O impacto da IA e da ecoansiedade nas práticas de consumo da Geração Beta

Mudança de perspectiva da nova geração deve transformar a relação com empresas, serviços e produtos

A geração que viverá a próxima virada do século terá a longevidade como eixo principal de seus interesses
A geração que viverá a próxima virada do século terá a longevidade como eixo principal de seus interesses Foto : Freepik

Assim como nos anos 2000, quando o “bug do milênio” causou um temor pela curiosidade e ansiedade sobre o futuro, a Geração Beta chega para transformar a ordem social com novas perspectivas sobre o real e o virtual. Os nativos digitais já estão na sociedade há pelo menos 20 anos, mas o novo grupo viverá algo nunca visto antes: a completa integração de realidades sem fronteiras definidas.

Composta pelos nascidos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2039, essa nova geração será a primeira a crescer em um mundo fundamentado pela hiperconectividade, sem precisar de um período de adaptação e integração às novas tecnologias. Imersos em um ecossistema digital que coordena suas interações sociais e profissionais, tudo aquilo que agora é considerado revolução tecnológica, para eles, será parte básica do cotidiano.

A geração que viverá a próxima virada do século terá a longevidade como eixo principal de seus interesses, projeta a especialista em comportamento de consumo Paula Bragagnolo, fundadora da PGB Inteligência.

Como consequência dos desafios socioambientais e inúmeros avanços tecnológicos, o comportamento dos “betas” será pautado por escolhas conscientes que considerem a sustentabilidade e o engajamento social ativo, valorizando conquistas a longo prazo.

Tendências como “wellness”, “fitness” e outras baseadas no bem-estar já aparecem como um reflexo de gerações que passaram por uma pandemia mundial e hoje compreendem o cuidado com a saúde como único caminho viável para o futuro.

Paralelamente, a expectativa de vida tem registrado um crescimento constante ao longo das décadas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 1940, a média de vida no Brasil aumentou em mais de 30,9 anos, passando de 45,5 para 76,4 anos em 2024, um dado que evidencia a longevidade na construção de novos padrões de consumo e estilo de vida.

👩‍💻 Realidade digital

O termo “Geração Beta”, criado pelo pesquisador Mark McCrindle, tem fomentado debates sobre as projeções futuras a respeito de diferentes aspectos sociais. A Internet das Coisas é um dos pontos-chave para essa nova realidade, visto que já se consolidou como uma alternativa popular para facilitar as rotinas.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, em 2023, 16% dos 72,5 milhões de lares conectados à internet no país utilizavam dispositivos inteligentes no dia a dia.

A renda, no entanto, é um fator determinante para o acesso. Nos lares equipados com esses aparelhos, o rendimento médio mensal foi de R$ 3.329, mais que o dobro das residências sem essa tecnologia (R$ 1.638).

No Sul, duas em cada 10 casas já contam com dispositivos smart, representando o maior percentual de casas inteligentes (19,8%). A diferença também se evidencia no contraste entre áreas urbanas e rurais, onde a adoção desses aparelhos é de 17,1% e 7,5%, respectivamente.

Desde acessórios, como relógios e óculos, até aparelhos domésticos, como geladeiras e lâmpadas “inteligentes”, a tecnologia já faz parte da rotina de diferentes gerações, que veem na automação uma forma de tornar o dia a dia mais prático.

O que hoje ainda desperta curiosidade será a norma para a Geração Beta. O avanço da Inteligência Artificial generativa também amplia esse panorama, consolidando a personalização como base para seu consumo, aprendizagem e relações sociais.

Movimentos de contra-tendência são comuns entre as gerações. Enquanto a Gen Z rompeu com certos padrões dos “millennials”, a Geração Alpha resgata valores desse grupo como forma de contraste. Da mesma forma, se os “alphas” cresceram completamente adaptados à digitalização, os “betas” tenderão a reagir a essa hiperconectividade priorizando conexões humanas genuínas longe das telas. A necessidade de pertencimento e vivências reais impulsionarão iniciativas que promovam o contato humano e a construção de comunidades.

A mudança de perspectiva também impactará a relação com as empresas, serviços e produtos. Como destaca Paula Bragagnolo, “as gerações a partir da Z não precisam ser encantadas com o digital, porque elas já esperam isso das marcas”. Para a nova geração, a tecnologia não será um diferencial, mas um requisito básico. O verdadeiro valor estará em como ela será utilizada para promover engajamento autêntico com questões sustentáveis e sociais, além de garantir transparência na comunicação.

♻️ Ecoansiedade e consumo consciente

A crise climática, que se faz cada vez mais presente, não se limita a debates políticos e econômicos, mas afeta diretamente a saúde mental da sociedade como um todo. A ecoansiedade, caracterizada pelo sentimento de angústia diante às mudanças ambientais, já é uma realidade entre os jovens.

Uma pesquisa de 2021, publicada na revista científica The Lancet Planet Health, ouviu mais de 10 mil jovens de 16 a 25 anos em dez países, incluindo o Brasil, sobre o impacto da emergência climática em seu dia a dia. O estudo revelou que 59% dos entrevistados estão muito ou extremamente preocupados com o clima, e 75% enxergam o futuro com medo. Sentimentos como ansiedade, tristeza, raiva, impotência e culpa foram relatados por mais da metade dos participantes, e 45% afirmaram que isso prejudica sua rotina.

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A Geração Beta crescerá com um olhar ainda mais crítico sobre o consumo e exigirá soluções concretas das marcas. Estratégias superficiais, como o greenwashing, serão rapidamente identificadas e rejeitadas por se tratar de um público que, na palma da mão, tem a possibilidade de acesso a um turbilhão de informações a todo tempo.

Como aponta Paula, “os ‘millennials’ e a Geração Z já se afastam de marcas que não incluem diversidade e que se posicionam contra. Acredito que a Alpha e a Beta terão o mesmo relacionamento com marcas sustentáveis, e isso vai mudar o nosso comportamento de consumo radicalmente.”

Para os “betas”, a sustentabilidade não será um diferencial, mas uma exigência. Atender às demandas imediatas do público não será suficiente, as marcas precisarão ir além e demonstrar um compromisso genuíno com mudanças estruturais. “É muito mais indicado estudar a cadeia a longo prazo e promover impacto real do que só entregar o que o público espera agora”, conclui.

*Sob supervisão de Camila Souza