Como a cultura de fãs está moldando o consumo global de música

Da Beatlemania aos “swifties”, comunidades baseadas em pertencimento e identificação têm deixado um legado na indústria musical

Fanbases tem o poder de moldar novas tendências de consumo
Fanbases tem o poder de moldar novas tendências de consumo Foto : Arquivo pessoal

A Geração Z e suas “fanbases” (bases de fãs, na tradução para o português) estão transformando a dinâmica do que é considerado popular. Em 2024, seguindo o movimento que alia relevância numérica e paixão coletiva, 74% dos jovens dessa geração afirmam adorar o mainstream (cultura predominante, na tradução), um salto expressivo em relação a 2021, segundo a pesquisa Culture Next, realizada pelo Spotify.

Essa aceitação não apenas integra gêneros como trap, reggaeton e country ao topo das paradas, variando do clássico pop, mas também destaca a força das comunidades de fãs em moldar tendências culturais e elevar artistas a partir do senso de identificação.

Há décadas, os fãs movem a indústria musical propagando não apenas as músicas que adoram, mas também elementos que representam seus respectivos artistas, desempenhando um papel que vai além do consumo passivo de produtos culturais. Marcas e produtores reconhecem o potencial dessas comunidades em impulsionar tendências, engajar públicos e gerar receita direta.

Desde a Beatlemania, a cultura dos fãs tem deixado um legado na história da música. Nos últimos anos, no entanto, uma transformação significativa é perceptível: não se trata mais apenas de novos grupos ou artistas surgindo, mas de como o TikTok e outras plataformas digitais têm revivido ídolos consagrados para as gerações mais novas.

Esses astros voltam ao centro das atenções por meio de vídeos virais, playlists colaborativas e discursos movidos pela nostalgia, que conectam públicos de diferentes idades em uma rede global de emoções compartilhadas.

Mesmo com a banda RBD separada há mais de 15 anos, a pedagoga Luana da Silva, 24, conta que sua história como fã do RBD já é mais longa do que sua vivência antes de conhecer os integrantes do grupo inspirado na telenovela mexicana Rebelde.

Desde os 4 anos de idade, compartilha com uma amiga as emoções que só uma fã pode viver. “A gente fazia shows, pintava os cabelos, fazia vários looks e a nossa brincadeira favorita era ‘ser rebelde’”, relata.

Em 2023, depois de uma grande comoção na internet, o grupo composto por Anahí, Dulce Maria, Maite Perroni, Christopher Uckermann e Christian Chávez anunciou uma turnê de shows internacionais em celebração à própria história, e então, Luana pôde realizar seu grande sonho.

Depois de um intercâmbio ao México, motivado pelo amor à banda, a fã se surpreendeu ao descobrir que naquele país as pessoas não compartilhavam do mesmo sentimento por conta dos temas polêmicos abordados pela novela.

Como refúgio, ela e muitos adolescentes aderiram às redes sociais, como o Twitter e grupos do Facebook, na intenção de encontrar pessoas com paixões semelhantes. Agora, Luana sente que moldou sua personalidade pelas músicas do grupo e que as composições a fazem sentir menos sozinha.

O amor de fã gera o sentimento de pertencimento e acolhimento entre as comunidades, também conhecidas como fanbases. Esses grupos contam com milhares de membros que impulsionam os streaming de músicas nas plataformas. Mais do que admirar um artista, ser fã é fazer parte de um movimento que se interessa pelo conteúdo a ser vendido e também pelas personalidades envolvidas.

O que antigamente foi considerado histeria, descontrole e exagero, a partir de uma ótica machista que banaliza sentimentos genuínos apenas por serem performados por mulheres, ganha uma repaginação na contemporaneidade. A feminilidade foi ressignificada dentro dessas comunidades, reforçando a ideia de que admirar artistas, chorar por eles e celebrar suas conquistas é uma forma legítima de expressão emocional e empoderamento.

Espaço seguro para compartilhar o luto

Isadora Bordin, 23 anos, fã da banda One Direction desde 2014, têm vivenciado um contexto diferente na sua relação com os ídolos. Em outubro de 2024, um dos integrantes da sua boyband favorita, Liam Payne, de 31 anos, faleceu após cair da varanda de um hotel em Buenos Aires. O caso segue em investigação até o momento.

A estudante de medicina veterinária descobriu a tragédia através de um grupo de mensagens com amigas que conquistou pela comunidade e cultiva há anos. “Vi uma notificação no meu telefone de uma menina que fazia parte do nosso grupo e acabou se afastando. Do nada, recebi uma notificação dela num grupo com todas nós de novo. Foi algo muito estranho. Ali, o coração já gelou, passou mil coisas na cabeça”, relatou sobre o fatídico dia.

O luto coletivo mobilizou fãs do mundo todo em atos de solidariedade, criando espaços seguros para esse momento de dor. Isadora compareceu em uma vigília em homenagem ao músico em Porto Alegre.

