Como a rotina intensa e desgastante fez crescer a busca de mulheres por ajuda nos Alcoólicos Anônimos

Porto Alegre é a segunda capital brasileira com maior frequência de consumo abusivo de álcool entre mulheres

Porto Alegre conta com 25 grupos de Alcoólicos Anônimos distribuídos em diferentes regiões da cidade
Porto Alegre conta com 25 grupos de Alcoólicos Anônimos distribuídos em diferentes regiões da cidade Foto : Mauro Schaefer

Há seis anos, Andressa*, hoje com 38 anos, decidiu romper com o consumo abusivo de álcool e retomar a própria vida. Contou com ajuda profissional, apoio da família e de amigos. Todos os recursos foram importantes para se manter firme naquele momento, mas havia um tipo de amparo que só quem viveu na pele as consequências do alcoolismo poderia oferecer. Foi então que ela encontrou nas reuniões do Alcoólicos Anônimos (AA), em Porto Alegre, o espaço de escuta e identificação que precisava.

Em 2025, o AA completa 90 anos de existência. Fundado em 1935, nos Estados Unidos, o que começou como uma rede de apoio entre dois homens transformou-se em uma das maiores comunidades de ajuda mútua do mundo, com presença em mais de 180 países. No Brasil, o movimento ganhou contornos próprios e, nos últimos anos, passou a acolher um número cada vez maior de mulheres.

Reuniões com participação de mulheres cresce 44,7%

Segundo dados da organização, o número de reuniões compostas exclusivamente por mulheres cresceu 44,7% entre o período pré e pós-pandemia. Hoje, são cerca de 65 grupos, presenciais e virtuais, que reúnem mulheres de todo o país em busca de um objetivo: não beber, um dia de cada vez.

Andressa* recorda que quando iniciou sua jornada junto ao Alcoólicos Anônimos chegou a ouvir de outras companheiras mais antigas que, em alguns casos, chegavam a ser a única mulher na sala.

“Hoje, ainda que sejamos minoria em relação a quantidade de homens, a presença feminina é bem maior. Fico feliz de ver isso, me sinto bem recebida e parte da irmandade”, conta.

Luiz*, um dos membros mais antigos do AA em Porto Alegre e sóbrio há três décadas, testemunhou essa mudança ao longo dos últimos anos. Segundo ele, os encontros online tornaram mais acessível a participação delas.

“A chegada das mulheres após a pandemia é impressionante, e isso se deve a uma série de fatores: acredito que elas se sentem mais à vontade, têm a questão do anonimato, de não precisar sair de casa. Mas quando alguém chega pelo virtual, também apresentamos os grupos presenciais como uma alternativa. O importante é não ficar sozinha”, destaca.

Reuniões compostas exclusivamente por mulheres cresceram 44,7% desde a pandemia | Foto: Mauro Schaefer

Mais mulheres enfrentam o uso excessivo de álcool

O aumento da procura por espaços de acolhimento para mulheres também reflete o avanço silencioso do problema entre elas. Segundo o relatório Vigitel 2023, Porto Alegre é a segunda capital brasileira com maior frequência de consumo abusivo de álcool entre mulheres, em que 20,7% relataram esse padrão, ficando atrás apenas de Salvador, com 21,9%.

Para especialistas, compreender esse cenário exige uma abordagem que leve em conta as posições assumidas pelas mulheres na sociedade. A psiquiatra Lisia von Diemen, diretora do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do HCPA/UFRGS, destaca que a sobrecarga a qual elas estão expostas pode ser um fator de risco.

“O estresse está associado, de forma geral, ao consumo de álcool. E, em alguns casos, quando a mulher soma o estresse do trabalho, dos filhos e da gestão da casa, esse risco tende a aumentar”, explica.

Solidão e relações interpessoais fragilizadas, sobretudo em fases como o pós-parto, a menopausa ou o envelhecimento, também podem desencadear a dependência.

Existem ainda fatores fisiológicos que também tornam as mulheres mais vulneráveis ao álcool. Conforme a psiquiatra, o corpo feminino processa a substância de forma mais lenta, fazendo com que os efeitos negativos apareçam mais rápido, mesmo com quantidades menores.

Estigma dificulta a busca por ajuda

Após reconhecer que o álcool havia se tornado um problema em sua vida, Andressa* conta que precisou lidar com a resistência das pessoas ao seu redor para que também enxergassem a gravidade da situação.

“Existe uma ideia de que quem tem problema com álcool são os homens, principalmente os mais velhos. É algo que não é esperado de nós mulheres, e isso foi muito difícil na minha trajetória”, relata.

A psiquiatra alerta que o preconceito pode atrasar a busca por ajuda e complicar o quadro.

“O problema com álcool na mulher fica escondido por mais tempo. Em geral, quando ela busca atendimento é mais grave, porque ela escondeu o problema por vergonha ou estigma”.

O que é consumo abusivo?

O relatório da Vigitel de 2023 considera consumo abusivo de álcool quando ocorre a ingestão de quatro ou mais doses para mulheres, ou cinco ou mais doses para homens, em uma mesma ocasião nos 30 dias que antecederam a pesquisa.

Para exemplificar, cada “dose” equivale, por exemplo, a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilado, como cachaça ou uísque. Ou seja, uma mulher que bebeu quatro latas de cerveja em uma festa, ou um homem que tomou cinco doses de uísque em um bar, se enquadra nesse padrão de consumo abusivo.

Como funcionam as reuniões do AA e como participar em Porto Alegre

Porto Alegre conta com 25 grupos de Alcoólicos Anônimos distribuídos em diferentes regiões da cidade. Os horários e locais podem ser consultados no site oficial da organização. Também há um plantão de atendimento no Rio Grande do Sul pelo contato de WhatsApp: (51) 3226-0618.

O AA representa um espaço de acolhimento, escuta e apoio mútuo para pessoas que enfrentam problemas com o álcool. O principal objetivo é ajudar alcoólicos a permanecerem sóbrios e, por meio disso, apoiar outros a fazerem o mesmo.

O Programa dos 12 Passos é um conjunto de princípios espirituais que visam auxiliar na recuperação do alcoolismo | Foto: Mauro Schaefer

Abaixo, confira como funciona.

  • Em reuniões presenciais ou online, os membros compartilham suas histórias e experiências com o álcool e a recuperação;
  • O movimento atua com base em um método próprio, conhecido como os "12 Passos", que orienta a jornada pessoal de autoconhecimento, mudança de hábitos e manutenção da sobriedade;
  • Não exige pagamento, não tem vínculo com partidos políticos, religiões ou instituições;
  • O anonimato é um princípio central. Ele protege a privacidade dos participantes e reforça a igualdade dentro dos grupos.

*A reportagem mudou o nome dos entrevistados para preservar suas identidades.

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