Adriana Haas

Desistir pode ser sua melhor decisão

Adriana Haas questiona a perseverança em uma sociedade obcecada com a produção e o consequente “custo de oportunidade”

Não caia na "falácia dos custos irrecuperáveis", que dificulta a decisão desistir devido ao que já foi investido
Não caia na "falácia dos custos irrecuperáveis", que dificulta a decisão desistir devido ao que já foi investido Foto : Freepik

Você sabe (caso tenha lido a coluna da semana passada) que abandonar o que não nos serve mais é a primeira etapa de qualquer transição de vida. E sabe também (por experiência própria) o quanto é difícil fazer certas rupturas, mesmo quando sabemos que são imprescindíveis. Mas há uma nuance que torna ainda mais duros a maioria dos rompimentos – quando envolvem uma desistência.

A perseverança é uma virtude incrível e deve ser cultivada, mas acabou sendo supervalorizada em nossa sociedade voltada à produção. Como resultado, em nome dela acabamos aguentando mais do que seria saudável – porque desistir virou sinônimo de fracasso. No entanto, desistir pelos motivos certos pode ser nosso maior sucesso, a “retirada estratégica” para uma vida com mais satisfação.

Vou dar um exemplo. Eu ingressei cedo no mundo corporativo e, em alguns meses, fui promovida a um cargo de liderança. Era o sucesso de acordo com os padrões tradicionais. Então me apeguei a esse lugar e dei tudo por ele – mas não o amava. E não sobrava nenhuma energia para investir em um projeto paralelo que amasse (sequer para descobrir o que amava).

Com o tempo, percebi que não era aquele o sucesso que eu desejava para a segunda metade da vida e passei a criar as condições para deixá-lo. Depois de alguns anos e vários movimentos, dei o passo necessário. Desisti. Isso significou deixar para trás 17 anos de dedicação, salário garantido no fim do mês e uma boa parte da minha trajetória. Mas havia outra parte a ser construída.

A perseverança é um recurso limitado. Se você aplicar toda a sua no que não lhe motiva, não haverá o suficiente dela quando algo estimulante aparecer. O melhor seria, então, direcionar a força de vontade para o que faz sentido, em vez de fragmentá-la entre relacionamentos, ideias e projetos nos quais permanecemos por puro medo de desistir.

O problema é que a decisão de desistir vem carregada de culpas e vergonhas. Para piorar, acreditamos na “falácia dos custos irrecuperáveis”, que torna tanto mais difícil abrir mão de algo quanto mais tempo, energia e/ou recursos investimos nele. É um conceito econômico que aplicamos em qualquer área da vida.

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Mas tem outro conceito que vale a pena lembrar: o do “custo de oportunidade”. Ele nos diz que cada naco de esforço que aplicamos na direção errada deixa de ser investido em um uma alternativa melhor. Então, você acha que está arrasando por não desperdiçar o que investiu quando, na verdade, deixa de investir no que poderia lhe fazer mais feliz. Nessa equação, mais oneroso do que desistir do passado é sacrificar o futuro.

Para sermos bem sucedidas na arte da desistência, é preciso investigar nossos desejos, necessidades, potencialidades e alternativas. Não é largar tudo num rompante, mas construir essa desistência sempre que possível. Assim, a gente vai ganhando coragem para mudar o rumo e não gastar mais sola de sapato à toa. Desistir do que não serve mais para nunca desistir de si mesma.


Adriana Haas é jornalista e escritora. Especialista em Neurociência e em Psicologia Positiva, está concluindo a pós-graduação em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há nove anos e tem dois livros sobre o tema.