No último dia 19, Porto Alegre celebrou o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino com uma iniciativa inédita: oito coletivos e empresas lideradas por mulheres se uniram para realizar o CONECTADAS. Com mais de 200 empreendedoras presentes, a programação de nove horas abordou discussões técnicas e estratégicas sobre os desafios reais de quem está à frente de negócios.
“É um evento pensado por mulheres, para mulheres, para incentivar o empreendedorismo feminino”, resume Aline Busch, cofundadora e vice-presidente do Instituto Ladies in Tech, idealizadora do evento. Além disso, a iniciativa contou com a organização da Palco Inteligência de Negócios, Mulheres de Performance, Elas por Elas, Entre Empreendedoras, Grupo Mulheres do Brasil, Ella Hub e Digitais Pretas.
Ainda que o espaço tenha promovido inúmeras trocas afetivas entre elas, as questões difíceis não ficaram de fora. Ao longo do dia, a palavra “crescimento” apareceu muitas vezes entre as falas, mas quase nunca sozinha. A discussão trouxe à tona um consenso: dar conta de um negócio exige sair da zona de conforto.
“Ninguém caminha sozinho. Se a gente quer sair da estagnação, os passos desconfortáveis fazem parte”, afirmou Lisiane Oliveira, da Piccadilly, durante o painel sobre produtividade e equipe.
Na mesma palestra, Sansiarai Vargas, da Menvie - RHTech, declarou que “o sucesso é resultado das pessoas”. Líderes devem trabalhar para engajar seus times, contribuindo para o senso de pertencimento e plena consciência dos processos e de sua relevância para o propósito da empresa.
Para ela, liderança hoje significa clareza de comunicação, confiança mútua, escuta ativa e presença real no dia a dia da equipe, com práticas como conversas one-to-one, mapeamento de processos e definição de POPs (Procedimentos Operacionais Padrão). A tecnologia, nesse cenário, deixa de ser ameaça e passa a ser aliada.
“Nunca se teve tanta tecnologia disponível para gestão de pessoas”, lembrou. “O ponto é usar essa tecnologia para que as lideranças tenham tempo de, de fato, fazer gestão de pessoas. A tecnologia existe para nos fazer mais humanos”.
Em um mercado marcado por alta rotatividade entre algumas gerações e setores, esse equilíbrio entre automação e cuidado virou ponto central das discussões. Ferramentas digitais surgem como apoio, mas não substituem o olhar atento para o pertencimento da equipe, a motivação e a construção de ambiente seguro para mulheres em diferentes fases da vida profissional.
A dimensão de gênero também atravessou os debates. Paloma Manica, da Combo Agência, reforçou que, apesar dos avanços, o ecossistema empreendedor ainda não é neutro: “O mercado não é aberto para nós, mulheres”.
Ela contou ainda que em sua empresa, costuma dar preferência para contratações de mulheres, defendendo a importância de abrir portas para outras não só como metáfora, mas prática diária, na contratação, na indicação de nomes para eventos e na escolha de fornecedores.
Marca, vendas e a nova jornada do cliente
Mais tarde, a programação do CONECTADAS levou ao palco um painel sobre posicionamento, branding e vendas. As especialistas em comunicação e marketing Mariana da Rosa, cofundadora da Palco, Su Biazoli, da Biamar, Desiree Farias, da Mulheres de Performance e Manuela Cardona, da Usaflex reforçaram a importância de entender as redes, suas linguagens e objetivos, buscando o entendimento integral do público com quem se está falando em vez de perseguir apenas o considerado “viral”.
Diferenciar o que é “buzz” do que faz parte da essência da marca foi um dos alertas recorrentes, assim como aceitar que o perfil de cliente ideal pode mudar com o tempo, e que o negócio precisa acompanhar esse movimento.
Na fala de Manuela Cardona, a mudança de comportamento mais visível está na forma como as pessoas decidem comprar: “A jornada do cliente não é linear. A tomada de decisão era muito simples antes”, observou.
Ela explicou que, hoje, a consumidora circula por diferentes canais, experimenta, pesquisa, compara, abandona carrinhos e retoma interesses dias ou semanas depois. Isso exige consistência de narrativa e de oferta, um conceito que as palestrantes resumiram com o termo brandformance — um híbrido entre branding e performance.
“Não adianta ter marca sem produto nem produto sem marca”, sintetizou Manu, reforçando que reputação e resultado precisam caminhar juntos.
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Entre uma fala e outra, o conforto também apareceu como um marcador de época, sobretudo em negócios ligados à moda e ao varejo. Aquilo que um dia foi visto apenas como benefício adicional, como um sapato confortável, um atendimento acolhedor, um ambiente físico acessível, se torna um fator decisivo de escolha. O que antes era “bonito ter” virou diferencial competitivo, como uma exigência para quem quer conquistar o cliente.
O CONECTADAS sugere um retrato do momento em que o empreendedorismo feminino vive no Rio Grande do Sul. Mulheres de diferentes idades e áreas, desde a tecnologia ao varejo de moda, dividiram palco e plateia, confirmando o que o próprio nome do evento sugere: crescimento não é obra de um único CNPJ, e sim de redes que se conectam, se apoiam e trocam entre si.
*Sob supervisão de Mauren Xavier
