Paixão pela adrenalina: por que as atividades radicais ganham cada vez mais adeptos?

Atividades como tirolesa e salto de pêndulo ajudam na produção de hormônios estimulantes, como dopamina e adrenalina

Aventuras ao ar livre contribuem para sensação de bem-estar e satisfação
Aventuras ao ar livre contribuem para sensação de bem-estar e satisfação Foto : Natural Extremo / Divulgação / CP

A procura por aventuras que desafiam os limites e proporcionam uma dose extra de adrenalina tem se tornado uma tendência crescente entre os brasileiros. Para muitas pessoas, é mais do que apenas o prazer da experiência, trata-se de uma forma de vida, um escape do cotidiano e uma maneira de se reconectar com si mesmos e com a natureza.

A adrenalina é um hormônio e neurotransmissor produzido pelas glândulas adrenais, que são pequenas glândulas localizadas acima de cada rim e são responsáveis por produzir vários hormônios essenciais para o funcionamento do corpo, como também o cortisol e a aldosterona.

Esses hormônios regulam diversas funções vitais, como a resposta ao nervosismo, o metabolismo, a pressão arterial e o equilíbrio de água e sais no corpo em resposta a situações extremas.

Além disso, a adrenalina prepara o corpo para esses momentos de nervosismo ao aumentar a frequência cardíaca, dilatar as vias respiratórias e elevar os níveis de glicose no sangue, fornecendo mais energia para os músculos.

Também intensifica a atenção e a vigilância, permitindo uma reação mais rápida aos estímulos. Sua ação é fundamental para a sobrevivência em situações críticas, mas também pode ser desencadeada em momentos de grande emoção ou excitação.

Por outro lado, a dopamina é o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e recompensa. Quando uma pessoa enfrenta um desafio e o supera, como no caso de um salto de pêndulo ou uma caminhada em highline, o cérebro libera dopamina, criando uma sensação de bem-estar e satisfação. É essa combinação de adrenalina e dopamina que tornam as atividades de aventura tão viciantes para muitos.

Autoconhecimento e superação

Para João Rodolfo, empresário e amante de aventuras, a paixão pela adrenalina começou cedo, ainda na infância. "Desde criança, sempre morei na cidade, mas em constante contato com a natureza, o que despertou em mim um gosto pela aventura e pelo que ela oferece. Em outras palavras, sou um guri da cidade criado no mato", relembra.

No entanto, a rotina e as responsabilidades da vida adulta acabaram ofuscando essa conexão com a natureza e a adrenalina. João conta que tudo mudou quando se viu na beira do Cânion Espraiado, com os joelhos tremendo de medo.

"Foi quando, durante uma contagem regressiva, dei um salto que ressignificou minha vida e minha maneira de viver. Desde então, o Salto de Pêndulo se tornou uma tradição anual – já são 15 saltos e contando”, diz.

"O Salto de Pêndulo é mais do que um salto, é um processo de autoconhecimento e superação. As pessoas saem transformadas, com uma nova percepção de seus próprios limites", explica Allan Pinheiro, diretor de experiências da Natural Extremo, empresa catarinense que atua no ramo das atividades radicais.

Além do Salto de Pêndulo, João não para de buscar novas aventuras. Ele regularmente salta de paraquedas, explora trilhas desafiadoras e se aventura em tirolesas, sempre em busca de renovar essa paixão.

O que motiva alguém a buscar essas experiências?

A psicóloga clínica Larissa Bez, especialista na abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental, oferece uma perspectiva sobre esse comportamento.

"O engajamento em atividades de aventura revela traços de personalidade distintos e características neurobiológicas únicas. Esses indivíduos geralmente apresentam uma maior abertura a novas experiências, encontrando assim, uma forma valiosa de introduzir emoção e prazer, enriquecendo suas vidas ao evitar a monotonia do cotidiano”, explica.

Além disso, segundo Larissa, a pessoa desenvolve habilidades avançadas de regulação emocional, aprendendo a gerenciar medo e ansiedade diante de riscos consideráveis. “Essa capacidade de manter a calma sob pressão é muito importante para a segurança e o desempenho.”

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A adrenalina faz parte do cotidiano de Rafael Bridi, atleta profissional de slackline (modalidade em que os atletas caminham sobre uma fita feita majoritariamente de nylon e poliéster, esticada entre dois pontos, paralelo ao chão) e duas vezes recordista do Guinness Book.

Para ele, a aventura não é apenas sobre o pico de adrenalina, mas sim sobre a conexão profunda com a experiência. "Highline é, por natureza, uma atividade baseada em riscos, que envolve caminhar em uma slackline suspensa a alturas consideráveis”, afirma.

De acordo com Bridi, a chave está em manter uma conexão profunda com a experiência, buscando um estado de fluxo, não um pico de adrenalina.

“Desenvolver uma relação saudável com o medo é fundamental, pois perder o respeito por ele pode levar à complacência e à imprudência. Reconhecer o equilíbrio entre coragem e cautela é essencial para garantir a segurança contínua e o sucesso.”

O acompanhamento psicológico também é importante para os praticantes de atividades de aventura, ajudando-os a encontrar um equilíbrio na vida e a reduzir riscos. “O conhecimento, o planejamento e o apoio são fundamentais para quem deseja se aventurar nessas práticas, assim como diversificar as fontes de prazer e satisfação é vital para manter um bem-estar duradouro", conclui a psicóloga Larissa Bez.