“Fiquei até o último minuto me questionando se iria ou não. Vi o pessoal tocando música, cantando, fazendo homenagens. Algo me dizia ser a única oportunidade de ter isso, então eu fui. Não fiquei muito tempo também, mas eu acho que foi importante, sabe? Eu acho que é um conforto. Foi como se perdesse alguém da família e, de fato, é. Foi alguém que escutamos por longos períodos da nossa vida.”

Após os encontros em diferentes cidades do mundo, as directioners, como são denominadas as fãs da banda, foram criticadas por demonstrarem como estavam lidando com o luto e o quanto a perda afetou suas vidas. Profissionais da psicologia defendem que o sentimento de luto não deve ser ridicularizado e sim naturalizado, promovendo espaços de escuta para aliviar o peso das emoções.

Assim como o RBD, a One Direction também não se apresenta mais como um grupo. Desde 2016, os integrantes têm promovido seus trabalhos solo. Os fãs ficaram devastados ao perceberem que o reencontro que tanto esperaram se deu no velório de um deles. Poucos dias depois de prestar condolências ao parceiro de banda, Zayn Malik deu início a sua primeira turnê sozinho.

Isadora descreve a novidade como “uma alegria conflitante”. “Ele também está compartilhando a mesma dor que a gente, senão muito mais. Eu acho que é importante justamente isso, aceitar, fazer alguma coisa que conforte para que a vida continue.”

Canções que antes tinham um tom romântico e bem-humorado, hoje foram ressignificadas e cantadas com uma outra energia. “As músicas estão batendo de um jeito diferente, sabe? Eu já não estava escutando por um período, mas quando começo a escutar e prestar atenção na letra, tudo parece que tem um significado diferente agora.”

No dia seguinte à morte de Payne, a banda One Direction subiu 166 posições no ranking de artistas mais ouvidos no Brasil. O grupo chegou a 19ª posição dos charts da plataforma Spotify.

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Da frustração à realização de um sonho

O fenômeno do pertencimento nos fandoms pode levar seus participantes a lugares inimagináveis, como é o caso de Luke Xavier, 24 anos, influenciador gaúcho que encontrou em sua carreira profissional um meio de propagar suas paixões. Como um grande fã de Taylor Swift, Luke sonhou em assistir a um show da cantora pop e planejava realizar o desejo em novembro do ano passado, no Rio de Janeiro.

Para a decepção de Luke, o show foi cancelado, fazendo com que milhares de fãs voltassem frustrados para casa. Porém, o influenciador foi surpreendido por um convite realizado por uma marca de beleza, que o levou para uma experiência exclusiva no camarote do show que seria realizado na data seguinte.

“Ficou aquela coisa muito emocionante do tipo ‘ok, todos nós voltamos para casa, achamos que não íamos realizar nosso sonho, e agora estamos aqui vendo as músicas, vendo todos os álbuns sendo cantados’. Então eu acho que foi uma emoção diferente”, disse Luke.

O influenciador também participa como DJ em eventos conhecidos como “Taylor’s Night” e “Festa da Taylor”, que reúnem fãs da artista em casas de show em diversas capitais do Brasil para curtir uma noite de balada com uma playlist muito bem selecionada.

“É muito legal, porque eu vejo que as pessoas usam camiseta, trocam pulseiras, vão fantasiados de verdade. Então você vive uma experiência confortável, porque você sabe que as pessoas vão entender aquilo que você está vestindo, vão se identificar, vão elogiar sua roupa. É fácil fazer amizade.”

Mais do que músicas, essas festas exemplificam como as fanbases se tornam espaços seguros, onde ser fã é, acima de tudo, encontrar a “sua galera”. Além disso, a capacidade dessas comunidades de transformar sentimentos tão únicos e aparentemente restritos em fenômenos mainstream reforça sua força coletiva.

Artistas como Taylor Swift, muitas vezes percebida como “cantora de nicho”, mostram essa transição. Apesar de sua conexão profundamente pessoal com os fãs, ela alcançou feitos históricos que a consolidam como um dos maiores nomes da indústria musical.

Em 2023, Swift foi a artista mais ouvida do Spotify. Em 2024, seu 11º álbum de estúdio, “The Tortured Poets Department”, quebrou novos recordes globais: foi o álbum mais ouvido em uma única semana e o primeiro da história da plataforma a ultrapassar 1 bilhão de streams em apenas cinco dias, segundo a própria plataforma. Essa conquista ilustra como a devoção das fanbases transcende o nicho, moldando tendências de consumo e redefinindo o mainstream.

A expectativa agora se volta para a retrospectiva do Spotify de 2024, que em breve trará dados e análises tanto gerais quanto personalizados, reafirmando a influência da Geração Z e das fanbases na dinâmica de consumo.

*Sob supervisão de Camila Souza