Cara leitora,
Para o mundo que eu quero descer! Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando fui impactada por várias notícias sobre o uso de chupeta por adultos. O assunto viralizou nas redes, com diversas postagens de pessoas adotando esse objeto infantil como forma de aliviar ansiedade e estresse. O que, à primeira vista, pode parecer uma curiosidade engraçada, revela algo mais profundo, a tentação de regressar a um tempo sem responsabilidades.
Na perspectiva da Logoterapia, o uso de chupeta por adultos pode ser lido como sintoma de fuga existencial. O desenvolvedor da abordagem, Viktor Frankl, ensinou que o ser humano é movido pela busca de sentido. Liberdade e responsabilidade andam juntas, e é justamente essa resposta consciente à vida que nos sustenta mesmo diante do sofrimento.
Quando abrimos mão dessa liberdade interior e recorremos a objetos ou comportamentos que nos infantilizam, estamos tentando anestesiar o vazio. A chupeta pode até funcionar como um alívio imediato, mas não transforma a situação de fundo, apenas posterga a necessidade de enfrentar a vida como ela é.
Segundo a abordagem psicoterapêutica, há três caminhos fundamentais para realizar sentido: pelo trabalho ou pela criação, pelas experiências e vínculos que cultivamos e pela atitude diante do sofrimento inevitável. É nesse último ponto que a reflexão fica mais provocadora: não podemos escolher tudo o que nos acontece, mas podemos sempre escolher nossa resposta.
Quando um adulto recorre a uma chupeta, ele pode estar dizendo, ainda que de forma inconsciente, “não consigo lidar com o mundo, preciso voltar ao colo”. Mas há alternativas mais saudáveis: investir em atividades criativas, nutrir relações verdadeiras, exercitar a resiliência. Todas elas exigem presença, e não fuga.
Fiquei lembrando do filme De Repente 30. Jenna (Jennifer Garner) deseja ser adulta, mas descobre que a pressa tem preço: escolhas difíceis, perdas, responsabilidades que não cabem em uma fantasia. A chupeta, no nosso debate, é como o pó mágico do filme, um atalho que promete alívio fácil, mas que não resolve a essência do problema.
A tentação de regredir é, talvez, universal, mas a saída passa pela responsabilidade. Crescer dói, amadurecer exige coragem, mas é nesse enfrentamento que a vida ganha densidade e significado.
Também vale olhar para o contexto cultural em que vivemos. A era das redes sociais nos acostumou a buscar soluções rápidas para desconfortos profundos. Pílulas, filtros, manias virais, tudo parece prometer uma saída imediata. O uso insere nesse mesmo movimento, uma tentativa de resolver a ansiedade sem encarar suas raízes. Mas o preço dessa anestesia é alto, cada vez que renunciamos à responsabilidade, nos afastamos da possibilidade de viver uma vida autêntica.
Em termos práticos, o uso de chupeta por adultos nos convida a perguntar: o que estamos evitando? Ou, onde vamos parar? O conforto momentâneo não substitui a construção de um projeto de vida com sentido.
O uso de chupeta por adultos pode ser inofensivo como objeto, mas é simbólico como escolha e traz uma reflexão sobre encontrar o verdadeiro alívio, que não está em regredir com o uso de chupetas modernas, mas sim em assumir a vida com coragem, propósito e presença.
Elisa Fernandez é mãe, empresária e acumula experiências como executiva em entidades empresariais e nas áreas de comunicação, gestão, marketing e publicidade.
