Marina Käfer

O luxo, o lixo e o vazio no meio: quem pode se vestir bem?

A colunista Marina Käfer reflete sobre como o acesso à moda tem se tornado mais desigual, elitizando o consumo de itens de qualidade

Entre o mercado de luxo e o fast fashion não há muitas opções disponíveis
Entre o mercado de luxo e o fast fashion não há muitas opções disponíveis Foto : Magnific / Divulgação / CP

Existe um desconforto silencioso acontecendo na moda que não está nas passarelas, nem nas tendências, nem nas cores da estação. Ele está no guarda-roupa de quem simplesmente não sabe mais onde comprar. Entre o luxo inacessível e o ultra fast fashion descartável, abriu-se um buraco com endereço: a classe média e seu poder de compra.

Durante muito tempo, existiu um lugar possível na moda. Um espaço onde era viável consumir com algum critério, qualidade e desejo, mas esse espaço está desaparecendo. Ou melhor, já desapareceu.

De um lado, temos o luxo, cada vez mais distante, mais simbólico do que real, com qualidade duvidosa. Do outro, o fast fashion extremo, liderado por plataformas como a Shein, que entregam tendência em velocidade industrial e preços quase irreais. No meio disso, um vazio.

Marcas que antes ocupavam esse espaço intermediário estão reposicionando seus preços, elevando sua imagem, tentando se afastar do rótulo de “fast”. A promessa é qualidade, mas a consequência é exclusão. O que antes era acessível aspiracional agora beira o inacessível funcional e o consumidor fica encurralado.

Não se trata mais de escolha estética, mas de acesso. Quem quer se vestir com informação de moda, acompanhar tendências, construir uma identidade visual coerente, muitas vezes se vê sem alternativa prática: ou paga caro demais, ou recorre ao barato demais.

E é aqui que entra o julgamento, quase sempre injusto, quando a moda se diz inclusiva.

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Existe uma crítica fácil ao consumo em plataformas ultra baratas, mas raramente se faz a pergunta mais honesta, sobre qual é a alternativa real. O consumidor não está apenas comprando barato. Ele está sendo empurrado para isso.

A moda, que tanto fala sobre diversidade e inclusão, falha em um ponto essencial: o preço. Democratizamos a estética, todos veem tudo, todos sabem o que está em alta, as redes sociais popularizaram o acesso à informação, mas elitizamos o acesso. O desejo é coletivo, mas o consumo é profundamente desigual.

Isso tem impacto porque roupa não é superficial: é linguagem, pertencimento, identidade. Quando você não consegue acessar essa linguagem da forma que gostaria, é, além de uma questão de consumo, uma questão que trata de expressão.

Talvez o problema não seja o fato de tantas pessoas comprarem em plataformas como a Shein, mas o motivo pelo qual elas não têm outra escolha.

A moda não perdeu apenas o seu “meio”. Perdeu também a coerência do seu discurso de inclusão e expressão. E, enquanto o mercado decide entre o luxo e o volume, quem está no meio segue fazendo o que pode: reproduzindo, adaptando, improvisando.

Com isso, vem a contrapartida do aumento de consumos em brechós. Eles se tornam a alternativa mais realista para tapar esse buraco, para quem está tentando, acima de tudo, continuar se vestindo mesmo quando o sistema parece ter esquecido delas.

Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.