Marina Käfer

Criar fora do padrão também é uma forma de liderar na moda

Marina Käfer analisa como a trajetória de Eliane Dalla Vecchia evidencia de que forma diferentes modos de pensar atravessam criação, gestão e inovação

Eliane Dalla Vecchia recebeu o diagnóstico de autismo em 2025 e é fundadora da marca brasileira de cosméticos Dalla
Eliane Dalla Vecchia recebeu o diagnóstico de autismo em 2025 e é fundadora da marca brasileira de cosméticos Dalla

A moda sempre se alimentou do que foge ao padrão. Estéticas desviantes, comportamentos não normativos e formas alternativas de criação costumam ser rapidamente absorvidas pelo sistema como tendência. O que raramente entra em pauta é quem sustenta esses desvios no cotidiano da indústria, especialmente quando o pensamento fora do script não se limita ao produto, mas atravessa a forma de liderar, decidir e se comunicar.

Em 2025, ao receber o diagnóstico tardio de autismo, Eliane Dalla Vecchia passou a reler a própria trajetória sob essa lente. Características que sempre estiveram presentes atenção extrema aos detalhes, pensamento lógico, inquietação constante e busca por soluções fora do óbvio passaram a fazer sentido não como inadequações isoladas, mas como estrutura de funcionamento. E, na moda e na beleza, estrutura importa.

“Para mim, pedir que uma caneta vá para a logística é só isso. Um pedido claro.”

A frase ajuda a entender onde surgem muitos dos ruídos. A comunicação direta, funcional e orientada à eficiência costuma ser lida, em ambientes corporativos, como frieza ou falta de empatia. Não pelo conteúdo da mensagem, mas pela ausência dos códigos sociais que embalam relações profissionais, especialmente em uma indústria altamente simbólica como a moda.

Esse descompasso não é individual. Mulheres autistas diagnosticadas tardiamente relatam trajetórias marcadas por esforço constante de adaptação, mascaramento social e esgotamento emocional. Small talks, subtextos e disputas implícitas de poder tornam o ambiente profissional mais complexo do que a própria tarefa.

“Eu nunca entendi por que precisava explicar tanto algo que, para mim, era só objetivo.”

Ao mesmo tempo, é esse funcionamento cognitivo que sustenta processos criativos consistentes. A capacidade de reconhecer padrões rapidamente, conectar informações e antecipar soluções é decisiva em uma indústria baseada em ciclos curtos, leitura de tendência e desejo volátil. Quando o interesse é ativado, o hiperfoco entra em ação e acelera aprendizados. O que costuma ser visto como dificuldade relacional se converte, nos bastidores, em método de criação.

Antes de empreender, Eliane atuava na área de logística. Em 2012, enfrentou um período de depressão profunda que desestruturou sua vida profissional. A retomada veio de forma prática. Ao identificar oportunidades na importação de produtos, começou a vender maquiagens com pagamento antecipado nas redes sociais. O modelo cresceu, virou negócio e, poucos anos depois, se transformou em marca própria.

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A Dalla nasce em 2016 já operando fora do padrão dominante da época. A decisão de ser vegana não partiu de militância, mas de leitura de impacto e viabilidade. “Se não é necessário testar em animais, não faz sentido fazer.” A lógica é direta, quase industrial. Moda e beleza aparecem menos como discurso aspiracional e mais como engenharia de decisão.

Ao longo dos anos, a marca consolidou projetos que dialogam com desejo e inovação sem depender apenas de narrativa. O foco recai sobre desenvolvimento de produto, tempo de resposta ao mercado e leitura real de consumo. Elementos centrais em um setor pressionado por novidade constante.

“Quando algo me interessa, eu mergulho.”

Esse hiperfoco, frequentemente tratado como excesso, torna-se vantagem competitiva em processos criativos e produtivos. Reconhecer padrões, conectar pontos e antecipar soluções não é exceção, é método.

Hoje, além de liderar a empresa, Eliane atua como mentora de marcas de cosméticos, acompanhando decisões do conceito à entrega final.

“Mentorar é transformar intenção em produto real.”

Em 2026, esse olhar se expande com o podcast Fala, Dona Dalla, que propõe conversas diretas sobre os bastidores da indústria da beleza, sem romantização do empreendedorismo.

A trajetória de Eliane não aponta para um caso isolado, mas para uma reflexão estrutural. A moda sempre avançou ao incorporar o diferente. O desafio segue sendo sustentar essas diferenças também nas formas de liderar, criar e existir dentro da indústria.

Marina Käfer é formada em Design de Moda e pós-graduada em Comportamento do Consumidor e Moda, Mídia e Mercado. Já foi professora consultora de varejo em instituições como Senac e Sebrae. Tem especializações em styling, jornalismo de moda e visagismo, com experiência no mercado plus size.