Recentemente, o mercado de chupetas ganhou um novo público alvo: os adultos. Em vídeos que circulam na internet, o item aparece em diferentes contextos, de produções de ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response, ou “Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano”, em português) a comunidades que movimentam um nicho específico de acessórios infantis decorados e personalizados para gente grande.
Originalmente desenvolvida para acalmar e tranquilizar as crianças, a chupeta tem feito sucesso entre adultos que se queixam de ansiedade, estresse, desconexão e profundo desejo de reviver a infância.
Os comentários no perfil de uma loja online que personaliza esses objetos apontam uma relação íntima e profunda com quem é adepto à prática: “Meu coração sempre bateu mais forte ao ver uma chupeta. Era um objeto mágico, um símbolo de conforto e aconchego, um portal para a infância. [...] É hora de recomeçar, de me conectar com a menina que um dia sonhou em ter a sua própria chupeta e, finalmente, realizar esse desejo.”
De acordo com a mestre em psicologia clínica Michele Terres, que atua com abordagens comportamentais contextuais, usar uma chupeta na vida adulta não seria, por si só, um hábito positivo ou negativo, mas precisaria ser compreendido a partir da função que representa para a pessoa.
Segundo Michele, muitas vezes trata-se de um recurso usado para aliviar o sofrimento de maneira imediata. Ela lembra que esse mecanismo não é exclusivo desse hábito: fumar, comer em excesso, beber álcool ou até passar tempo demais nas redes sociais podem cumprir a mesma função de trazer conforto rápido diante de estresse ou ansiedade.
O ponto de alerta, afirma a psicóloga, está na repetição. “O bico seria mais um analgésico que foi encontrado nesse momento. O problema não é fazer isso um dia [para seguir a trend ou como brincadeira], mas sim quando se torna um comportamento que se repete”, afirma. Assim como acontece com outros hábitos, as chupetas podem acabar reforçando a dependência emocional e mascarando questões mais profundas.
Oportunidade de mercado
A origem do fenômeno é incerta, mas diversas fontes acreditam que as chupetas para adultos como estratégia de conforto afetivo ganhou força inicialmente em redes sociais da China.
Ainda assim, é importante notar que utilização de chupetas por pessoas crescidas já existia em outros contextos bem antes desse surto, seja em ambientes de ‘role play’, interpretando papeis, ou até em culturas alternativas como artifício estético.
No entanto, a prática chamou atenção nos últimos dias principalmente pela força digital e o mercado de alto custo que comercializa esses produtos. Na plataforma chinesa de compras online Aliexpress, alguns dos itens decorados com strass chegam ao valor de R$168, sem considerar as taxas de entrega internacional.
Mas a economia brasileira não fica para trás: na plataforma Shopee, lojas vendem modelos personalizados que podem custar até R$ 135, e recebem a categoria de “itens de conforto” no aplicativo.
Para a doutoranda em Psicologia pela UFRGS, Indianara Sehaparini, o uso desses objetos por adultos evidencia um movimento por trás do comportamento: o chamado age regression. Ela afirma que o “tema nunca esteve em voga como está agora”, mas que, mesmo assim, já reverberou em diferentes momentos ao longo da última década. Veículos como o UOL, por exemplo, publicaram conteúdos sobre o assunto em 2013, ainda que sem a mesma visibilidade que ganhou nas redes sociais nas últimas semanas.
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O que é “age regression”
O termo pode ser traduzido como “regressão de idade” e se refere ao processo em que o indivíduo adota comportamentos e símbolos da infância como forma de lidar com pressões e angústias do presente.
Para a psicóloga Indianara Sehaparini, trata-se de uma “regressão psíquica da própria pessoa em si: retornar ao estado mais infantilizado para poder lidar com as situações atuais”. Nesse contexto, objetos como a chupeta funcionam como recurso de alívio.
O que diferencia o momento atual é a exposição em massa nas redes: o que antes acontecia em nichos ou grupos restritos, hoje encontra na internet um palco global, aumentando não apenas a prática, mas também as interpretações em torno dela.
Sehaparini explica que a compreensão clínica do fenômeno pode variar conforme a abordagem psicológica sem desconsiderar de que se trata de uma estratégia para lidar com emoções e experiências dolorosas.
Na psicanálise, por exemplo, a regressão é entendida como um processo que ocorre em diferentes níveis. “Esse quesito do uso da chupeta em si é um dos mais profundos níveis de regressão. Às vezes, as pessoas usam só chupeta, mas tem pessoas que acabam utilizando fralda, roupas que remetem a roupa de bebê em si. Existem várias camadas”, explica.
Além dos objetos clássicos da infância, praticantes de age regression compõem uma comunidade online há pelo menos seis anos, compartilhando fotos com roupas infantis, momentos de brincadeira com pelúcias, brinquedos de montar, livros de colorir e uma comunicação propositalmente mais “ingênua”.
Já para os terapeutas comportamentais contextuais, como explica Michele Terres, esse é apenas mais um comportamento usado para escapar de emoções desconfortáveis. “Ele tem a função de alívio imediato. E aí, o que a gente precisaria se perguntar é: por que as pessoas hoje estão buscando tantos comportamentos para alívio imediato? O que está acontecendo de forma subjacente que faz com que as pessoas precisem desse alívio?”, questiona.
Indianara acrescenta que o “hype” em torno das chupetas expõe um recorte delicado, que coloca em contraste a adultização com a busca por infantilização. Ela lembra ainda que o age regression também pode aparecer também vinculado a práticas sexuais e fetichistas.
*Com supervisão de Mauren Xavier
