A internet nasceu vendendo uma promessa irresistível: aqui, qualquer pessoa poderia ter voz. Não importava de onde você vinha, quanto dinheiro tinha, qual era seu sobrenome ou se alguma televisão estava disposta a lhe dar espaço. Bastava um celular, uma ideia e, quem sabe, um pouco de sorte. A internet seria democrática. O algoritmo seria a porta de entrada para uma nova sociedade da visibilidade.
Mas talvez tenhamos acreditado demais nessa história.
Nunca houve tanta gente produzindo conteúdo no Brasil. O mercado de influência já reúne cerca de 2,1 milhões de profissionais, segundo levantamento da Influency.me. No Instagram, uma análise da Primetag identificou mais de 1,1 milhão de microinfluenciadores brasileiros em 2025.
Então por que, quando pensamos em “influenciador”, ainda enxergamos quase sempre as mesmas pessoas?
A resposta talvez esteja na diferença entre ter voz e ter alcance. Produzir conteúdo ficou democrático. Ser descoberto, nem tanto.
Uma pesquisa da Favikon mostrou que os 200 maiores influenciadores brasileiros acumulavam, juntos, 1,3 bilhão de seguidores. É uma concentração gigantesca de atenção nas mãos de um grupo relativamente pequeno.
E quando olhamos para quem consegue transformar atenção em dinheiro, a história da diversidade fica ainda mais desconfortável.
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Uma das pesquisas mais importantes sobre o assunto no Brasil, a Black Influence, ouviu mais de 760 creators e encontrou uma fotografia bastante reveladora: 57% dos participantes eram brancos, 22% pardos, 17% pretos, 3% amarelos e apenas 1% indígenas. (globo-gente)
Mas o dado que mais me chama atenção não é necessariamente a composição racial. É a percepção de quem está dentro desse mercado.
Enquanto 60% dos participantes consideravam o marketing de influência inclusivo, apenas 36% dos creators pretos e 29% dos indígenas tinham essa percepção.
Ou seja: quanto mais distante você está do centro, menos inclusivo parece o centro.
E existe dinheiro nessa história.
A mesma pesquisa encontrou uma diferença brutal na remuneração: a média do valor máximo recebido por campanha foi de R$ 4.181,01 entre creators brancos contra R$ 1.626,83 entre creators pretos. Além disso, 38% dos influenciadores pretos disseram já ter recebido menos que outro creator com número semelhante de seguidores e engajamento.
Isso nos leva a uma pergunta incômoda: o algoritmo realmente escolhe quem é bom ou ele também reproduz aquilo que a sociedade já aprendeu a considerar desejável?
Porque talvez o problema da diversidade na influência não esteja mais na ausência de pessoas diferentes produzindo conteúdo. Elas estão lá. Criam, trabalham, estudam, fazem humor, falam de moda, beleza, maternidade, dinheiro, gastronomia, política, cultura.
O problema é quem recebe o megafone. E quem recebe o contrato. E quem é considerado “comercial”. E quem ganha o selo de “grande influenciador”.
É curioso porque passamos anos reclamando que a televisão mostrava sempre os mesmos rostos. Depois vieram as redes sociais e comemoramos: finalmente qualquer pessoa poderia virar celebridade.
Só esquecemos de uma coisa: as plataformas também criaram seus próprios sistemas de celebridade. Agora temos nossos próprios horários nobres, nossos próprios astros, nossas próprias famílias midiáticas e, principalmente, nossos próprios padrões de beleza, sucesso e comportamento.
A diferença é que tudo isso parece espontâneo.
Talvez essa seja a grande ilusão. O feed parece democrático porque cada um de nós pode publicar. Mas publicar não significa aparecer. E aparecer não significa ser valorizado. E ser valorizado não significa ser contratado.
A diversidade, portanto, pode até estar presente na internet. Mas ela não está necessariamente distribuída de maneira democrática na economia da atenção.
E há ainda uma camada que me incomoda particularmente: a diversidade parece ser muito bem-vinda quando pode ser transformada em campanha.
Há espaço para o creator preto, especialmente quando a pauta é racismo.
Para a mulher plus size, especialmente quando a marca quer falar de inclusão. Para a mulher madura, quando precisamos vender a ideia de “beleza em todas as idades”.
Para a pessoa LGBTQIA+, quando chega o mês do orgulho. Para a pessoa com deficiência, quando precisamos fazer uma campanha institucional bonita.
Mas e quando essas pessoas querem falar de luxo? De dinheiro? De viagens? De moda? De beleza? De negócios? De desejo?
Talvez a verdadeira diversidade não seja colocar pessoas diferentes dentro do mesmo cenário. Se continuamos oferecendo a elas apenas determinados papéis, continuamos reproduzindo o mesmo sistema, só que com uma fotografia mais colorida.
Diversidade de verdade é permitir que pessoas diferentes ocupem todos os lugares da conversa, e não apenas aqueles que o mercado considera adequados à sua identidade.
A internet não perdeu exatamente a diversidade. Talvez tenha perdido parte da sua promessa de diversidade. E essa diferença é importante.
Porque o futuro da influência não deveria ser descobrir como fazer todo mundo parecer igual para vender mais.
Afinal, se a internet nasceu para multiplicar vozes, talvez esteja na hora de perguntar por que ainda ouvimos tanto as mesmas.
Você parou pra pensar nisso?
Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.
