Namoro por km: como vivem os casais que se conheceram em grupos de corridas de rua

Neste Dia dos Namorados, o Correio do Povo conta as rotinas disciplinadas e apoio incondicional das duplas no esporte

A corrida de rua é sem dúvidas um dos esportes mais em alta atualmente
A corrida de rua é sem dúvidas um dos esportes mais em alta atualmente Foto : Ricardo Giusti

A corrida de rua é um dos esportes mais praticados atualmente. O efeito desta popularidade está no surgimento de inúmeros grupos de corridas, com os mais variados nichos. Tem grupo só de corredoras mulheres, o de pessoas na faixa de meia-idade e o de pessoas pretas. As competições também são variadas: das mais profissionais, disputadas por ultramaratonistas, até as mais descontraídas, que a linha de chegada dá o direito a um “vale-chope”.

O que todas essas pessoas têm em comum é o amor pela corrida em espaços abertos. Em alguns casos, no entanto, essa conexão vai adiante. Para Taís Damasio e Jeferson Dias, a corrida é muito mais que a prática esportiva. “É um propósito de vida”, afirma ela.

O primeiro encontro deles ocorreu em 2018 durante uma prova de corrida de rua. Eles já treinavam pelo mesmo grupo, mas moravam em cidades diferentes. Ela em Porto Alegre e ele em Sapucaia do Sul. “Desde o início nossos papos foram diferentes. Não eram supérfluos”, conta Taís.

“A gente se sentiu muito à vontade um na companhia do outro, tanto que não falamos nada de amenidades na nossa primeira conversa. Foram coisas muito complexas assim, sabe? Aquelas coisas que às vezes tu não fala nem para o melhor amigo. E não sei porque razão a gente se sentiu muito à vontade.”

Corredores Tais Damasio e Jeferson Dias | Foto: Ricardo Giusti

A conexão fez com que eles começassem a treinar juntos e, com o tempo, a distância foi diminuindo. Hoje, casados, a vida do casal é totalmente direcionada ao esporte. A rotina é dividida entre os treinos de ultramaratonista – com duração que chega a 9 horas – e a administração de uma assessoria esportiva, onde são sócios. Todas as provas de revezamento em dupla eles fazem juntos.

Dividir o estilo de vida – o chamado lifestyle – com quem amamos também requer apoio constante às escolhas do outro.

“A gente vai dormir muito cedo, a gente acorda muito cedo, a gente tem uma alimentação mais regradinha. Eu digo: ‘gente, é impraticável eu pensar em ter um relacionamento com alguém que não não tenha essa mesma vibe’. Porque não existe. Você já imaginou eu ir dormir às 8:30 da noite e a pessoa querer ir dormir à meia-noite ou querer ser baladeira?”

Nos treinos mais longos, o relacionamento é colocado à prova. “Tu imagina 9 horas um casal sofrendo juntos na montanha. Tu tá com o corpo às vezes na exaustão. Naquele dia a gente passou sede, pegamos um sol horrível, não tínhamos mais onde conseguir água. Então assim: tem momentos em que tu fica em absoluto silêncio, mas tem momentos que a gente dá uma xingada no outro, né?”, brinca Taís lembrando ainda de um treino de 40 km em que a situação escalou ainda mais: “eu acabei com a relação umas 10 vezes durante o treino e, logo depois, a gente voltou 11 por sorte, né?”. O casal entende que essas situações só são levadas na esportiva porque eles se conhecem o suficiente pra saber o momento de brincar e também de incentivar.

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✨O casal que corre o mundo juntos

Entre o calendário de treinos e competições da mesma equipe, Eduardo Scarton e Silvia Grando se conheceram em 2013. Era um pequeno grupo, em torno de 40 pessoas, que treinava na Orla do Guaíba. “Havia muita interação no grupo, pré-provas e jantares. Começamos a conversar nestes momentos”, conta Silvia, que é professora de química e corredora.

O casal de corredores Eduardo Scarton e Silvia treinam juntos na Orla do Guaíba | Foto: Camila Cunha

As primeiras impressões que Silvia teve de Eduardo foram de uma pessoa bastante competitiva. Enquanto ela, afirma, corria mais por hobby. A relação trouxe mais equilíbrio para ambos. “Eu acabei me esforçando mais, e ele colocou o pé no acelerador”. Já Eduardo destaca como ponto alto os hábitos em comum que agora eles têm. “Se vai fazer uma maratona, por exemplo, tem que dedicar 4 meses de treino, alimentação, descanso e pouca vida social. E dormir cedo e acordar cedo”, pontua o corretor de seguros e corredor.

A maratona de Londres em 2023 foi uma das experiências mais marcantes do casal na corrida de rua. O evento integra o rol das seis melhores maratonas do mundo, que incluem também Chicago, Berlim, Nova Iorque, Boston e Tóquio. Juntos eles correram Chicago, Nova Iorque e Londres. As demais o Eduardo fez sozinho. A prova também marcava a volta de Sílvia ao esporte depois de dois anos sem correr para cuidar de um problema de saúde. "Quando eu retornei [à corrida], resolvemos ir para Londres. O Eduardo ia completar a mandala das corridas (quando completa as seis maiores maratonas) e, pra mim, a prova era um desafio", conta.

| Foto: Arquivo pessoal Eduardo Scarton

Outro momento marcante do casal foi o Desafrio Urubici, na serra de Santa Catarina. Isso mesmo: desaFRIO. Isso porque o Morro da Igreja tem o recorde de temperatura mais fria do Brasil: -17º C. Eduardo e Silvia fizeram o percurso de 52 km, com revezamento.

"Como eu estava mais devagar, resolvi fazer a subida. Só que eu demorei um monte pra chegar lá no topo. E o Eduardo estava lá me esperando. Só que estava muito frio, muito, muito. Ele estava congelado na chuva", lembra Silvia. O resto do trajeto (a descida) ela fez de ônibus e, mesmo assim, Eduardo chegou na frente correndo.
Para quem quer conhecer alguém legal na corrida – e quem sabe virar namoro –, a dica de Eduardo é focar no pós-corrida. "A energia do pós-corrida é muito boa. Faz você conhecer pessoas ali. Fica aquela adrenalina alta e tá todo mundo na mesma vibe, sabe?"

O casal de corredores Eduardo Scarton e Silvia treinam juntos na Orla do Guaíba | Foto: Camila Cunha