. "Nem sempre é possível equilibrar tudo, e já precisei abrir mão de momentos importantes em família por compromissos profissionais", lembra. Ela conta que há momentos em que o filho de 8 anos participa de atividades no emprego.
*Com informações do Correio Conteúdo
