Aline Busch

Mulheres em startups: o peso da dupla jornada das empreendedoras

Aline Busch analisa o peso do trabalho não remunerado para as fundadoras de startups e cobra um novo olhar do mercado para a sobrecarga feminina

Estrutura que cobra dedicação total das empreendedoras de quem nunca teve só uma jornada
Estrutura que cobra dedicação total das empreendedoras de quem nunca teve só uma jornada Foto : Magnific / Divulgação / CP

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísca (IBGE) mostra que brasileiras dedicam quase o dobro de horas a trabalho não remunerado. No mundo das startups, esse padrão se repete de uma forma que o mercado ainda se recusa a enxergar. Toda fundadora de startup sabe o que é trabalhar de graça. Não como figura de linguagem, mas como realidade.

Meses, às vezes, anos de dedicação integral antes do primeiro salário, antes do primeiro aporte, antes de qualquer retorno. Eu passei por isso. E olhando para as mulheres da nossa rede, percebo que é quase uma regra. O que poucos falam é que, para as mulheres, esse período não remunerado não começa com a startup.

O IBGE calculou que as brasileiras dedicam, em média, 21h36min por semana a trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. Os homens, 11h48min. Quase o dobro. Esse dado é de 2022 e pouca coisa mudou desde então. O que muda é o contexto em que ele aparece e no empreendedorismo em tecnologia, ele aparece de um jeito que me incomoda faz tempo.

Quando decidi empreender, ninguém me disse que eu precisaria trabalhar sem salário por um bom tempo antes de qualquer conversa com investidor. Aprendi na prática. E aprendi também que o mercado não apenas aceita isso, ele também exige. Nesse momento você percebe que ser fundadora full time é pré-requisito.

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O problema é que full time, para uma mulher, raramente significa só a startup. Significa a startup mais tudo o que nenhuma planilha vai perguntar. Quem busca a criança na escola. Quem marca a consulta. Quem organiza a casa quando o dia já tinha 12 horas de trabalho. Não estou generalizando, estou descrevendo o que ouço, semana após semana, das mulheres da nossa rede.

E os números confirmam. Segundo a Abstartups, apenas 12% das startups investidas no Brasil têm uma mulher no time de fundadores. É o resultado acumulado de uma estrutura que cobra dedicação total de quem nunca teve só uma jornada. O que me interessa não é repetir esse dado como denúncia, mas perguntar o que fazemos com ele.

Porque enquanto o ecossistema não redesenha seus critérios, precisamos de redes que sustentem o que o mercado ainda não enxerga. Espaços onde a fundadora exausta não precise fingir que está bem. Onde o trabalho invisível seja visto, dito em voz alta, tratado como algo estrutural, não pessoal. Ninguém vai reembolsar as horas que já foram. Mas a gente pode parar de fingir que elas não existiram.

Aline Busch é empreendedora e co-fundadora do Instituto Ladies in Tech, primeira rede estruturada de apoio a mulheres empreendedoras em tecnologia do Rio Grande do Sul. Criadora da Softsec Lavanderia e da Colocker, startup de armários inteligentes, aborda temas sobre inovação, empreendedorismo feminino e mulheres na tecnologia.