Pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, liderança, influência social e autoconhecimento estão entre as competências mais valorizadas pelas empresas para os próximos anos, de acordo com o relatório Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial. Embora essas habilidades possam ser desenvolvidas com experiência, formação acadêmica e desenvolvimento técnico, parte delas começa a ser moldada muito antes da entrada no mercado de trabalho.
Crenças desenvolvidas na infância continuam influenciando, muitas vezes de forma inconsciente, a maneira como profissionais ocupam posições de liderança, enfrentam desafios e conduzem suas carreiras. A psicóloga, empresária, especialista em desenvolvimento de lideranças e fundadora do Tittanium Club, Fernanda Tochetto, aponta que muitos comportamentos observados nas organizações têm origem em padrões emocionais construídos ainda na infância.
“As pessoas acreditam que chegam ao ambiente de trabalho apenas com seus conhecimentos e experiências profissionais, mas também levam a forma como aprenderam a lidar com aprovação, erro, conflito, reconhecimento e responsabilidade. Essas experiências continuam influenciando decisões importantes ao longo da carreira”, afirma a psicóloga e empresária.
A capacidade de liderar pessoas, tomar decisões sob pressão e construir relacionamentos profissionais saudáveis são algumas das competências que começam a ser desenvolvidas na infância. Importantes na vida profissional, elas fazem parte de programas de desenvolvimento emocional de gestores, promovido por organizações que reconhecem que uma liderança eficaz vai além do desempenho técnico.
Necessidade de agradar e esforço sem limites
Segundo Fernanda, um dos padrões mais frequentes aparece em profissionais que cresceram acreditando que precisavam agradar todas as pessoas. Na vida adulta, essa necessidade costuma dificultar conversas delicadas, feedbacks, negociações e decisões que inevitavelmente desagradam alguém.
“Quando a necessidade de aprovação continua conduzindo o comportamento, o profissional passa a evitar conflitos importantes”, aponta Fernanda. “Em vez de liderar pensando no que precisa ser feito, muitas vezes decide pensando em como será aceito pelos outros”, a profissional.
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Outro comportamento recorrente está na crença de que o sucesso só acontece por meio do esforço excessivo. Para a especialista, boa parte dos líderes desenvolvem dificuldade para delegar tarefas, sentem culpa ao descansar e acreditam que precisam provar constantemente seu valor por meio do trabalho.
“Muitas pessoas aprenderam desde cedo que tudo precisava ser difícil”, pontua. “Quando crescem, continuam reproduzindo esse padrão, mesmo quando existem formas mais inteligentes e estratégicas de alcançar resultados.”
Medo de errar
A psicóloga também observa que crenças relacionadas ao medo de errar podem impedir que líderes tragam inovação para dentro das empresas. Lideranças que associam erro ao fracasso tendem a centralizar decisões, controlar excessivamente as equipes e evitar mudanças que poderiam impulsionar o crescimento do negócio.
O medo de errar normalmente não nasce na organização. Ele costuma ser construído muito antes e acompanha o profissional ao longo da vida. “A diferença é que, quando ele ocupa uma posição de liderança, esse comportamento passa a impactar toda a equipe”, aponta a fundadora do Tittanium Club.
Para Fernanda, reconhecer esses padrões não significa atribuir a carreira ao passado, mas compreender que autoconhecimento também é uma competência de gestão. “Liderança não é apenas uma habilidade técnica. É um comportamento que pode ser desenvolvido quando o profissional entende quais padrões estão dirigindo suas escolhas e aprende a construir novas formas de agir.”
A seguir, veja cinco sinais de que a infância ainda pode estar influenciando sua vida profissional:
1. Você sente dificuldade para dizer "não"
O receio de decepcionar colegas, clientes ou superiores pode indicar uma necessidade constante de aprovação construída ao longo da vida.
2. Você trabalha além do necessário para provar seu valor
Quando o reconhecimento depende apenas do esforço excessivo, o profissional tende a assumir mais responsabilidades do que consegue sustentar e encontra dificuldade para estabelecer limites.
3. Você evita conversas difíceis
Adiar feedbacks, evitar conflitos ou deixar problemas se acumularem costuma estar relacionado ao medo de desagradar ou ser rejeitado.
4. Você acredita que precisa fazer tudo sozinho
A dificuldade para delegar tarefas muitas vezes nasce da crença de que apenas o próprio trabalho será suficientemente bom ou de que pedir ajuda demonstra fraqueza.
5. Você sente que nunca está preparado o suficiente
Mesmo com experiência e bons resultados, muitos profissionais continuam acreditando que precisam estudar mais, trabalhar mais ou esperar o momento ideal antes de assumir novos desafios.
O que fazer?
“A boa notícia é que crenças não são definitivas”, defende Fernanda. “Elas podem ser identificadas, ressignificadas e substituídas por padrões mais saudáveis. Quanto maior o nível de responsabilidade de um líder, mais importante se torna compreender quais experiências estão influenciando suas decisões no presente”, declara a especialista.
