Como os pais enxergam a criação de meninas da Geração Alfa

Relações parentais da modernidade são marcadas por consciência de gênero e paternidade ativa

Gilson Wingist sempre quis ser pai de menina e hoje vive esse sonho com a Cecília, de 7 anos
Gilson Wingist sempre quis ser pai de menina e hoje vive esse sonho com a Cecília, de 7 anos Foto : Arquivo pessoal

Ser pai de menina é, para muitos homens, um sonho. Para o porto-alegrense Gilson Wingist, pai da Cecília, de 7 anos, essa ideia sempre esteve tão clara que ele e a esposa, Ana Paula, sequer escolheram um nome caso o bebê fosse menino. “A gente sempre imaginou uma menina. Brincávamos que não teria nem nome se fosse menino”, lembra. Mais do que um desejo, a chegada da filha se tornou também um convite a repensar comportamentos e a enxergar o mundo sob outra perspectiva.

No entanto, esse sonho ainda convive com um cenário desigual. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio realizada em 2022, as mulheres dedicam em média cerca de 10,4 horas a mais por semana aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas do que os homens — 21,4 horas semanais contra 11 horas para eles. Essa diferença ajuda a entender o contexto onde no Brasil ainda é raro ver pais assumindo de forma igualitária a rotina de cuidados com os filhos.

Perto da praia, em Saquarema, no Rio de Janeiro, essa participação é parte do dia a dia de Sérgio Carolino. Casado com Andressa, influenciadora digital, ele assumiu grande parte das demandas da casa e das crianças para que a esposa pudesse se dedicar à carreira. Hoje, a rotina inclui levar e buscar na escola, acompanhar atividades e estar presente de verdade. O caminho de volta para casa passa em frente ao mar e é destino certo depois da aula no verão.

Ser um pai presente, para Sérgio, não é só estar em casa. “É estar ciente do que a criança precisa, do que ele come, das vacinas, do nome da professora, qual é a série dele, saber com o que o seu filho brinca. É ser escuta. Às vezes eles falam, falam, falam, falam e estamos com tanta coisa na cabeça que não conseguimos dar ouvidos a eles”, conta. Com a filha mais velha, Maria Antônia, de sete anos, ele mantém um vínculo especial, que foi fortalecido com a gravidez do segundo filho, quando se encarregou de quase todos os cuidados com a pequena para que Andressa pudesse ter uma gestação tranquila.

Essa proximidade vem com um senso de responsabilidade claro: “Eu sou a primeira referência dentro de casa de um homem adulto. Eu preciso ser exemplo de como trato minha esposa, meus filhos, a moça do caixa do mercado, o frentista que enche o tanque do meu carro. Preciso ser o melhor exemplo para que a Maria não aceite menos que isso e para que o Caetano veja que ser homem é pedir desculpas, é chorar, é pedir por favor, é ser educado e sensível”.

| Foto: Arquivo pessoal

Para o psicólogo Filipe Colombini, que também é pai de Isabela, de seis anos, essa transformação é parte de um conceito que vem ganhando força na última década: a paternidade ativa. Ele define a ideia como “o processo de reflexão e autoconhecimento que favorece a mudança”, mas alerta que também não só adianta só ficar refletindo ou ser um grande teórico. Precisa colocar isso em prática, vivenciar e se arriscar.

Diretor de uma equipe de psicólogos que trabalha com acompanhamento terapêutico e orientação parental, Filipe explica que movimentos feministas e discussões sobre masculinidade têm provocado pequenas mudanças na forma como os homens enxergam seu papel na criação, mas também no mundo.

Em um país que ocupa a 70ª posição no ranking global de igualdade de gênero, segundo o Índice Global de Disparidade de Gênero de 2024, criar meninas é também enfrentar barreiras culturais que se repetem de geração em geração. Filipe observa que, ao ter uma filha, muitos homens se deparam com aspectos emocionais e afetivos que foram negados na própria infância.

“Quando você é pai de menina, entra em contato com um mundo associado ao feminino, dos sentimentos, palavras e linguagens. Isso tem a ver com a história particular de cada pai, mas me afetou positivamente, porque você consegue ter uma abertura maior a esse campo que parece ser muito colocado para as mulheres”, explica.

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Ainda no caminho

Gilson Wingist foi criado por mulheres, como a mãe e a avó, e entende que, mesmo com os esforços dentro de casa, nem toda criação é igual. “Ainda tem muita gente criando os meninos naquele velho protocolo de futebol e machismo, e ‘eu tenho que ser forte, eu que mando’. Está mudando, mas ainda tem um longo caminho”, afirma.

Ele e a esposa não medem esforços para que Cecília cresça livre dessas amarras, com segurança e autonomia. Na prática, isso significa incentivá-la a ocupar espaços, mas também ensiná-la a se proteger. “O mundo é violento com as mulheres e com as meninas. Então a gente tenta trabalhar com ela maneiras e ferramentas para ela conseguir se proteger sozinha”, diz.

A reflexão se tornou um compromisso de vida. “Ficamos muito felizes quando vemos que ela [Cecília] já é uma pessoa melhor do que nós fomos, talvez liberta de coisas que eu e minha esposa tivemos que nos libertar ao longo da vida”, diz Gilson. É por isso que, para ele, ser pai de menina é, ao mesmo tempo, sonho mas responsabilidade.

“A gente vive numa sociedade que ainda é muito machista, e ser pai de menina é também combater o machismo tanto na família quanto na sociedade, na escola e dentro de ti também. Eu quero melhorar alguma coisa no mundo para a Cecília. Talvez digam: ‘Ah, mas cara, isso aí é super ego, síndrome de herói’. Mas se eu puder melhorar alguma coisinha para ela, eu vou. E não só para ela, para todas”, conclui Gilson.

*Sob supervisão de Brenda Fernández